Os impactos da pesca predatória na Antártica em cidades da Baixada Santista e demais regiões costeiras do planeta foram apresentados em relatório nesta segunda-feira (9) (Alexsander Ferraz/ AT) O que acontece na Antártica tem reflexo direto no clima e até no turismo das regiões costeiras, incluindo os municípios da Baixada Santista e do restante do litoral de São Paulo. Frentes frias mais intensas e duradouras, por exemplo, são reflexo dos impactos sofridos na Antártica. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Além do derretimento das geleiras, provocado pelo aquecimento da temperatura ambiente e das águas do oceano, uma nova ameaça coloca em risco a biodiversidade e o equilíbrio ambiental da Antártica, um dos últimos ecossistemas intocados do planeta: a pesca predatória do krill, um pequeno crustáceo marinho semelhante ao camarão, que vive em grandes cardumes nos oceanos, especialmente nas águas frias da Antártida. Ele é uma das principais fontes de alimento para diversas espécies marinhas, como baleias, focas, pinguins e peixes. O relatório All Eyes on Antartica (Todos os Olhos Voltados para a Antártica), divulgado nesta segunda-feira (9) em Nice (França) pela Blue Marine Foundation, expõe os riscos ecológicos da sobrepesca de krill. A divulgação ocorreu em evento paralelo à 3ª Conferência das Nações Unidas sobre o Oceano (UNOC3), que segue até sexta-feira (13), com a participação de autoridades de diversos países e pesquisadores da comunidade científica ligada à proteção dos oceanos. Uma comitiva brasileira, liderada pelo presidente Lula, está na França para o encontro. Uma coalizão internacional de cientistas, ativistas e líderes mundiais está pedindo o fim da pesca no Oceano Antártico, começando com a suspensão imediata da pesca de krill, alertando que a exploração contínua da vida selvagem antártica levará ao colapso ecológico e agravará os impactos da crise climática global. Arrastões Ronaldo Christofoletti, professor da Unifesp Baixada Santista, especialista em Cultura Oceânica e representante da Unesco no Brasil para a Década do Oceano, está em Nice e acompanhou a coletiva de imprensa da Blue Marine Foundation. Ele explica que os arrastões chegaram à Antártica e foram arás do krill, em parte pela deficiência de proteção legal que proíba a ação da pesca predatória. A Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos da Antártida (CCAMLR) é responsável por regulamentar a pesca na região, mas algumas decisões têm sido bloqueadas por países como China e Rússia, que resistem à criação de novas áreas marinhas protegidas e à implementação de limites mais rígidos de captura. “É importante todos entenderem que essa não é uma questão que diz respeito apenas à Antártica, mas a todo o planeta. Impactar a biodiversidade de uma região que ajuda a regular o clima é levar reflexos para o mundo inteiro”, diz. Pesca predatória As embarcações que se estabelecem na Antártica sugam centenas de milhares de toneladas de krill em redes extensas, para depois fervê-los e processá-los a bordo — seja para alimentar peixes de cativeiro, produzir suplementos alimentares ou, mais recentemente, ração para animais de estimação. Além de desempenhar papel vital no ecossistema antártico, o krill é a principal fonte de alimento para baleias, pinguins e focas, além de atuar como sumidouro de carbono. Em áreas de alta biodiversidade, como a Península Antártica, a concentração de atividades pesqueiras tem causado declínio das populações de pinguins e focas. Estudos indicam que, até 2100, a biomassa de krill pode sofrer uma redução de até 50%, agravando ainda mais a crise climática global. Christofoletti diz que, entre as ações propostas estão o fechamento total da pesca de krill no Oceano Antártico e a criação urgente de áreas marinhas protegidas representativas. Além disso, é essencial proteger pelo menos 30% das águas antárticas até 2030. “A Antártica não é apenas um regulador climático essencial para o planeta, é também um refúgio para a vida selvagem. Impactar essa área significa comprometer o turismo de muitas cidades do nosso litoral, por exemplo. Quantos turistas viajam para ver a temporada de baleias em cidades costeiras como Arraial do Cabo, Ilhabela, Abrolhos e tantas outras? Ou cuidamos dessa cadeia de biodiversidade ou, em breve, veremos os impactos dessa falta de ação”.