[[legacy_image_281618]] A juíza da 2ª Vara Judicial e diretora do Fórum de Peruíbe, Danielle Grandinetti, fala de seu projeto, o Somos Marias, que atende mulheres que sofreram violência doméstica. De onde veio a ideia do Somos Marias e qual a razão dessa iniciativa? A violência doméstica sempre me sensibilizou, mas teve um fato que me chamou bastante a atenção e me chocou. Um homem agrediu sua esposa nas dependências do fórum, enquanto esperava uma audiência. Claro que tomei as providências, decretei prisão para ele naquele momento, mas aquilo mexeu demais comigo. A partir daí, decidi fazer uma sala para as vítimas esperarem a audiência, que, hoje, chamamos de Sala das Marias. Esse foi o pontapé inicial para o projeto, que desde então só cresceu. Hoje, temos uma casa, a Casa das Marias, a Patrulha das Marias e um braço do projeto para tratar do homem, que é o João de Barro. Acredito que é responsabilidade do Judiciário e de toda a sociedade enfrentar a violência doméstica. O projeto começou dentro do próprio fórum e foi crescendo. Como ele funciona hoje? Atualmente, temos uma casa onde funciona o anexo de violência doméstica. Nela, vamos ter servidores da Justiça trabalhando exclusivamente com a temática. Nessa casa também vai funcionar o atendimento multidisciplinar, então a vítima vai ter acesso a tratamento psicológico, acompanhamento de assistente social e orientação jurídica, inclusive para ajuizamento de ação de divórcio, guarda e separação. Além disso, teremos formação de ensino através de um laboratório de informática e uma cooperativa social, para que elas consigam se capacitar, se profissionalizar e passar a ter renda. A vítima de violência deve identificar o ciclo de violência, que começa com a violência psicológica. A partir disso, é possível evitar um feminicídio? Eu costumo falar que a violência psicológica está na base de toda a violência doméstica. Ela começa destruindo a autoestima dessa mulher e, a partir daí, ela tem menos força para conseguir buscar ajuda. Cada violência é de uma forma e cada mulher, única. Mas a gente observa isso como um padrão. Começa com a violência psicológica, que acontece através de insultos, humilhação, ameaças e, depois, tem o isolamento. Toda a rede de apoio começa a se distanciar da mulher e ela se vê sozinha, encurralada. Por isso, demora muito para a mulher buscar ajuda. Falamos numa média de oito anos, ou seja, são oito anos sofrendo até a primeira denúncia. Observamos que o ciclo de violência na verdade é uma espiral e o feminicídio está no fim dele. Até chegar a esse ponto, muita violência acontece. Como observamos um padrão na maioria dos casos de violência doméstica, concluímos que o feminicídio é um crime evitável. Que tipo de evolução no projeto tem sido observada? Quais são os resultados positivos? O que a gente observa é um aumento nas estatísticas da violência doméstica, mas isso não significa que ela aumentou de fato. Na verdade, as mulheres estão se encorajando mais, confiando mais no sistema. Então, é óbvio que a estatística vai aumentar. Eu ouvia muito das vítimas que a medida protetiva, aquela que o juiz defere para que o agressor não se aproxime da vítima, era só um pedaço de papel, que o agressor iria amassar e jogar na cara delas. Por isso, no Somos Marias, desenvolvemos uma patrulha que conta com viaturas destacadas com o logo do projeto para passar uma sensação de segurança para a comunidade, passar uma mensagem de que esse assunto importa, de que estamos aqui e não vamos aceitar a violência doméstica. A Patrulha das Marias visita toda vítima que tem medida protetiva. Vai uma vez por semana saber se o agressor está cumprindo a medida e se a mulher precisa de alguma ajuda, até mesmo uma cesta básica. Fazemos entrega de cesta básica e realizamos todos os encaminhamentos necessários. Há um diferencial no projeto, que é o João de Barro, que atende os agressores. Como isso funciona? A violência doméstica é um crime muito peculiar. A gente vê numa família que vive nessa situação três agentes que despertam preocupação: a vítima, que está no ciclo vicioso da violência; o agressor, temos que fazer com que ele entenda que está errado, entenda a estrutura que ele está vivendo e o porquê de a violência não resolver; e os filhos, que são vítimas indiretas. Com relação aos agressores, a gente formou o João de Barro, que é um grupo reflexivo que promove reuniões quinzenais. Determinamos a participação no grupo junto com a medida protetiva. Isso é coercitivo; caso eles não compareçam, são presos. Costumo perguntar a eles no primeiro encontro: “Quem está aqui e acha que não deveria estar?” Todos eles respondem que acham injusto, que a mulher é louca, entre outras coisas. No último encontro, eu volto e faço a mesma pergunta. Ninguém levanta mais a mão, então percebo que eles estão, de fato, refletindo. Enquanto a mulher tem que olhar para fora para se empoderar, o homem tem que olhar para dentro, abrir mão dos seus privilégios e entender que não é através da violência que se resolve as coisas. Esse trabalho é de transformação, porque, se a gente não trabalhar com esse homem, ele vai agredir de novo. O projeto, inclusive, foi premiado no final de 2021, pelo próprio Tribunal de Justiça de São Paulo. Ele acaba se tornando inspiração para outros municípios também. O que significa isso? Eu não esperava ganhar o prêmio Rompa. Me inscrevi de última hora e fiquei muito feliz, muito honrada de ter ganhado o primeiro lugar na categoria Magistrados, mas o meu maior prêmio foi ter conhecido outras práticas. Lá, eu conheci outra vencedora, na categoria Sociedade Civil, a Humanitas360, que é uma ONG que possibilitou fechar uma parceria muito legal com o Somos Marias. Como a casa surgiu? Foram contratadas mulheres pedreiras, pintoras. Como foi encontrar essas profissionais liberais para cuidar da casa e deixá-la pronta? A gente encontrou esse coletivo de mulheres da construção civil através da Humanitas360. Achei a ideia de trazer mulheres da construção civil muito simbólica. Sabemos que esse é um mercado dominado por homens; por isso, quisemos demonstrar que as mulheres podem estar onde elas quiserem, inclusive na construção civil. A senhora sempre se envolveu em trabalhos sociais? De onde vem esse espírito solidário? Acho que sempre fui assim. Estava ontem conversando com a minha mãe e ela estava me contando que minha avó, que não conheci, foi voluntária por muitos anos e ninguém da família sabia. Minha mãe me contou que ela acha que eu tenho esse espírito da minha avó, e eu tenho essa crença de que é como se ela estivesse sempre comigo. Me sinto realizada quando consigo ajudar outra pessoa. Acredito que estamos na Terra a serviço, para um propósito. Por isso, para mim, é muito importante me encontrar nesse propósito.