[[legacy_image_101296]] Túneis, rodovias, pontes e balsas fazem parte das aulas de direção da instrutora Josiane Sena, de 42 anos. A profissional de Praia Grande aposta nas dificuldades do trânsito para ensinar alunos que já têm Carteira Nacional de Habilitação (CNH), mas, por algum motivo, não dirigem. A ideia de 'ressignificar' a função de instrutora em autoescola para seguir carreira ‘sozinha’ surgiu após ver a quantidade de pessoas que precisavam de treinamento para a ‘vida real’. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Em entrevista à A Tribuna, Josiane conta que começou a carreira de instrutora há 21 anos: “Trabalhei por 18 anos como funcionária de autoescola”. Há cerca de três anos ela decidiu mudar de vida treinando pessoas já habilitadas e pessoas com deficiência que pretendem ter CNH especial, atuando em Praia Grande, Santos, São Vicente e Cubatão. “Habilitados que, por alguma razão, não conseguem dirigir: porque ficou com algum trauma; não teve veículo assim que tirou a CNH; sofreu um acidente de pequeno ou grande proporção”, ressalta a instrutora, que trabalha de segunda a sexta com habilitados e aos sábados com pessoas que pretendem obter a CNH especial. A ideia de sair do tradicional surgiu enquanto Josiane ainda atuava em autoescola, pois ela oferecia aulas particulares para alunos que já tinham sido aprovados. “A preparação da autoescola é mais voltada para a prova. A ideia é: depois que você tirar habilitação, se você tiver alguma dificuldade no seu carro, você pode me contratar”, destaca a instrutora. Desta forma, ela oferecia o serviço de aula nos veículos dos próprios alunos, mesmo com os carros sem duplo comando (para controle do instrutor): “Porque eu conhecia o perfil do aluno. Se vai bem no meu comando de voz, eu sou capaz de dar aula sem ter o duplo comando”. O serviço, portanto, acontecia nos horários livres do emprego fixo, pois apenas aumentavam a renda. No entanto, a demanda cresceu e tomou uma proporção maior do que Josiane esperava. Mudança de vidaDesta forma, a mudança de vida aconteceu após a decisão da filha de cursar Medicina. Ela viu as despesas aumentarem. “A procura foi crescendo de tal maneira que não dava mais pra conciliar o horário da autoescola com as aulas particulares. Tinha que ter uma sequência, um acompanhamento com o aluno, então comecei a fazer por conta própria”, explica, dizendo que conseguiu enxergar uma perspectiva de crescimento de renda somente com as aulas particulares, pois superariam o salário da autoescola. Josiane informa que a decisão não foi fácil. “A dúvida, o medo de trocar o certo pelo incerto mexia bastante comigo”, enfatiza. Porém, como é credenciada pelo Detran-SP, não viu motivos para deixar o medo tomar conta e resolveu começar a investir. “Comprei um veículo 1.0 próprio para treinamento, mandei adesivar e adaptar. Contratei uma agência para fazer o marketing porque eu não sabia fazer, mas sabia que tinha que ter uma propaganda para divulgar meu nome”. O trabalho ganhou repercussão. Apesar do sucesso de uma agenda cheia, a instrutora explica que o começo foi bem difícil, pois o carro era antigo e quebrava bastante. “Eu sou desesperada com horário, sou extremamente pontual, aquilo estava me deixando louca”, conta. Desta forma, ela resolveu investir mais uma vez e trocou de veículo: “Eu posso falar hoje que além de profissional, eu tenho muita sorte, procuro fazer trabalho bem feito e as pessoas vão falando uma para outra”. [[legacy_image_101297]] Além do trânsitoAlém da prática no trânsito, o trabalho de Josiane envolve o emocional dos alunos: “As pessoas entregam nas minhas mãos o medo, a frustração e o sonho”. Isso porque, segundo ela, diversos alunos não possuem confiança. “Eu faço tudo o que a autoescola não faz”. De acordo com a instrutora, a maioria dos treinos de habilitados acontece com mulheres. “Quando algum homem me contrata, ele já sabe o que quer”, explica, dizendo que normalmente são casos onde o motorista não consegue manobrar, entrar em garagem, dirigir em morro ou outra situação. “Ele dirige, mas não faz algum tipo de coisa, então me contrata para corrigir”. No entanto, os homens não costumam divulgar e comentar sobre o serviço prestado por Josiane. Por outro lado, as mulheres contam que o serviço da instrutora transforma vidas. “Para a gente é uma coisa tão banal, mas, para quem não sabe, é um acontecimento. É uma realização que a gente não tem noção do que significa”, enfatiza Josiane. SuperaçãoEntre os diversos casos de superação, a instrutora conta que teve uma aluna que perdeu uma filha em um acidente de carro. “Com o tempo, ela retomou e conseguiu voltar a dirigir”, diz. O segredo, segundo ela, é trabalhar a parte motivacional. “Faço com que elas acreditem que são capazes, mas para fazer uma pessoa acreditar que é capaz não é tão simples assim, exige muito cuidado, dedicação e persistência”, relata.