Os dois se encontraram em Praia Grande (Arquivo pessoal/Isaías Lima) Dezoito anos depois de ser baleado durante uma ocorrência policial em Santos, no litoral de São Paulo, o cabo da Polícia Militar Isaías Alves de Lima, de 52 anos, reencontrou o médico que o atendeu no momento mais delicado daquela situação. O encontro aconteceu na última quinta-feira (13), em Praia Grande, durante um patrulhamento. Ao reconhecer Henrique Adhemar Marques Jr., mais conhecido artisticamente como Henrique Marx, o policial fez questão de parar, conversar e agradecer pessoalmente pelo atendimento que recebeu em 2008. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Isaías entrou na Polícia Militar em 1996 e trabalhou durante 24 anos em Santos. Em 10 de março de 2008, estava em patrulhamento pela região da Zona Noroeste, na avenida Manoel Ferramenta Júnior, quando recebeu a informação de que um homem armado estaria dentro de um campo de futebol, local onde hoje é o Sambódromo, tentando assaltar pessoas. O policial comunicou a ocorrência pelo Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) e equipes foram deslocadas. Ao perceber a aproximação dos agentes, o suspeito fugiu de bicicleta e efetuou diversos disparos. Um deles atingiu a mão direita de Isaías. “Eu caí, bati a cabeça e fiquei desacordado. Tive uma fratura exposta em um dedo da mão. A munição ficou presa”, relembra. O ferimento poderia ter sido ainda mais grave. Segundo Isaías, o suspeito atirava na direção dele enquanto o policial estava com a arma na altura da cabeça, fazendo a mira. O tiro atingiu a mão e, caso tivesse passado pelo local, poderia ter acertado a sua cabeça. Atendimento médico Após ser atingido, Isaías foi colocado em uma viatura e levado ao Pronto-Socorro da Zona Noroeste. Foi ali que conheceu Henrique. “Por obra do destino, quem estava de plantão naquele dia era o doutor Henrique. O atendimento dele foi excepcional”, lembra. O policial conta que recobrou a consciência no pronto-socorro e encontrou no médico uma figura importante para ajudá-lo a controlar o medo provocado pela situação. “Ele a todo momento me mandava ficar calmo. Você trabalha há tanto tempo, corre esse tipo de risco, mas não é normal ser baleado. Então você fica assustado. Eu tinha dois filhos na época. A preocupação era minha mãe e minha esposa”, relata. 200 pessoas Henrique lembra que o atendimento ocorreu em meio à rotina intensa do pronto-socorro. Hoje, 18 anos depois, ele admite que não guardava na memória o caso específico de Isaías. “Eu não lembro mesmo. Dezoito anos.... A gente atende às vezes 200 pessoas em um plantão. É muito difícil de se lembrar”, explica. Segundo o médico, policiais também estão entre os pacientes atendidos em emergências, principalmente aqueles feridos durante confrontos. Por isso, ele diz que o reencontro serviu como uma espécie de confirmação de que seu trabalho naquele dia havia cumprido um papel importante. “Eu fiquei feliz que eu fui naquele momento um instrumento para ajudá-lo a sair do medo, sair da emergência e conseguir até fazer com que voltasse ao normal.” Gratidão Depois do atendimento, Isaías foi transferido para o hospital da Polícia Militar, onde permaneceu internado por dois dias e passou a ser acompanhado por um ortopedista. Não precisou passar por cirurgia. A ponta do osso do dedo permanece fraturada, mas não provoca limitações. Três meses depois, ele já havia retornado ao trabalho operacional. Hoje, continua na corporação e completou 30 anos de Polícia Militar em julho. Durante todo esse período, porém, não esqueceu o médico que o atendeu. Transferência Em 2020, Isaías se transferiu para o 45º Batalhão de Polícia Militar do Interior, em Praia Grande, onde mora atualmente. Foi durante uma atividade de patrulhamento, no Bairro Canto do Forte, que viu Henrique novamente. “Eu o vi e pensei: será que é o doutor Henrique? Eu falei para o meu parceiro que eu conhecia aquele médico. 'Eu nunca me esqueci do senhor'”, contou, ao reencontrá-lo. Os dois conversaram, trocaram números de telefone e fizeram duas fotos. Isaías também apresentou Henrique ao parceiro que estava com ele. “Eu falei a ele que a gratidão que vou ter é eterna. Se eu viver 100 anos, são 100 anos. É um cara que não tem como esquecer.” Henrique também se emocionou com a situação, o médico estava levando seu filho até a escola naquele dia. Para ele, ser procurado tantos anos depois por uma pessoa que recebeu seu atendimento foi uma surpresa. “Eu me senti como alguém que recebe um presente inesperado, uma surpresa boa. Quando uma pessoa vem com o coração aberto e de verdade, quando você consegue enxergar nos olhos daquela pessoa a gratidão, o amor de ter sido ajudado, você se sente muito honrado.” O médico afirma que já passou por outras situações semelhantes ao longo da carreira, quando pacientes o reconhecem anos depois e relatam que ele os ajudou em algum momento de dificuldade. “São presentes que não têm preço, que marcam a gente para o resto da vida, na nossa história dentro da profissão.” Henrique também gravou um vídeo para o seu Instagram contando o fato, você pode conferir clicando aqui. Além da medicina Médico ao lado do músico Ximbinha (Arquivo pessoal/Henrique Marques) Henrique também é conhecido na Baixada Santista e nacionalmente como Henrique Marx, pelo trabalho como cantor e compositor, atividade que mantém há cerca de 25 anos. Ao longo desse período, teve músicas gravadas por nomes conhecidos da música brasileira, como Edson e Hudson, Bruno e Marrone, Ximbinha, e segue realizando apresentações em eventos, festas e shows. A música, segundo ele, sempre caminhou ao lado da medicina. “Eu digo que a música é um presente que Deus me deu para eu continuar alegrando a alma, e a medicina é um presente, a missão que Deus me deu para cuidar do corpo das pessoas.” Atualmente, Henrique atua como médico em São Vicente e Santos e segue fazendo shows. Mas, entre as lembranças acumuladas nas duas profissões, o reencontro com Isaías ganhou um significado especial. “Isso ficou gravado na minha história e ficará gravado na minha história.”