[[legacy_image_64264]] Um terço dos lares brasileiros conta com renda de idosos para seu sustento. Em 18,1% das residências, o holerite das pessoas com 60 anos ou mais é a única fonte de renda dos moradores. Eles respondem ainda por 69,8% do dinheiro que entra nesses domicílios, sendo que 56,3% desses recursos vêm de pensões ou aposentadorias. E essa situação ficou ainda mais crítica durante a pandemia do novo coronavírus. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal, GloboPlay grátis e descontos em dezenas de lojas, restaurantes e serviços! Os dados são da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua de 2018 - o mais recente levantamento feito no País - e fazem parte de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) chamado Os dependentes da renda dos idosos e o coronavírus: órfãos ou novos pobres? “Quando morre um idoso, ele não deixa só órfãos, mas familiares mais pobres também. A renda vai embora. Então, há um impacto para a família, mas também para a economia como um todo”, analisa a pesquisadora do Ipea e autora do estudo, Ana Camarano. Aperto O diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), Miguel Ribeiro de Oliveira, afirma que os dados espelham a realidade do País há tempos, porém intensificada devido à pandemia do novo coronavírus. “Muita gente perdeu emprego e renda, daí ter um aposentado na família vira sinônimo de sustento para os parentes”. Ele ressalta, no entanto, que a situação traz um lado complicado para o idoso. “Porque eles já têm baixos salários e dependem desse recurso para a compra de medicação, por exemplo, apertando ainda mais o contracheque”. Na pele Ruth Geraldo Gambine, de 61 anos, viu a situação se complicar ao longo da pandemia e precisa esticar a aposentadoria para auxiliar a família. O genro está com tuberculose, é autônomo e não estava contribuindo para o INSS, o que o impede de ter acesso a benefícios. A filha dela assumiu os cuidados em casa e não tem como procurar emprego agora. “Eles têm três filhos e sempre preciso ter uns trocados no bolso, porque é um gás que acaba ou um alimento que falta”. A aposentada conseguia aumentar a renda quando mantinha uma cantina na porta de casa, no Castelo, em Santos, para vender doces e salgados a estudantes de uma escola que havia na vizinhança. “Com aulas suspensas, não há movimento, então fechei”. A esperança é a concessão de um auxílio-doença para o outro filho, de 36 anos, que enfrenta problemas médicos. “Vim acompanhá-lo na perícia e vamos torcer para que consiga, porque ele está sem condições de trabalhar e sou eu que também pago um Uber ou remédio quando ele precisa”. Sonho A alegria da aposentada Neuza Maria Andrade Oliveira, 57 anos, dá lugar às lágrimas quando fala do sonho de trocar o mundo das vendas de móveis por um negócio próprio, o que também ajudaria a filha, de 27 anos, que está sem emprego. Neuza aposentou-se há três anos, mas continua na ativa para manter as contas de casa, uma vez que mora de aluguel com a jovem e o neto dela, de 10 anos, na Vila Belmiro. E em tempos de mais restrições, ela teve de se adaptar. Com a loja onde trabalha fechada, o WhatsApp virou um assistente. “Não tenho como parar de trabalhar. Ainda ajudo minha outra filha, de 33 anos, que mora em Santa Catarina e está grávida. A pandemia complicou muito. Ainda tenho sonho de montar algo por minha conta, com a minha filha. Seria um incentivo para ela. Tive de adiar a ideia por conta da pandemia. Mas antes de morrer ainda consigo”, brinca. Análise “A morte de um aposentado leva a uma redução de 30% na renda per capita das famílias que têm idosos no País. Às vezes, a gente ouve as pessoas falandoque o idoso já viveu muito,mas vidas idosas importam” - Ana Camarano, pesquisadora do Ipea “Há situações complicadas para aposentados nesse cenário. Quando ele faz um empréstimo para um familiar que não pagaa dívida, isso reduz arenda e impacta nos gastos que ele precisaria ter” - Miguel Ribeiro de Oliveira,Diretor da Anefac