No que diz respeito à resistência e facilidade de convivência no ambiente litorâneo, algumas raças de cachorro se adaptam muito bem, já outras sofrem com o calor e a umidade (Imagem ilustrativa / Gerada por IA) O clima da Baixada Santista, no litoral de São Paulo, traz particularidades que exigem atenção redobrada dos tutores na escolha de um animal de estimação. Fatores como o calor intenso e a alta umidade relativa do ar, comuns na região na maior parte do ano, exercem impacto direto na saúde e no bem-estar dos cachorros. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Eduardo Ribeiro Filetti, veterinário, professor universitário e escritor, explica que o sistema de termorregulação dos cães funciona de maneira muito diferente do nosso: "Os cachorros não possuem glândulas sudoríparas para suar como os humanos. Eles dependem essencialmente da respiração bucal para realizar a troca térmica e regular a temperatura corporal". Por conta disso, o bem-estar do animal depende diretamente de suas características físicas, tornando algumas raças muito mais vulneráveis às condições litorâneas do que outras. "Não existe raça 'ruim', todas são boas", explica Filetti. Segundo ele, cada cão tem sua função. "Seja de proteção, caça ou companhia, o que temos é que adaptar o animal às condições mais favoráveis a ele", completa. Espaço urbano e o declínio das raças gigantes Além do fator climático, o processo de verticalização urbana e o adensamento imobiliário em cidades como Santos têm modificado o perfil das habitações. A substituição gradual de casas por prédios e apartamentos reduziu drasticamente o espaço disponível para os animais. Segundo o veterinário, embora bairros como Marapé e José Menino, em Santos, e Vila Valença, em São Vicente, ainda concentrem muitas moradias horizontais, a tendência geral de redução de espaço diminuiu a procura por cachorros de porte grande ou gigante. "Cães como o mastim napolitano, mastiff, dogue alemão (antigamente chamado de dinamarquês) e rottweiler perderam espaço devido à falta de áreas adequadas nas novas moradias. Essa mudança de cenário habitacional impactou diretamente as criações dessas raças, uma vez que a demanda por animais de grande porte diminuiu significativamente na região", pontua Eduardo Filetti. Campeões de adaptação ao litoral de São Paulo No que diz respeito à resistência e facilidade de convivência no ambiente litorâneo, o veterinário destaca algumas raças que se adaptam muito bem à rotina da Baixada Santista: Vira-lata (Sem Raça Definida - SRD): "É considerado uma das melhores opções para a região. Devido à mistura de sangues e à grande variabilidade genética, os vira-latas são altamente resistentes, possuem menor propensão a doenças e se adaptam com grande facilidade ao calor local"; Pinscher e chihuahua: "São raças excelentes para a vida em apartamento por conta do porte reduzido. Apresentam pelo curto, o que diminui o sofrimento com as altas temperaturas e facilita a higienização no dia a dia"; Boxer: "Entre os cães de médio porte, destaca-se por sua versatilidade. Apesar de ter o focinho curto, possui boa adaptação ao calor (desde que garantidas sombra e água fresca) e oferece um perfil de proteção ao lar, sem demandar o espaço excessivo de uma raça gigante"; Galgo: "Com sua pelagem muito curta e ausência de grande quantidade de gordura corporal, não sofre excessivamente com as altas temperaturas e se adapta bem à rotina local, sendo frequentemente visto em atividades físicas na praia com seus tutores"; Jack Russell Terrier: "É um animal de pelo curto que suporta bem o calor, caracterizando-se por ser muito brincalhão e apresentar facilidade de adaptação às condições climáticas da região". O sofrimento dos cachorros de pelo longo O calor excessivo da Baixada Santista, especialmente com a proximidade do verão, torna-se um desafio crítico para raças originárias de climas frios. O são-bernardo e o akita são exemplos de cães que sofrem intensamente na região do litoral de São Paulo. Filetti esclarece o risco: "O são-bernardo, por ser um cão de grande porte, com pelagem longa e uma espessa capa de gordura, foi moldado para funções de salvamento no gelo e em áreas da Suíça, auxiliando alpinistas e esquiadores. No clima quente e na umidade do litoral, esses cães encontram grande dificuldade para realizar a troca respiratória e térmica, ficando constantemente ofegantes". O veterinário acrescenta que o akita, embora tenha um risco ligeiramente menor por ser menos pesado do que o são-bernardo, compartilha dos mesmos problemas devido ao seu porte grande e pelagem densa. Raças como o husky siberiano e o malamute-do-alasca também sofrem de forma semelhante por possuírem pelagens muito extensas e, por vezes, dupla pelagem, desenvolvidas originalmente para resistir ao frio extremo. No cenário litorâneo, o sistema respiratório desses animais fica sobrecarregado ao tentar acumular as funções de respiração e de equilíbrio térmico. Sem a refrigeração adequada, o superaquecimento pode provocar desidratação, fraqueza, desmaios, convulsões e quadros graves de hipertermia. Pele em risco Além dos problemas térmicos, a combinação de calor intenso e umidade constante eleva consideravelmente o risco de problemas dermatológicos. "Cães de pelo comprido e denso têm maior propensão ao desenvolvimento de fungos e infecções de pele graves, que demandam tratamentos longos e de cura difícil. Raças como são-bernardo, husky siberiano ou akita só conseguem viver sem sofrimento na região caso fiquem alojadas em ambientes permanentemente climatizados, com ar-condicionado ligado", alerta Filetti. Os riscos específicos de outras raças populares O veterinário também faz um alerta sobre outras raças muito comuns em ambientes domésticos, mas que enfrentam vulnerabilidades severas no litoral de São Paulo: Maltês: sofre excessivamente quando exposto ao calor ao longo do dia, necessitando de ambientes ventilados ou resfriados; Pug, buldogue francês e buldogue inglês: por serem cães braquicefálicos, ou seja, com o focinho muito achatado, apresentam severa dificuldade na troca de calor. Na atmosfera pesada e úmida do litoral, superaquecem rapidamente e correm risco de morte em passeios realizados em horários inadequados; Chow-chow: além de sofrer bastante com as altas temperaturas, possui forte predisposição a problemas de pele e pode apresentar episódios de taquicardia e taquipneia em dias mais quentes; Golden retriever: embora goste de frequentar a praia e brincar na areia, a pelagem longa dificulta a termorregulação. Além disso, o contato constante com a areia costuma desencadear problemas dermatológicos sérios; Dachshund (teckel): adapta-se bem ao clima litorâneo, especialmente os exemplares de pelo curto, e costuma ser excelente com crianças. No entanto, apresenta forte tendência genética a problemas na coluna e nos joelhos, além de predisposição à obesidade. O excesso de peso sobrecarrega ligamentos e articulações, agravando problemas ortopédicos. Por isso, exige controle rigoroso da alimentação, com rações de baixo teor de carboidratos e gordura, além da prática constante de exercícios para manter o peso ideal. O que vale é o equilíbrio Independentemente da raça escolhida, o veterinário conclui que o equilíbrio entre as características biológicas do animal e a rotina oferecida pelo tutor é o fator determinante para garantir a saúde do pet nas cidades litorâneas.