Dar o primeiro passo no mundo do trabalho é, para muitos jovens, também um mergulho em descobertas. Mais do que aprender uma função, é nesse início que surgem novos olhares sobre o mundo, sobre si mesmos e sobre o futuro. A Tribuna ouviu seis jovens atendidos pelo Centro de Aprendizagem e Mobilização Profissional e Social (Camps), de Santos, para marcar o Dia do Jovem Trabalhador, comemorado nesta sexta-feira (24). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Na conversa, eles falam sobre o que têm vivido, o aprendizado diário, o contato com diferentes realidades e a confiança que vai sendo construída a cada desafio superado. Ao mesmo tempo, revelam sonhos que começam a ganhar forma e perspectivas que, agora, parecem mais próximas. Por trás dessas histórias, está também o papel essencial das empresas que abrem espaço, acolhem e acreditam no potencial desses jovens, contribuindo diretamente para a formação de uma nova geração de profissionais. João Pedro Souza de Camargo, 21 anos Eu moro na Bacia do Macuco, no Estuário. Antes de entrar no Camps entregava iFood. E também já fui padeiro. Agora, trabalho com TI (tecnologia da informação) na MSC. Também estou terminando o curso de Análise de Desenvolvimento de Sistemas na Faculdade Cruzeiro do Sul, EaD (a distância). Quando terminei o Ensino Médio, fiquei sem fazer nada, numa espécie de limbo. Só queria trabalhar e não fazer faculdade. Eu acho que a desigualdade social interfere em muitas coisas, nas oportunidades que você tem ou deixa de ter, nas suas expectativas. Não existe esse papo de que todo mundo tem as mesmas 24 horas iguais, porque cada um tem uma vivência. O ambiente influencia bastante, não só o externo, mas o interno também. E você morar numa quebrada, todo dia sair na rua e ver o pessoal traficando, essa passa a ser a sua visão de mundo. A sua realidade é aquela, não tem como ter uma perspectiva positiva. Se você fica desempregado e precisa pagar as contas, ajudar em casa, faz o quê? E se eu não conseguisse trabalhar com o iFood? Também depende do nível de sanidade da pessoa, e cada ser humano pensa de uma maneira. Eu não conseguiria roubar uma pessoa na rua, mas tem muitos jovens que moram na periferia que não veem outras saídas. Dizem que as músicas da periferia estimulam o crime, mas eu não acho que é culpa da música. É culpa do sistema. A música, o funk, retrata a realidade. Eu sou privilegiado de estar aqui hoje, tive oportunidade e tenho uma família muito boa. Eu me sinto pertencente, me sinto amado dentro dos espaços, e isso faz a gente se sentir menos à mercê do mundo. Quando terminar o período aqui no Camps e na MSC, pretendo seguir na área de desenvolvimento de software. Também sou artista, faço design, trabalho com edição, com desenho, desde os 14, 15 anos. Não ganho dinheiro ainda, mas comecei a fazer vídeos na internet e está dando muito certo. João Pedro Souza de Camargo (Alexsander Ferraz/AT) Giovanna Monteiro de Lima, 20 anos Eu moro no Embaré e sempre estudei em escola pública. No final do Ensino Fundamental, consegui entrar na Etec, na área de desenvolvimento de sistemas, e gostei bastante. Foi o técnico junto com o Ensino Médio, então, não tinha muito tempo de estudar para o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Quando terminei os estudos, fiquei um pouco perdida, sem estudar nem trabalhar. Tive a oportunidade de entrar no Camps e hoje trabalho na Santos Brasil, em um ambiente muito bom. Sinto que estou melhor como pessoa também, porque eu era muito fechada, não me comunicava muito bem. Hoje, sinto que até minha oratória mudou. Hoje, faço faculdade de Análise de Sistemas no Senac. Eu acho que a maior questão dos jovens é realmente essa preocupação de, “poxa, eu sou tão jovem, eu preciso arrumar um emprego, eu preciso começar meus estudos”, mas não necessariamente a gente precisa começar isso logo depois que a gente se forma. Há muita cobrança. A gente precisa de um tempo de descanso. Cada um tem o seu tempo. Há pessoas que começam a faculdade com 25, 30 anos e sempre estão aprimorando os seus conhecimentos. Então, eu sinto que os jovens precisam parar um pouco com essa ansiedade. Sei que é difícil, ainda mais com acesso à internet e vendo muitas pessoas tendo várias oportunidades, mas cada realidade é diferente. Então, eu aconselho sempre encarar a sua própria realidade: você tem condições de pagar faculdade? Você tem condições de estudar e trabalhar ao mesmo tempo? Tem muitas pessoas que não conseguem. Tem família em que os filhos precisam cuidar das despesas. Outra coisa importante: é preciso ter uma rede de apoio, amigos, familiares. É sempre muito importante a gente ter alguém para conversar, porque esses são momentos em que ficamos muito perdidos. Aqui no Camps, estou tendo uma oportunidade, adquirindo uma bagagem muito grande, porque temos contato com pessoas do mercado de trabalho, que podem te aconselhar. As pessoas do meu setor são mais velhas do que eu, mas elas sempre me aconselham bastante, e eu sempre levo isso pra vida. Dentro de uma empresa, nós podemos contribuir muito com nossas opiniões. Às vezes, as pessoas ficam muito presas dentro das suas caixinhas. Somos de uma geração diferente, temos visões diferentes, mas nos ouvir agrega outras maneiras de trabalhar e enxergar a vida. Giovanna Monteiro de Lima (Alexsander Ferraz/AT) Valentina Patrício Silva, 17 anos Eu morava no Canal 1, mas, atualmente, moro em São Vicente com a minha mãe e a minha irmã gêmea. Eu não tive uma família muito convencional, com pai e mãe presentes. Nós nascemos prematuras, e eu tive paralisia cerebral. Minha mãe sempre trabalhou muito pra sustentar a casa. Meus avós ajudavam a cuidar da gente. Nossa referência de pai era, na verdade, meu avô, que já morreu. Meu pai biológico seguiu o caminho errado e ficou preso oito anos. Pelo fato de sermos prematuras, minha mãe sempre nos protegeu muito, não queria que trabalhássemos, mas eu queria muito, queria ter as minhas coisas. Em 2024, minha mãe concordou em me deixar entrar no Camps e vim fazer a prova. Fui aprovada, foi um momento maravilhoso da minha vida. Comecei a desenvolver melhor a minha comunicação com as pessoas. Aqui a gente tem contato com oportunidades, com novos caminhos. Se temos ou não boa condição financeira deixa de ser uma questão, porque enxergamos oportunidades, novos conhecimentos. A desigualdade social tira os horizontes dos jovens, como se não houvesse nada possível de se fazer. Mas tudo depende das oportunidades que você encontra, que te oferecem. E trabalhar é uma delas. A minha família me ensinou muitas coisas boas, mas não ter um pai presente também foi ruim. A educação e o trabalho mudam a vida. A gente fala do tráfico, que os jovens da periferia são traficantes e tal, mas é uma camada mais rica da sociedade que controla isso. A educação, o trabalho, o conhecimento me abrem portas, me fazem ter senso crítico. Depois que me formei no Camps fui chamada para trabalhar na Cooxupé, uma cooperativa de café. Quando acabar meu período lá, pretendo seguir estudando, fazer faculdade de Psicologia. O tempo passa pra todo mundo, mas o que você vai fazer com ele? Minha mãe é meu exemplo. Trabalhou como gerente de loja e, depois de muitos anos, foi demitida. Sabe o que ela fez? Faculdade de Biomedicina e já está se formando. Valentina Patrício Silva (Alexsander Ferraz/AT) Jonathan Pinto Barbosa da Silva, 18 anos Minha trajetória aqui começou em 2024. Eu era jogador de futebol e nem estava ligando para outra coisa, mas todo mundo me falava que eu era comunicativo, que sabia me relacionar com todo mundo, que seria legal eu fazer a prova do Camps. Passei e, daí para frente, foi só glória. Enquanto eu estava no Projeto Avançar, aqui do Camps, eu continuava jogando bola e, aí, foi o ponto principal da minha vida, porque alguns dias eu não conseguia estar aqui na minha turma porque precisava viajar para jogar futebol. Aí, um amigo me chamou e disse: você quer jogar futebol ou seguir para outros caminhos? Fiquei pensando: “O que o Jonathan quer fazer? O que o Jonathan quer para a vida dele?”. Desisti do futebol. Vi que me sentia feliz dentro de uma turma, fazendo networking, me relacionando. Tenho na empresa onde trabalho um amigo de 50 anos e nós conversamos muito sobre tudo. Ele fala assim pra mim: “Não se prenda muito na profissão, prenda-se ao que você pode fazer pelo mundo, pela sociedade, dentro do que você escolher. Veja qual será seu papel na sociedade. Faça a diferença”. Gosto da carreira militar, mas pretendo seguir fazendo concursos públicos na área do Direito, talvez para promotor ou juiz. Jonathan Pinto Barbosa da Silva (Alexsander Ferraz/AT) Thiago Plácido de Almeida, 19 anos Eu moro no Rádio Clube, na Zona Noroeste, e eu conquistei meu primeiro emprego aqui pelo Projeto Aprimorar, do Camps. Atualmente, trabalho no Grupo Cesari, no setor de almoxarifado. Terminei o Ensino Fundamental e fui para escola pública fazer o Ensino Médio. Eu via todo mundo ao meu redor trabalhando e me sentia um pouco deslocado. Isso me estimulou a ir buscar o meu primeiro emprego e consegui aqui pelo Camps. Nem sabia que existia uma empresa tão grande como a Cesari. Hoje, também faço faculdade de Comércio Exterior e é com isso que pretendo trabalhar depois de formado. Começar a trabalhar em um universo corporativo vai preparando a gente, nos ensina a lidar com pessoas, com opiniões contrárias, com ambientes diferentes das que a gente estava acostumado. Também nos dá incentivo para correr atrás dos nossos sonhos, buscar outras oportunidades. Acho que a minha criação, a minha educação em casa também foram importantes para eu ir atrás de perspectivas. Minha família é meu pilar. Para os jovens, também é muito importante acreditar em si mesmos: “Se eu cheguei até aqui, posso chegar mais longe”. Há uma impressão equivocada de que adolescentes e jovens da periferia não estão pensando em futuro, não estão aí com nada. É cruel isso. Thiago Plácido de Almeida (Alexsander Ferraz/AT) Bryan Rodrigues, 17 anos “Eu moro no Morro Nova Cintra e entrei aqui no Camps no ano passado. Já tinha feito alguns trabalhos como ajudante de pedreiro. Agora, eu trabalho em uma escola particular e ajudo meu padrasto no salão de barbeiro. Trabalhando, como estou agora, perdi a vergonha de falar com os outros. Eu era uma pessoa muito fechada, muito tímida, acho que isso melhorou muito na minha vida. Também estou experimentando coisas diferentes, com ambientes diferentes, conhecendo melhor a Cidade. Tenho em mente fazer faculdade de Psicologia, porque eu acho que sei lidar com pessoas, sei aconselhar, sei ouvir. Trabalhar também me permite ter o meu dinheiro, e com ele pago minha academia, ajudo minha mãe e guardo o que sobra. Para mim, mais empresas poderiam dar oportunidade de emprego aos jovens. É claro que os jovens também têm que ter força de vontade, porque alguns não estão nem aí para nada, não correm atrás dos sonhos. Eu já tive vários motivos para fazer coisas erradas, mas sempre vi o meu futuro lá na frente. E minha avó sempre me falava que eu ia ser uma pessoa boa, que ia ser alguém na vida. E hoje em dia eu estou correndo atrás disso. Bryan Rodrigues (Alexsander Ferraz/AT)