As mudanças climáticas podem causar o aumento de casos e o prolongamento das epidemias de dengue. Historicamente, com a chegada do inverno, clima mais seco e temperaturas mais baixas, espera-se que o vírus seja contido e o número de casos da doença diminua. Porém, um estudo (veja mais abaixo) associa o alto contágio às alterações climáticas e temperaturas instáveis. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O infectologista Marcos Caseiro explica que a temperatura do ambiente interfere na proliferação do Aedes aegypti. “O ciclo de vida do mosquito está diretamente relacionado às temperaturas médias”, afirma. Leonardo Weissmann, também infectologista, acrescenta que as temperaturas mais altas estimulam a replicação do vírus dentro do mosquito. “Áreas que tinham invernos frios agora contam com temperaturas mais amenas, fazendo com que o Aedes sobreviva e acabe se reproduzindo por um tempo mais prolongado. Isso faz com que a transmissão tenha um período mais longo, não se restringindo somente ao verão, que era o que estávamos acostumados a ver”, acrescenta. Diminuição Já o infectologista Roberto Focaccia acredita que o tempo mais seco no inverno faça o número de casos diminuir. Outro fator que auxilia a diminuição da contágio são as roupas: no clima mais frio, as pessoas estão “mais vestidas”, portanto menos expostas às picadas. Mas ele concorda que está sendo quase impossível “prever o tempo”. A expectativa do especialista, contudo, é de um inverno típico. Com isso, ele calcula uma redução de 70% a 90% no número de casos a partir do próximo mês. “Se isso falhar, e é possível que aconteça, pode ser que os casos se mantenham, mas sempre um pouco mais reduzidos”, complementa. Sem baixar a guarda Por mais que sejam esperados períodos mais secos e com menos chuva, as larvas do mosquito podem sobreviver por mais de 300 dias em locais secos – como beira de vasos e calhas d’água –, explica Caseiro. Ou seja, quando tiverem contato com água ou chuva, vão eclodir. Por isso, a população deve aproveitar os dias mais secos para eliminar os focos do mosquito. Assim, quando o verão chegar, com chuvas e umidade, a propagação seja reduzida. “Embora o risco de dengue seja menor no inverno, os cuidados têm de ser contínuos, eliminando os criadouros, evitando o armazenamento de água. A educação e a conscientização da população sobre o risco da doença também devem ser contínuas”, acrescenta Weissmann. Apesar de todas as pessoas serem suscetíveis à infecção pelo Aedes aegypti, crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças crônicas e comorbidades tendem a enfrentar a doença com mais gravidade. “A maior mortalidade está entre crianças e adultos acima de 60 anos”, explica Caseiro. Outros vírus Mas não é só o vírus da dengue que ronda a Baixada Santista e o Brasil. Com a chegada do inverno, também é comum a proliferação de outros vírus, como influenza e até mesmo o covid-19, que podem ter sintomas semelhantes aos causados pela dengue, como dor no corpo e febre. Caseiro orienta que, ao apresentar os sinais, deve-se iniciar hidratação, tomar bastante líquido e procurar um serviço médico, para que o diagnóstico seja feito de forma adequada. Por sua vez, Weissmann relembra que durante os dias mais frios é comum as pessoas ficarem mais aglomeradas, em ambientes fechados. Por isso, é recomendável manter esses ambientes arejado o quanto for possível para evitar contágios. Por fim, os três especialistas orientam a população a manter a vacinação em dia, para saúde e também para evitar a propagação dos vírus na Baixada Santista. De acordo com a agência Fiocruz, um artigo publicado no portal Scientific Reports, da revista Nature, chamado Mudanças Climáticas, Anomalias Térmicas e a Recente Progressão da Dengue no Brasil, do pesquisador Christovam Barcellos, do Observatório de Clima e Saúde, do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), a dengue vem se espalhando para as regiões Sul e Centro-Oeste, onde a doença não era tão comum. O estudo, que durou 21 anos, aponta o aumento dos eventos climáticos extremos como as secas e as inundações, bem como degradações ambientais como causas do aumento da doença. Dados Até o momento, a Baixada Santista teve 36.588 casos notificados, sendo 20.346 já confirmados. Foram foram contabilizadas 19 mortes e outras 30 estão em investigação. Segundo dados do Governo do Estado, os casos começaram a ter uma curva crescente na região entre o final de janeiro e o início de fevereiro, apresentando o pico abril. No primeiro dia desse mês foram registrados 386 casos da doença. O declínio no número de casos começou em maio.