[[legacy_image_240387]] Negligência. Assim relata o músico Lucas Nascimento Carneiro, conhecido também como Lucas NumberOne, sobre sua vivência nos últimos meses com o sistema público de saúde de Praia Grande. O artista, de 30 anos, afirma que seu pai sofreu com um atendimento desumano e lento antes de sua morte na última segunda-feira (16). Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Em entrevista para A Tribuna, o músico conta que teve que parar sua carreira por tempo indeterminado para dedicar seu tempo integralmente ao seu pai, que lutava contra um câncer em fase de metástase. O eletricista aposentado, Luiz Carlos Carneiro, de 55 anos, descobriu um câncer na orofaringe em 2018. A doença fez com que o profissional se aposentasse, perdesse a voz e ficasse dependente da família até seus últimos dias. Lucas era filho único e diz que cuidava de Luiz em tempo integral, com a ajuda de sua madrasta. Por isso, o sonho de se tornar um artista de sucesso teve que ser deixado de lado, enquanto dedicava seu tempo à recuperação de seu pai. “Ele teve câncer de orofaringe há cinco anos, fez acompanhamento e tratamento. Porém, durante a pandemia, o SUS parou de fazer atendimento e meu pai foi prejudicado”. “Quando o atendimento voltou, continuamos a rotina de acompanhamento periódico e foram detectadas algumas questões pela tomografia. Encontraram lesões no fígado e no pulmão. Só que, por não ter contraste, o exame só identifica a lesão, mas não o que seriam e de onde elas vieram”, conta. Recentemente, Lucas tinha criado uma vaquinha para custear exames necessários para iniciar o tratamento e uma ajuda financeira com alimentação por sonda e medicamentos. Esse valor foi utilizado para comprar itens necessários durante a internação de Luizi. “Meu pai estava perdendo muito peso e a condição cada vez mais debilitada. Ele dependia de mim para ir ao banheiro, não conseguia mais ficar de pé. Ele pesava 33 quilos e conseguimos uma cadeira de rodas por doações para transportá-lo”, relembra. O quadro de Luiz começou a piorar na sexta-feira (13). “Meu pai teve hemorragia, sufocamento e foi internado. Estávamos no Hospital Irmã Dulce. Fiquei com ele, acompanhamento 24 horas”. Durante a internação, Luiz teve um problema com vazamento de sonda, não conseguia se alimentar e, por já estar muito debilitado, entrou em quadro de anemia profunda. O Hospital Irmã Dulce informou, na época, que o paciente apresentava diagnóstico grave de câncer de pulmão avançado. “Internou com descompensação da doença para cuidados clínicos”, disse em nota. Contudo, Lucas afirma que seu pai sofreu nos seus últimos momentos com um atendimento desumano, com falhas e moroso. Segundo ele, a negligência começou na pandemia, onde os exames pararam de ser agendados. “Meu pai morreu e sequer houve uma data para a realização dos exames”. Além disso, afirma que foi necessário comprar uma sonda para que Luiz se alimentasse corretamente dentro do hospital, pois a que o paciente utilizava era uma 'gambiarra'. Não era uma sonda gástrica. Ele conta que uma médica recomendou que comprasse o item correto. Lucas diz que há meses tentava conseguir uma vaga para seu pai realizar exames e descobrir a origem do câncer em que lutava para começar o tratamento. Em poucos dias internados, esses procedimentos foram feitos. Apesar de realizados, o artista conta que foi tarde demais para conseguir dar uma oportunidade de seu pai tratar os tumores que se espalharam pelo fígado e o pulmão. Quando comentou a situação com um médico, disse ter ouvido do profissional: "É o SUS, né? Você sabe como funciona” O limite do músico foi atingido pouco antes de seu pai morrer. Uma enfermeira se recusou a atender Luiz, enquanto o mesmo sufocava. “Ela poderia correr para chamar alguém, gritar ou tocar uma campainha. Ela simplesmente ignorou o sufocamento do meu pai e pediu para chamar outra pessoa, pois ela não iria atendê-lo". “Esse meu apelo é para que seja feito alguma coisa, qualquer coisa. Para que outras pessoas não passem pelo que meu pai passou. Meu avô perdeu um filho, eu perdi um pai e minha madrasta perdeu o marido. Nossa família chora e sofre por pensar que se as coisas fossem diferentes, ele estaria aqui conosco. O mínimo de dignidade ele merecia e não teve”, explica. O músico cita que escreveu uma música em homenagem ao pai dele e em breve será lançada para comemorar a vida de Luiz Carlos. Como forma de manter a herança e o legado do eletricista em sua vivência. O Complexo Hospitalar Irmã Dulce informou, em nota, que lamenta a morte do paciente, mas negou os relatos de Lucas, afirmando que as acusações não procedem. “Apesar de não ser referência em tratamento oncológico, a unidade se dedicou a atendê-lo da melhor forma”. Ainda, o Irmã Dulce afirma que a unidade tem todos os recursos necessários como sondas e insumos. Questionada sobre o caso, a Secretaria de Saúde Pública (Sesap) de Praia Grande disse que está apurando as denúncias e que tomará todas as providências cabíveis, caso necessário.