Mães de pacientes de clínica em Praia Grande reclamam sobre problemas no atendimento (Reprodução/Pixabay) Mães de pacientes atendidos por uma clínica de Praia Grande, voltada para crianças com necessidades especiais, têm entrado em desacordo com a direção do espaço. Segundo elas, o problema acontece por conta da exclusão das crianças e pela recusa à assinatura de documentos que, segundo elas, anteciparia sessões não realizadas. A direção nega. (Leia o posicionamento mais abaixo). Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com a agente administrativa Thatyana Santos Andrade Gomes, de 40 anos, a unidade de Praia Grande do Centro de Reabilitação Neurológica Matheus Alvares (CMA), tem sido insuficiente no atendimento a crianças dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA). São alegados, além da assinatura antecipada de documentos alusivos a atendimentos que ainda não foram realizados, problemas como falta de profissionais e redução no tempo de atendimento às crianças autistas. “O meu filho tem três horas semanais para fazer na clínica e isso não vem sendo entregue. Ele está o ano inteiro sem terapeuta ocupacional (T.O.). Só que, na hora de assinar as guias para o plano de saúde pagar, a gente tem que assinar normalmente. Isso não está certo. O tratamento dos nossos filhos está sendo prejudicado com toda essa situação”, afirma. Segundo ela, os questionamentos à conduta da clínica passaram a incomodar os gestores do estabelecimento. “Quando chega no fim do mês, as mães começaram a falar 'Olha, não vou assinar esse profissional, porque meu filho não teve' (atendimento). Por exemplo: chegou agosto e a clínica já mandou mensagem para as mães assinarem as terapias do mês inteiro. No dia 1º, assinar que o filho fez a terapia desde o dia 1º até o dia 31. E as mães começaram a questionar”. Foi quando, sob a orientação de advogados, o grupo de mães resolveu que nenhum documento seria assinado por elas, sob risco de fraude aos planos de saúde. Isso teria causado a exclusão das crianças dos atendimentos. “Ninguém recebe primeiro para depois trabalhar. A clínica começou a coagir todas as mães, que quem não assinasse, os filhos estariam cortados do atendimento”, relata Thatyana. Indignada, ela prossegue o relato. “Estamos procurando justiça. Os advogados falaram que isso não pode e aí a gente teve a ideia de montear, porque tem outras mães lá passando por isso sem saber o que fazer, como proceder e a gente entende que são crianças vulneráveis”. Imagens enviadas à Reportagem mostram o pedido da clínica para a assinatura das chamadas “reservas de vagas”. Mais reclamação A corretora de imóveis Alessandra de Melo Borges Manccini, de 47 anos, reforça as queixas comuns às mães. Segundo ela, mãe de uma menina de 8 anos, que é autista nível 3 de suporte, há seis meses, começou a mudança na forma de tratar os pequenos. “Notamos alterações de agenda sem aviso, sem consulta de pedido médico. E essa última que fez com que eles a desligassem da clínica, pois eles queriam que eu assinasse pedidos antecipados, já que ela faz essa terapia por meio de liminar judicial. Então, o plano de saúde paga direto para a clínica”, afirma. De acordo com a mãe, o tipo de folha assinado, segundo ela, há quatro anos, vai para o plano para pagamento e não corresponde à reserva de agenda. “Ofereceram uma agenda avulsa, caso eu não assinasse, que não corresponde com um tratamento médico, porque ele exige uma continuidade. Atualmente, minha filha está sem o tratamento. E a gente agora está vendo a possibilidade de mudança para procurar outros profissionais que possam atendê-la. Esses dias perdidos não voltam, então eles causam muito prejuízo”, lamenta. O que diz a clínica Rodrigo Reis, diretor da CMA, foi procurado pela Reportagem para responder sobre as reclamações. Segundo ele, as reservas de agenda não têm nada a ver com as guias a serem pagas pelos planos de saúde. “Existe um procedimento na clínica, até para garantir a agenda das crianças, e uma segurança para os pais, que é a reserva de agenda. Todo início do mês, a mãe assina a reserva de agenda, que fala sobre os horários que são disponibilizados para o tratamento da criança. Então, é uma garantia que a mãe tem de que, ao chegar naquele dia, naquele horário, a criança será atendida. Além de opção de agenda fixa, temos a agenda avulsa, onde a criança será atendida da mesma forma – mas ela tem que fazer uma opção expressa. A diferença é que, antes de ir para a clínica, ela precisa entrar em contato para verificar um horário disponível”, argumenta. Ele nega a exclusão das crianças. “Duas ou três mães não quiseram nem uma opção, nem a outra. Ao não aceitarem nenhuma das duas opções, elas automaticamente renunciam ao tratamento. Elas optaram para ir em outro prestador. Elas estão equivocadas, porque temos acordo com praticamente todas as operadoras de saúde. Caso eu cobrasse algo indevido, o plano confrontaria as informações. Além de não me pagar, poderia tomar uma atitude mais drástica, como um descredenciamento. Então, não trabalhamos de forma alguma (com antecipação de guias). Não cabe para nós receber por serviços não prestados”, diz o diretor. Sobre a falta de profissionais, ele atribui, no caso dos terapeutas ocupacionais, a um problema de baixa oferta no mercado. “O T.O é um problema nacional. Hoje, são formados menos profissionais do que o mercado pode absorver. Temos uma pousada que alugamos, para disponibilizar gratuitamente aos profissionais que trazemos do Brasil inteiro. Eles moram gratuitamente nessa pousada, com toda a estrutura, para que tente minimizar essa falta de profissionais”. A substituição por outros profissionais, no entender de Rodrigo, é vista como normal, dentro do método utilizado na clínica, o ABA (sigla que vem do inglês, Applied Behavior Analysis, ou Análise do Comportamento Aplicada), que tem por objeto de estudo o comportamento humano. “Mesmo não tendo um profissional, essa terapia continua. É feita uma substituição com outra terapia. A ABA é cientificamente comprovada e ministrada por psicólogos. Há inúmeros formatos de atendimentos e não há perdas”, assegura. Sobre a diminuição do tempo de sessão, de 60 para 50 minutos, o diretor da CMA afirma que é viável a manutenção da qualidade com menos minutos disponíveis. “Normatizado no nosso contrato com os planos, existe um tempo mínimo necessário para que a terapia seje efetiva. Mesmo porque, depois da sessão, o terapeuta tem que entregar a criança à mãe, dar uma devolutiva sobre o dia e relatórios de evolução. São dez minutos de intervalo, com uma sessão de 50 minutos, um tempo ideal ou suficiente para a atividade com a criança”, finaliza o profissional.