Jorge Mota de Oliveira Junior, o Jorginho Mota, tem 48 anos. Ele foi o primeiro autista eleito para o Legislativo no País. De 2021 a 2024, foi vereador em Guarulhos (SP). Neste Abril Azul, mês de conscientização sobre o autismo, Mota afirma ter obtido avanços para a causa em seu mandato. Porém, crava: “A sociedade é capacitista. As pessoas não estão preparadas para ver um autista em lugares de relevância”. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Mota afirma que sua trajetória na política é resultado de vivências marcadas por dificuldades, preconceito e busca por inclusão. Em visita a A Tribuna, contou que só descobriu ser autista em 2018, após o diagnóstico do filho. “Meu filho foi diagnosticado com autismo e eu não aceitava. Eu falava: ‘Cara, meu filho é muito parecido comigo quando eu era criança’. E, aí, descobri que eu também era autista.” Ele disse ter enfrentado uma infância difícil. Afirmou ter começado a andar e falar apenas aos 4 anos e sofrido violência na escola. Não relatava as agressões por medo de represálias em casa. A decisão de entrar na política veio após buscar apoio na Câmara de Guarulhos e não encontrar espaço para a pauta. Ouviu que “autismo não dá voto” e decidiu disputar uma vaga. “Não só pelos meus filhos, mas por todas as crianças que estariam vivendo o que eu vivi.” Durante o mandato, pelo partido Agir, ele afirmou ter enfrentado preconceito e que o desconhecimento sobre o transtorno é um obstáculo. “O autismo não tem cara, é uma condição.” Entre os projetos que apresentou, Mota destacou a criação de um centro de referência para pessoas com autismo em Guarulhos e uma proposta que reconhece o laudo alusivo ao transtorno como definitivo. “O centro de referência foi o primeiro projeto do Brasil, mas até hoje não foi concluído.” Para o ex-vereador, a política ainda não está preparada para receber pessoas com deficiência. Criticou uso da pauta por interesse eleitoral e defendeu maior participação de pessoas que vivenciam a realidade da deficiência. “Muitas vezes, para garantir um direito, a pessoa precisa entrar na Justiça.” Ele também relatou situações que considerou marcantes. Certa vez, atendeu uma família após um homicídio. No velório, descobriu que a vítima era o colega que o agredia na escola. “Era o garoto que mais me bateu. E eu estava ali como vereador, ajudando a enterrá-lo”, contou. Mota pretende disputar vaga como deputado estadual neste ano, mas reconhece dificuldades. “Estou esperando uma oportunidade. É difícil competir com quem tem muito poder e recurso.” Inclusão é desafio geral no País, afirma ex-vereador Ao falar em inclusão, Jorginho Mota avaliou, de forma generalizada, que o País ainda enfrenta desafios estruturais. “Não temos acessibilidade nas calçadas, nos shoppings, nos espaços públicos. A inclusão hoje é muito precária”. Ele também destaca a falta de suporte para famílias. “As mães atípicas estão ficando doentes porque não têm apoio.” Mota defendeu políticas que garantam acesso ao diagnóstico precoce e suporte às famílias. Ele citou a Carteira de Identificação da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista (Ciptea), que “ajuda a garantir direitos e evitar constrangimentos”. Ele fez um apelo à classe política. “Se quiser representar uma causa, estude. Entenda o que essas pessoas vivem”, pois a falta de preparo pode levar a situações graves. Ele também avaliou que o Litoral precisa avançar em acessibilidade. “Falta muito. Às vezes, o que é simples para uma pessoa, como ir ao shopping, para uma pessoa com deficiência pode ser algo muito difícil”, disse. Para o ex-vereador, a inclusão deve ir além do discurso. “Precisamos olhar com o coração. Só assim a nossa visão vai ser transformada.”