[[legacy_image_302883]] Combater a fome, reduzir o desperdício, conscientizar as pessoas sobre a importância de tratar os alimentos como produtos indispensáveis à sobrevivência humana e que, por isso, devem ser cuidados de forma adequada. Em 2024, um dos programas mais bem estruturados do Estado de combate à fome e ao desperdício completa 30 anos: o Mesa Brasil, uma iniciativa do Sesc-SP que também está presente na Baixada Santista desde 2000, atendendo a seis municípios — Santos, São Vicente, Cubatão, Guarujá, Praia Grande e Bertioga. O Mesa, como é chamado, atua percorrendo a cadeia do desperdício nas cidades desde a origem. Diariamente, os caminhões do Sesc saem cedo e passam nos pontos de coleta: feiras livres, supermercados, hortifrútis, sacolões e outros pontos comerciais. Previamente, os proprietários desses locais já deixam separado o material a ser doado, como frutas, legumes e verduras. O Litoral tem uma particularidade, a doação de carcaças de pescado e cabeças de peixe congelado, que servem para compor alimentos ricos em proteína, cálcio e ômega 3. Na sequência, as caixas com as doações seguem para as entidades cadastradas, em geral creches, casas de repouso, berçários, albergues e hospitais. No ano passado, a iniciativa coletou 346.039 quilos de alimentos, de 19 empresas doadoras, beneficiando quase 28.416 pessoas das 64 instituições cadastradas. Capacitação Ariane Feltrin Pasuld coordena o Mesa Brasil do Sesc Santos há cinco anos e explica que o programa foi fundamental durante a pandemia, quando muitas pessoas precisaram ficar em casa, sem trabalho, e sem recursos para comer. “Muitas entidades mantiveram as portas abertas porque eram a única forma de levar refeição a essas famílias”. Além de doar os produtos, a equipe do Sesc capacita cozinheiras e merendeiras a preparar os alimentos com os restos trazidos na doação. “São produtos que para a comercialização já não têm valor, acabam não sendo comprados pelo consumidor, mas continuam ricos em nutrientes. É preciso saber prepará-los para o consumo imediato e também para o congelamento”, diz. Entre as atividades destinadas às entidades assistidas, estão oficinas que incentivam a culinária regional com alimentos da região e da Mata Atlântica, incluindo o uso dos pescados, cujas carnes são normalmente utilizadas no preparo de bolinhos, pirão e caldos para sopa. O Mesa Brasil no Sesc Santos conta com o auxílio de uma nutricionista e uma equipe de nove pessoas (entre motoristas, ajudantes, auxiliar administrativo e atendente), responsável pelas coletas diárias, e distribuição. Iria para o lixo Alexandre Marques Rocha, proprietário do Império Hortifrúti, localizado no Canal 5, destaca a relevância do programa: “Iria para o lixo, porque são produtos que o consumidor já não quer levar para casa”. O Mesa Brasil passa no comércio de Alexandre todos os dias, uma prática que já havia quando ele era feirante. “Na barraca, sempre sobravam coisas que a gente descartava porque não têm mais valor comercial. Eu fazia questão de doar”, conta. Empresários que queiram participar do Mesa Brasil podem contatar o programa procurando diretamente o Sesc, na Rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida, ou pelo telefone (13) 3278-9800. No transporte O Brasil está entre os países que mais desperdiçam alimentos no mundo. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), o País ocupa a décima posição nesse ranking. Todo ano, cada brasileiro desperdiça, em média, 60 quilos de alimentos ainda em boas condições para consumo. O desperdício maior, no entanto, não acontece na ponta do consumo, ou seja, nas cidades e, sim, antes que esses alimentos cheguem à casa do brasileiro. Pesquisa divulgada neste ano, com base em dados da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), aponta que 50% do descarte acontece no manuseio e no transporte dos alimentos, 30% nas centrais de abastecimento (como Ceagesp, na Capital), 10% no campo e 10% no varejo e nas residências. Reflexão A coordenadora do Mesa Brasil do Sesc Santos, Ariane Feltrin Pasuld, diz que o programa acaba provocando uma “reflexão em cadeia”. Algumas dicas para o dia a dia podem ajudar a reduzir o desperdício doméstico. “Comprar hortifrútis só para a semana, se comprar em excesso congelar adequadamente, preferir os alimentos da safra que estejam em boas condições para durar mais e comprar de acordo com as necessidades da família”. Outra observação de Ariane é que muitas pessoas jogam a fruta ou o legume fora quando aparece o primeiro sinal de deterioração. “Uma maçã que está só com um pedaço ruim, por exemplo, pode se transformar em suco, em compota, em geleia. Há técnicas para isso, e o alimento mantém o sabor e os nutrientes”.