A Alameda Armênio Mendes liga o Canal 6 à Rua Alexandre Martins, em Santos. Mas poderia ser uma via que une diversas cidades da Baixada Santista, iniciada há exatos 50 anos e pavimentada com realizações. Hoje, o Grupo Mendes celebra cinco décadas e olha o futuro. Nesta entrevista, o presidente, Paulo Mendes, recorda a trajetória do grupo, a participação no desenvolvimento da Cidade e um novo impulso, com aposta na energia solar. O sr. Armênio veio de Portugal com 18 anos para empreender aqui. Como essa busca por evolução foi passada aos filhos? O meu pai sempre olhou muito além. Sabia exatamente os passos para conquistar aquilo que sonhava, o que ele almejava. A diversificação das atividades do Grupo Mendes foi isso. Meu pai sempre gostou de viver o negócio, de falar do negócio, tanto enquanto trabalhava quanto nas horas de lazer dele. Então, com isso, ele acabava envolvendo a gente. Em meio a tantas atividades, qual era a grande paixão dele? Desenvolver projetos e a construção, propriamente dita, num canteiro de obras. Eu o acompanhava no desenvolvimento do projeto, mas, na parte de construção, essa etapa não tive. Não é que não tive oportunidade, mas a desperdicei. Mas a forma que ele pensava, tomava as decisões, foi um grande ensinamento. Como era para o sr. Armênio o entendimento de que seus empreendimentos ajudaram no desenvolvimento econômico da Cidade, mesmo em meio a eventuais críticas? Ele poderia tomar um caminho que talvez fosse muito mais fácil, mas seria, com certeza, menos gratificante. Ele podia fazer o feijão com arroz. Com certeza, não ia ter tanto risco, mas ele não ia estar completo, feliz. Quando desenvolvia o projeto de um prédio, ele se via enquanto morador do prédio, muito exigente com relação a isso. E nas outras atividades, a mesma coisa. Ele sentia a falta de ter um hotel de nível na Cidade, ao ponto de ele ter montado dois e, depois, ter comprado o terceiro. Ele sentia a necessidade de ter uma opção melhor de varejo e montou o shopping. Uma inquietação positiva. Na construção civil, há alguns prédios que você considera como marcos da trajetória do grupo? Lá atrás, teve o Monte Verde, o Monte Branco, o prédio do elevador panorâmico próximo ao Canal 2. Outro marco foi o Jardins da Grécia, o primeiro condomínio clube. Eram cinco prédios, um negócio grande, diferente. O Prime Plaza, no Gonzaga, também foi um marco. Nossa missão é “transformar sonhos em realidade, impulsionar o progresso e deixar um legado de relevância”. Esse é o nosso propósito. Eu acho que isso aqui reflete bem a história dele e aquilo que a gente está continuando a seguir. Com relação aos shoppings: o que representavam para ele e seguem representando ao grupo? Toda vez que a gente viajava, meu pai escolhia os locais por aquilo que gostaria de conhecer. Saía com a máquina fotográfica e o pensamento de que, “em algum momento, eu vou usar isso aqui num empreendimento meu”. O shopping nasceu daí também. Ele viajava para alguns lugares, Estados Unidos, Europa. Ele gostava daquele movimento lá do shopping, sua pujança, de quanto movimentava e transbordava para as cidades. Não é só isso, porque teve que perceber uma viabilidade no negócio. Quando ele conseguia unir uma coisa com a outra, ele montava. Paulo Mendes: "Vimos o quanto Praia Grande é receptiva e acolhedora. (...) Tenho certeza de que o melhor shopping da rede vai ser o de Praia Grande" (Sílvio Luiz/AT) E o mais novo é o Vilamar, que será construído em Praia Grande. Como está caminhando esse empreendimento? A gente vai começar as obras agora em julho, e a entrega está prevista para setembro de 2027. Estamos comercializando as lojas-âncoras, vamos começar com as satélites, e a nossa expectativa é muito grande. Desde o começo, vimos o quanto Praia Grande é receptiva e acolhedora. Está todo mundo imbuído em fazer o melhor, e tenho certeza de que o melhor shopping da rede vai ser o de Praia Grande. Terá 42 mil metros quadrados de ABL (área bruta locável). Para terem uma relação, o Praiamar possui 40 mil. A gente dividiu em 300 lojas, mas com certeza vão ser mais de 200 operações, porque vai ter muitas lojas que vão pegar dois, três espaços, e montar uma operação. Qual a expectativa quanto ao número de vagas, tanto para a construção como para quando estiver operando? Para fazer, a gente estima em cerca de 2 mil pessoas. Na montagem das lojas, esse número sobe, porque vai ser a nossa força de trabalho, mais várias outras construtoras contratadas para fazer cada uma a sua loja. Depois da abertura, devem ser mais ou menos de 3 mil a 4 mil pessoas trabalhando direta e indiretamente. Em termos de investimentos, como está o Grupo Mendes? A gente tinha três divisões: de incorporação, que são os prédios; de malls, que tem tudo que é ligado a renda, dentre eles shopping, e, lá atrás, a gente abriu, junto com malls, o serviço que tinha os hotéis e, depois, passou a ter o centro de convenções, uma divisão, ela está em stand-by. Mais recentemente, a gente abriu mais uma divisão: energia. Na construção civil, o Residencial Navegantes tem as atenções. É o maior empreendimento da história do grupo. São 260 mil metros quadrados de área construída, 836 apartamentos. E, em termos de VGV (valor geral de venda), é o maior do litoral, com um investimento bastante grande. Em paralelo, temos a construção do shopping em Praia Grande e a nossa franca expansão de energia. Vamos falar mais sobre esse investimento. O que a Ineer Energia representa para vocês? A gente começou com um projeto pequenininho, que foi ganhando corpo com o passar do tempo, impulsionado pelo marco regulatório do (Governo Jair) Bolsonaro, onde a gente dobrou o tamanho dele. Hoje, temos 250 MWp (megawatts-pico), com pretensão de chegar a 300 MWp. A gente está crescendo bastante em energia e explora a geração distribuída de energia solar. Além disso, estamos em 485 municípios paulistas. Com relação às obras que o Grupo Mendes faz fora do core business da empresa, como por meio de outorgas, como isso mexe com vocês? Essa questão das outorgas que a gente pagou, efetivamente investimos R\$ 118 milhões. Teve a UME (Unidade Municipal de Educação) Paulo Gomes Barbosa, no Jabaquara, a remodelação toda da Ponta da Praia, o Deck do Pescador, o Centro de Convenções e o Mercado de Peixes. Tem mais algumas outras pequenas obras ou acessórias. Por que a gente aceitou aderir para pagar essa contrapartida? Para ter, única e exclusivamente, o direito de igualdade com os vizinhos. Nós tínhamos dois terrenos que tinham limitação com relação ao terreno. Uma delas, de R\$ 80 milhões, que era do Centro de Convenções e do Mercado de Peixes. A gente ia tirar a limitação e, consequentemente, fechar o Mendes Convention, mas sabia a importância do equipamento para a Cidade. A gente aceitou pagar essa outorga cara, mas importante para a Cidade. A construção da escola teve algo especial, não é? Foi uma experiência diferente para a gente, mesmo porque era pré-moldada. E a gente fazia só convencional. E, no decorrer da obra, vimos a expectativa das pessoas que moravam na vizinhança. A das mães, vendo que uma escola estava sendo construída para poder acolher os filhos. E o próprio pessoal que trabalhava lá, porque, eventualmente, algum familiar dele ou algum filho dele ia estudar lá. Foi uma experiência gratificante. Como é que foi ver a trajetória do seu pai descrita na avenida, no desfile da Unidos dos Morros, campeão do Carnaval de Santos? Em 2019, foi a primeira vez que a direção da escola propôs a homenagem, e achamos que estava cedo demais. Mas aconteceu em 2023. Foram muito gratificantes o carinho e o respeito com que a escola abraçou a história do meu pai. E o dia foi maravilhoso. A gente trouxe um grupo de familiares de Portugal para vivenciar isso conosco. E mais recentemente, houve a mudança do nome da Rua Guaiaó para Alameda Armênio Mendes. O que isso representa? Foi um reconhecimento muito grande. Temos um projeto grande que está acabando de ser finalizado para remodelar toda a Alameda Armênio Mendes. Nossa expectativa é iniciar as obras no começo de 2026 e entregá-las no aniversário do meu pai (nascido em 2 de agosto de 1944). Uma das coisas é enterrar toda a fiação, para ficar um visual limpo, mais clean. Vai ser uma via de referência. Para encerrar: o que dá para prever para os próximos 50 anos do Grupo Mendes? Eu acho que mais importante do que a história é como foi construída. Tem uma troca muito grande com a Cidade. A gente se vê, nos próximos 50 anos, continuando a cultivar isso. Sendo audacioso nas coisas que a gente faz, nas transformações, se desafiar, se arriscar, para que a gente propicie o bem também para o nosso entorno, que é impulsionar o progresso de forma relevante.