[[legacy_image_290470]] A psicóloga, dançarina, coreógrafa e educadora Cláudia Alonso, uma das responsáveis pelo Tam Tam, concedeu entrevista ao Papo Tribuna e contou detalhes de como se envolveu com o projeto, que completa 35 anos em 2023 e é referência nacional em saúde mental e na luta antimanicomial, com atividades culturais e socioeducativas para crianças, jovens e adultos. Iniciado na extinta Casa de Saúde Anchieta, em 1989, o Tam Tam sempre foi destaque na imprensa nacional e internacional, recebendo diversos prêmios e o carinho do público. Você soube lidar com muitas diferenças desde cedo. Lá atrás, você viveu um preconceito. Isso fez a diferença no seu trabalho hoje? Sem dúvidas. Eu brinco que nunca fui do tipo que só come alface (risos) e meu biotipo não era favorável para o método de balé que a gente usa aqui, que não é brasileiro. Eu tinha uma perna mais comprida que a outra e um problema postural. Por recomendação médica, comecei a fazer balé. Nele, eu tinha o apelido de Rolha de Poço. O apelido é forte, pesado, mas ao mesmo tempo tudo isso me fez criar uma resistência à frustração, uma resiliência, ir em frente, caminhar, fazer acontecer. As coisas foram fluindo em minha vida até encontrar o projeto Tam Tam. Eu diria que isso me fez entender que as coisas não vão ser exatamente como eu quero. Eu vou me frustrar, eu vou chorar também, eu vou ter dores, mas a vida tem que seguir. Você tem um amor às pessoas muito grande. Isso te levou para a Psicologia? Essa profissão ajudou no trabalho que você exerce hoje?Sim. Esse amor vem de família. Minha família é extremamente afetiva. Minha mãe é professora, tudo sempre foi muito explicado em casa. Falo com muita honra que a minha família se originou na rampa do Mercado, Minha mãe tinha sete irmãos, a minha avó costurava para fora, o meu avó tinha um barco de banana e trazia com ele as histórias do mar. Acho que toda essa fruição de sentimentos me levou para a área de Ciências Humanas. Eu nunca me dei bem com Física, Matemática, Economia, não sou boa nisso. Mas essa questão de lidar com o ser humano, de poder dar essa acolhida e ao mesmo tempo ter o distanciamento pedido pela ética, se misturou com o momento em que eu conheço o Renato Di Renzo no Tam Tam e vou para o projeto, quando ele ainda funcionava na Casa de Saúde Anchieta. Lá, eu preciso me distanciar de algumas coisas. Eu precisava de um equilíbrio. A Psicologia me deu essa capacidade do distanciamento, de entender. E quando você vai fazer teatro, porque eu comecei a me tornar atriz pelas mãos do Renato, eu começo a entender porque é importante você se preparar, ensaiar, fazer aula, pois a persona é uma coisa e você é outra. Você falava do Renato Di Renzo, que é o diretor de teatro que criou o Tam Tam. Como foi essa parceria com ele? Eu dançava e dava aulas. E lembro que a criança considerada chata, difícil, era sempre direcionada a mim. Quando me formei na faculdade, fui apresentar meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) para o então secretário de Saúde de Santos, que era o David Capistrano. Foi um barato porque ele perguntou se eu já trabalhava e respondi que sim, mas dando aulas de dança. Disse a ele que, para mim, cabeça e corpo não se separam. Em seguida, ele passou a mão no telefone e ligou para o Roberto Tykanori, que era o interventor na Casa de Saúde Anchieta e disse que o Renato ia gostar de me conhecer. Depois, ele me pediu para ir lá no dia seguinte. Chegando ao local, eu esperava ver tudo o que aprendi na faculdade, sabe? Ver gente babando, ver as paredes cinzas... Subindo aquelas escadas, eu vi um painel com os Beatles desenhados. Estava tão ansiosa, com dor de cabeça... E o que vi foram as pessoas desenhando, fazendo esculturas e ginástica. Eu não sabia quem era paciente e quem era técnico. O Tam Tam é uma revolução em termos de saúde mental no Brasil?Eu acho que é. É uma revolução numa sociedade que ainda se prende demais a estigmas e rótulos, que possibilita oportunismos quando você diz que ajuda o “coitadinho”, o menos favorecido. A gente tem uma forma de atuação que foi aprendida com o Di Renzo lá atrás, que sempre pregou que “não existe ‘não’, mas não é sempre ‘sim’”, e isso é muito profundo. O “vire-se” não é uma bagunça, é muito organizado, e a arte tem essa capacidade de nos fazer entender como diferentes talentos podem se juntar. É um trabalho coletivo. É claro que isso dá trabalho, implica em descer do pedestal, implica em entender que dar voz ao outro é também ter escuta. Não é por pena, não é por me achar boa porque os ajudo. Essa equação eu ainda considero muito difícil, algo estagnado. Como o Tam Tam se mantém financeiramente hoje? O Tam Tam ficou praticamente 30 anos sem receber qualquer tipo de subsídio. Em dezembro de 2023, a gente completa o quarto ano em que começamos a receber um fomento da Prefeitura de Santos. Fala-se sempre na triangulação entre Poder Público, Organizações Não Governamentais (ONGs) e o empresariado. Acho que precisamos do empresariado. Recebemos R\$ 30 mil de valor bruto, mas por causa dos muitos impostos a pagar, como ISS, Darf, ficamos com um líquido de R\$ 22 mil a R\$ 23 mil, e temos 12 colaboradores. É um orçamento muito apertado. A gente fazia o jantar do Tam Tam, que ano que vem conseguiremos retomar, se Deus quiser. Tínhamos as noites do Rolidei, que pararam em virtude da pandemia e queremos voltar a fazer, mas não sabemos quando, só que precisamos do empresariado e dos munícipes. Nós percebemos que o Tam Tam vai para além do Centro de Cultura Patrícia Galvão, porque tem uma ligação com as famílias dos participantes. Como é isso? No meu caso, os meninos me chamam de segunda mãe. Temos esse afeto, que é o impalpável, e conversamos sobre várias coisas. Essas conversas vão desde os beneficiários, que são os meninos, até a turma mais jovem, até com as mães, com as famílias. Às vezes, a gente precisa ter essa intervenção pontual para poder ajudar no processo de individualidade, para que cada um consiga viver com plenitude a sua cidadania. O Tam Tam acaba virando uma família sua.Com certeza. É minha família, é o que eu acredito, o que defendo. O mundo precisa disso, mas eu não queria que precisasse existir o Tam Tam. Eu queria que as coisas fossem de fato verdadeiras e que não houvesse tanto oportunismo, mas está muito complicado. Se você tivesse que definir o Tam Tam numa frase, o que você diria? Tem uma frase do Nelson Rodrigues que uso muito, que é a seguinte: “Nada substitui o ato”. O Tam Tam é ato, sem ato, não existe. O Tam Tam é isso.