Para Hugo Tadeu, mercado de trabalho demanda profissionais com criatividade (Arquivo Pessoal) Responsável, no Brasil, pela parceria com o Fórum Econômico Mundial na elaboração do mais novo estudo “O futuro do emprego”, divulgado este mês, a Fundação Dom Cabral alerta empresas e empresários sobre a formação de novos profissionais, a necessidade de qualificar a mão de obra em um cenário de redução da natalidade e de inversão da pirâmide etária e as habilidades que serão necessárias àqueles que quiserem continuar relevantes nesse novo cenário. Na entrevista abaixo, o professor responsável pelo estudo, Hugo Tadeu, fala sobre o papel do setor de recursos humanos dentro das empresas, que deve ser de identificar as novas demandas, preparar seu quadro de colaboradores e aproveitar os talentos que já existem. O estudo aponta as profissões e atividades que estão em alta nos próximos anos, focadas em tecnologias digitais e sustentabilidade, e as ocupações que devem desaparecer, entre elas, funcionários de serviços postais, caixas bancários, atendentes, assistentes administrativos e secretárias executivas, trabalhadores de impressão, contadores, auxiliares de contabilidade e de folha de pagamento, entre outras. Já há quase dez anos o relatório “O futuro do emprego” é produzido pelo Fórum Econômico Mundial e, aqui no Brasil, em conjunto com a Fundação Dom Cabral. Que diferenças/mudanças vocês observaram no perfil das novas funções ao longo desse tempo? O avanço da tecnologia e da automação é o que tem pautado essa jornada de transformação? Ao longo destes anos percebemos que as novas tecnologias digitais deixaram de ser uma promessa e se tornaram uma realidade. De uma agenda de pesquisa em universidades e empresas de tecnologia, a adoção da IA foi concretizada enquanto projeto e com resultados percebidos. Ou seja, as empresas compreenderam a importância real em treinar e desenvolver talentos em temas como análises de dados, machine learning, aprendizado profundo e infraestrutura digital. Para isso, a evolução do comportamento da área de gestão de pessoas tem sido chave, saindo de uma agenda normativa e pautada em controle, para um modelo baseado em avaliação de perfis, competências e demandas por desenvolvimento. Diria que o grande avanço foi desta área, combinado com as novas tecnologias digitais. Como o relatório avalia a capacidade do mercado de trabalho brasileiro de se adaptar às mudanças previstas, especialmente em relação à qualificação da força de trabalho? O desafio para o mercado brasileiro é considerável. Ainda tem-se uma mentalidade de contratar mão de obra pronta no mercado para as organizações, gerando um aumento da remuneração para profissionais de tecnologia, quando a pauta deve ser por formação, desenvolvimento e aplicação prática dos novos conhecimentos. Além disso, o debate usual sobre o importante papel das universidades na formação de mão de obra base ainda está na pauta, pois demandamos muito engenheiros e especialistas em sistemas, com viés prático e aplicado. Quais habilidades e competências foram identificadas como as mais críticas para os profissionais se manterem relevantes no futuro do emprego? Além dos conhecimentos técnicos em IA e suas variáveis, o mercado de trabalho demanda por profissionais com autonomia, criatividade, pensamento crítico e que saibam trabalhar em equipes. Outro aspecto levantado foi sobre a demanda destes novos profissionais em trabalhar remoto e por metas, justamente reforçando a busca por autonomia. Isso reforça uma revisão nas organizações pelo senso de controle e supervisão direta, isto é, a busca pelo trabalho presencial muito justificado após a pandemia. De que maneira as desigualdades sociais e regionais podem ser acentuadas ou reduzidas pelas transformações previstas no mercado de trabalho global? As desigualdades regionais e globais tendem a aumentar. Os profissionais qualificados para o ambiente tecnológico usualmente têm ótima formação de base, conhecimentos em idiomas e repertório lógico e quantitativo. Isto é, são profissionais de boa origem e estrutura familiar (renda e anos de estudos em boas escolas), ressaltando um potencial crescimento de desigualdades de renda no futuro, exigindo possivelmente políticas públicas alinhadas ao contexto do crescimento digital atual. O relatório aponta a diferença entre população ativa em países com alta e baixa renda. Nos países com alta, diminui a natalidade e há um envelhecimento da população ativa sem a correspondente entrada de jovens talentos. Gostaria que você situasse o Brasil nesse contexto: onde está o Brasil nesse cenário, já que aqui também diminui a natalidade e a pirâmide etária já começa a se modificar O Brasil se encontra no grupo de países em que o bônus demográfico é um desafio considerável. Ou seja, temos o envelhecimento populacional e redução da taxa de natalidade. Esta combinação pode resultar numa queda da entrada de talentos no mercado e consequentemente da própria produtividade total. Ou compreendemos que o ambiente de negócios está mudando rápido e formamos em qualidade e quantidade esta mão de obra, ou teremos desafios para o crescimento no futuro. O exemplo de políticas adotadas nos EUA e países europeus para esta agenda pode ser um exemplo, com investimentos pesados em formação de talentos, atração de mão de obra de outros países e investimentos em centros de pesquisas de empresas globais para o desenvolvimento de conteúdo local.