Acervo começou em março de 2022 e reúne 529 fotos feitas em Santos. De acordo com a autora, o Bairro Vila Mathias é o que preserva a maioria desses imóveis de décadas (Reprodução/@casasantigas013) “Assim que te vi, meu coração quis fazer morada”. “A poesia está nos detalhes. Aprecie com o coração”. “Suas paredes ecoam histórias, memórias que o tempo ignora. Janelas empoeiradas, sussurros de dias passados, o cheiro de tinta desbotada e de chá deixado na manhã, rostos de infância que brincaram no quintal desaparecem na poeira. Cada pedaço de madeira, cada tijolo solto no ar carrega a tristeza de um passado que não quer se despedir.” Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp As frases poderiam ser parte de um livro de poesias, mas são parte das legendas que acompanham as mais de 520 fotos publicadas no perfil do Instagram @casasantigas013, definido como um “perfil de contemplação e valorização das casas antigas da Baixada Santista”. Até ontem, eram mais de 101 mil seguidores. A criadora do perfil é Isaura Silva Dias, de 34 anos, designer gráfica de profissão e “apaixonada por fachadas de casas antigas”, como se define. “Eu sou jovem, mas tenho uma alma velha”, brinca. A conta na rede social surgiu em março de 2022, fruto de suas caminhadas pela Cidade e da observação atenta à arquitetura de casas, prédios e imóveis antigos. Isaura diz que, em Santos, faz tudo a pé ou de bicicleta, o que lhe permite contemplar as ruas e construções. “Saía fotografando e, muitas vezes, percebia que, quando voltava a passar no lugar, a casa já não estava lá, tinha sido demolida para a construção de um prédio. Então, resolvi criar uma memória afetiva, um acervo com essas imagens antes que elas sumam de vez”, explica. “Na correria do dia a dia, não percebemos a riqueza que está em nossa volta. Quero captar esse sentimento, essa nostalgia, despertar a sensibilidade das pessoas para as coisas simples”, diz Isaura Silva Dias, Designer gráfica e autora do perfil () Posso entrar? Isaura diz que se surpreendeu com o crescimento do perfil em pouco tempo e, também, com a interação do público. Diariamente, chegam mensagens de pessoas que moraram nessas casas ou detalhando outros aspectos arquitetônicos das fotos que ela posta ou até mesmo oferecendo outras sugestões de endereços pelos quais ela pode passar, fotografar e incluir no Instagram. Também chegam, com menos frequência, críticas de pessoas que consideram uma “invasão de privacidade” colocar as casas na rede social. “Mas para essas eu digo que só estou preservando a memória da Cidade”, diz. Durante as andanças de bicicleta, quando avista uma casa para incluir no perfil, busca ângulos que exponham os detalhes arquitetônicos de época, nem sempre preservados. “E, quando vejo que um morador está por perto, peço para entrar no quintal e fazer outros ângulos. Mas a maioria delas está sempre vazia.” O tempo não apaga Na conta do Instagram, não há um roteiro definido por bairros ou ruas. As fotos são colocadas sempre com uma legenda poética e uma música instrumental. Quando passa por uma casa que já não existe, foi derrubada, Isaura volta à foto original e indica: demolida. O perfil não é monetizado, condição que Isaura pretende manter. “Valorizamos o belo do antigo, porque ele carrega memórias e histórias que o tempo não apaga”, escreveu em uma legenda de foto postada neste mês, de uma casa na Vila Mathias.