[[legacy_image_8924]] Quase 30% dos professores de Ensino Médio na Baixada Santista não têm formação na disciplina em que dão aula. Outros 13,8% possuem formação compatível com pelo menos uma matéria que leciona, mas não todas. O pior é que essa distorção, que segundo especialistas afeta a aprendizagem dos estudantes e precariza a profissão docente, não é uma realidade apenas na região, mas um problema no País. Conforme o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2019, do Movimento Todos pela Educação, 29,2% dos educadores brasileiros não apresentam formação adequada para a matéria que ensinam. Nos anos finais do Ensino Fundamental, a situação nacional é ainda pior: 37,8% dos professores não tinham licenciatura ou complementação pedagógica na área de atuação. A pedido de A Tribuna, o Todos Pela Educação fez o recorte dos mesmos dados para a Baixada Santista. Quando analisadas as nove cidades, os índices de professores sem formação adequada são de 29,87% no Ensino Médio e 27,39% nos anos finais (6º ao 9º) do Fundamental. Há ainda 13,86% de docentes do Ensino Médio com formação compatível específica em pelo menos uma, mas não em todas as matérias que lecionam. No Fundamental, esses profissionais são 8,28%. Problemas “Quando olhamos para o processo de aprendizagem, o professor é o elemento mais importante dentro daquilo que a escola pode controlar. E para que ele possa desempenhar bem sua função, várias questões precisam ser levadas em consideração: remuneração, condições de trabalho e a formação”, afirma o coordenador de projetos do Todos Pela Educação, Ivan Gontijo. Para ele, há a crença equivocada de que, para ser um bom professor, basta saber o conteúdo. Algo que hoje não é suficiente. “O bom professor não só sabe o conteúdo, como detém estratégias para ensinar os alunos. E essas ferramentas são oferecidas na formação”. Cenário Classes cheias, alunos sedentos por tecnologia, que se entediam com facilidade, vindos de realidades diferentes e que precisam de ajuda para vencer deficiências de aprendizagem acumuladas com o passar dos anos. Esse é o contexto que representa a maior parte das salas de aula do Brasil, um desafio imenso para os professores. Para vencê-lo, a didática é uma ferramenta importante, avalia Valéria (o nome é fictício porque a docente preferiu não se identificar). Valéria vivenciou dois momentos diferentes. Formada em Administração, teve a oportunidade dar aulas de Matemática. Ela conta que, no começo, achou que seria mais fácil, afinal, sabia Matemática. “Ali eu descobri que gostava de sala de aula, mas também que tinha que aprender a ser uma professora”. Anos depois, Valéria fez licenciatura e continuou em sala de aula, mas também percebeu que a formação atual dos docentes ainda é falha. “A gente precisa de mais prática e mais vivência em sala antes de assumir de fato uma classe”. Mudança passa pela valorização da carreira Na avaliação de Gontijo, resolver o problema da falta de formação adequada passa, primeiro, pela valorização da carreira de professor, já que muitos docentes habilitados optam por mudar de profissão. Garantir que eles estejam em sala de aula é uma forma de diminuir as lacunas que exigem encaixes no dia a dia da Educação. “Depois, é preciso ter programas que incentivem a formação inicial adequada dos professores e também um olhar atento à formação continuada. Hoje, a formação continuada é um tema muito sensível que ganha cada vez mais importância”, diz o especialista. Até porque serão essas capacitações que irão preparar os docentes para colocar em prática os currículos atualizados à luz da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e ajudar a garantir que a escola faça sentido aos estudantes. “Trata-se de um desafio, pois as redes têm dificuldades de trazer os professores para a capacitação porque muitos dão aulas em várias escolas, em mais de uma rede, e não têm tempo”. Conteúdo Outro problema apontado por Gontijo é em relação ao próprio conteúdo das formações que precisam ir além de vídeos ou palestras. “Os estudos mostram que essas formações devem acontecer na própria escola, com base na realidade da unidade, com os professores buscando soluções específicas”.