[[legacy_image_319080]] No Papo Tribuna deste sábado, 2 de dezembro, vamos conversar com uma mulher admirável. Ela tem dupla cidadania - brasileira e portuguesa -, é viúva, mãe de três filhos e avó de cinco netos. Tem formação acadêmica em Direito Internacional combinada com amplo conhecimento técnico em logística e cadeia de suprimentos. Durante quase 30 anos foi uma executiva respeitada no setor automotivo aqui no Brasil. Em 2004, resolveu dar um salto ainda maior, passou a integrar a equipe da Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje, o Papo Tribuna é com a Silvia Completo Carvalho, que depois de duas décadas está de volta a Santos e vai compartilhar com a gente toda experiência que teve em missões humanitárias da ONU pelo mundo. Silvia, você já tinha um cargo de liderança no Brasil, como você chegou à ONU? Infelizmente é daquelas voltas que, como dizia John Lennon, “a vida acontece enquanto a gente faz planos”. Eu nunca tinha pensado particularmente em ir para a ONU, mas eu estava na indústria automobilística, fiquei viúva, estava fora do Estado de São Paulo e tive que fazer uma revisão das minhas rotas profissionais. Então fui conversar com meu headhunter e ele associou meu voluntariado social, porque eu sou escoteira do Grupo Morvan Dias de Figueiredo, e ele disse que eu tinha um perfil de ajudar pessoas. Coincidentemente, em 2004 teve um relatório do general Brahimi, propondo à ONU fazer revisões dentro da sua abordagem logística nas operações de paz. E foi um relatório muito duro, mas muito necessário, que até então a ONU era formada por militares ou diplomatas. E pela primeira vez ela começou a abrir campo para profissionais de várias áreas, inclusive a área de transporte, que eu tinha experiência mais ativa. E no meio de todo o processo de concorrência internacional eu terminei sendo escolhida. Eu fui para Nova Iorque, fiz parte do quartel general da ONU e comecei uma carreira dentro das operações de paz. E era você que direcionava as estratégias para que os planos e as missões dessem certo. Como era o seu trabalho na prática, Sílvia? Quando eu estava em Nova Iorque eu coordenava especificamente toda a logística de transporte, portanto todos aqueles carrinhos brancos, ambulâncias, helicópteros, aviões, caminhões, escavadeiras, tudo o que você pensar que ande na terra eu fazia toda a coordenação nas missões de paz. Na época, eram 28 missões pelo mundo e as missões políticas também. Era uma frota de cerca de 22.000 veículos e mais de 3.000 veículos especializados. Tudo isso era coordenado por Nova Iorque e incluía também os orçamentos destinados a cada uma daquelas missões e toda a revisão estratégica deles. [[legacy_image_319081]] Você atuou em missões em países da África, da Ásia e ao redor do mundo, mas nem todos ganham repercussão na mídia. Existem conflitos em todos os lugares e todos eles têm impactos nas vidas desses povos, não é, Sílvia? Sem dúvida. Existem as guerras ocultas. As guerras provocadas por segregação, por discriminação de gênero, por falta de qualidade de saúde, de saneamento. São guerras internas e muitas delas não vão para a mídia. Essas guerras são essencialmente mais tristes, porque elas não têm a visibilidade que deveriam ter para que os problemas se resolvessem. Em algum momento você sentiu medo por atuar em lugares hostis? Já pensou em desistir dessas missões e retornar ao Brasil? Medo propriamente dito eu não tive, porque nós somos muito bem apoiados. Antes de você ir para qualquer lugar, seja na África, seja na Ásia, você sempre tem uma missão. Essa verificação técnica também é feita pelo pessoal da segurança, então eles estudam o país, fazem um gerenciamento de riscos. Geralmente a gente fica instalado em condomínios fechados, só andamos em carros blindados, então há todo um processo de proteção que nos preserva e nos ajuda a fazer o nosso trabalho. Isso gera uma certa solidão, por exemplo, quando a gente estava no Chade (país da África Central). A gente estava no meio do deserto do Saara e o escritório ficava em um container da direita e onde a gente dormia era o container da esquerda, então você só descia a escada. Mas medo, propriamente dito, eu nunca tive. E nem vontade de voltar, Sílvia? Ah, isso a gente sempre tem. Você fica pensando que daqui um tempo vai passar umas feriazinhas, vai ver os filhos, os netos, mas às vezes tem uma parte dentro do teu coração que te diz o porquê você está ali. Essa tua frustração de às vezes você não estar próximo da família é compensada por aquela sensação de "estou fazendo a minha parte para tornar esse mundo um pouquinho melhor”. Você é uma mulher, brasileira e com um cargo de liderança. Você sentiu algum preconceito por isso? Olha, por ser mulher, sim. Tem algumas situações engraçadas, porque eu era uma mulher chefe da área de transportes. Então a expectativa de ver uma mulher chefiando essa área é inesperada. Agora sendo brasileira eu só tive vantagens. Eu tenho dupla nacionalidade, mas vocês não têm noção da recepção, da abertura, do calor que a maioria dos povos africanos e mesmo os asiáticos têm com o brasileiro. Eu tive muito mais sucesso com a minha nacionalidade brasileira do que com a minha nacionalidade portuguesa. Isso ajudou até no meu trabalho. Como mulher eu tenho algumas histórias. A mais interessante foi no Chade. Todos os meus motoristas eram chadeanos e um deles faleceu. Então eu fiquei triste porque era um bom motorista e eu pedi licença para ir ao funeral. Ele era muçulmano e eu causei certa comoção, porque eu era uma mulher que estava indo a um funeral muçulmano. O interessante é que no funeral muçulmano os homens ficam do lado de fora, rezando com o Imã, que é o representante religioso que se equivaleria ao Padre deles, e as mulheres ficam dentro de casa, não ficam à vista. Então para eu chegar lá tive que pedir licença para o meu chefe para cumprimentar e apresentar os meus respeitos. Nesse momento houve uma certa comoção. Eu entrei e eles autorizaram. E para o meu espanto é que eles me deram um lugar de honra para ficar sentada ao lado do Imã. Outra parte interessante foi que eu pedi para cumprimentar a viúva do meu motorista, e para eles essa atitude foi “algo do outro mundo”, porque a mulher nesses países é uma cidadã não de terceira, nem de quarta, mas de quinta classe. Então eles também confabularam e me autorizaram a cumprimentar a viúva. E ela olhou pra mim e me beijou a mão. Eu fiquei chocada. Eu agarrei a mão dela e dei um abraço e ela chorou. Eu também fiquei com os olhos cheios de lágrimas porque eu também tinha recentemente ficado viúva, mas foi uma situação muito interessante. Qual a história mais emocionante que você acompanhou nas missões? Foi durante a pandemia. Eu estava, por 18 meses chefiando as operações no Iêmen e na Jordânia e eu andava entre os países por causa das vacinas e o único meio de transporte era o nosso avião, porque todas as viagens aéreas estavam cortadas. O único que trafegava era o avião da ONU que pegava as vacinas nos Estados Unidos, vinha até Adis Abeba (capital da Etiópia), que seguia até Amã (capital da Jordânia) e a gente fazia a distribuição por todo o Iêmen, que é um país com muitos problemas. A parte interessante foi que a gente conseguiu levar algumas vacinas e no aeroporto tinham duas senhoras da limpeza que vieram e falaram assim: “muito obrigada, muito obrigada. Vocês vieram salvar as nossas vidas. Ninguém pode morrer desta doença maldita”. E eu disse: “vai dar tudo certo, a gente vai sair dessa. Não se preocupem, a gente vai sair dessa”. E elas disseram “tragam comida também, tragam comida”. Foi realmente uma história emocionante. Outra história foi de quando eu saí. Meu pessoal me ofereceu um presente e eu recebi também a bandeira da ONU. Esses foram momentos muito especiais para o meu coração. Quais são os desafios que a ONU encontra hoje para mediar um conflito como, por exemplo, o que está acontecendo hoje entre Israel e Hamas? Às vezes as pessoas têm uma percepção errada sobre o poder da ONU. A ONU não faz nada sozinha. A ONU não tem poder de interferir em nada sem a autorização do Conselho de Segurança. Hoje os três maiores desafios da ONU são: a unanimidade do Conselho de Segurança; o Concelho de Segurança é formado por quinze países, sendo que cinco deles têm poderes permanentes e poder de veto. Significa que eles podem anular qualquer decisão tomada pelos outros. São os cinco países que ganharam a Segunda Guerra Mundial e são dez membros rotativos. Quando é necessário que a ONU interfira em qualquer coisa, como o problema na Síria, a ONU só pode entrar no país com autorização do Conselho de Segurança. Se um dos votos for contra a Operação de Paz, não pode acontecer. Então esse é o desafio maior, trabalhar essa unanimidade e os conflitos de interesses que os membros do Conselho de Segurança podem ter. O segundo grande desafio da ONU são as verbas e os recursos. Porque, na verdade, a ONU é um grande condomínio, onde 193 países pagam a sua cota todo ano e tem países inadimplentes há 10, 12 anos. Então os recursos financeiros pra você chegar lá com carros, suprimentos, pessoal, viagens, petróleo, gasolina, tudo o que vocês possam pensar que geram apoio para uma operação de paz, tudo custa dinheiro. O António Guterres, secretário-geral da ONU, fala: “sem vocês a ONU não tem sucesso e o sucesso da paz não existe sem a ONU”. É um desafio que precisa se trabalhar e todos os países membros tem que ter consciência da importância da sua contribuição no processo de melhoria da paz e na sensação da guerra. O terceiro grande desafio da ONU é que a guerra mudou. Hoje os atores das guerras não são mais só atores estatais, como exércitos de países. Hoje a guerra envolve traficantes, milícias, grupos armados, envolve uma multiplicidade de fatores e elementos que tornam muito difícil a abordagem da paz. Porque eles atacam agentes humanitários, eles jogam bombas em hospitais, não há uma coerência na maneira de abordar a guerra. A ONU precisa trabalhar numa abordagem multilateral para manter a paz. Militar, humanitária, educacional, é todo um trabalho que precisa ser feito para que a gente possa realmente tornar esse mundo um pouquinho melhor. E a ONU só pode entrar para resolver um problema em uma guerra a convite de um país. A gente não pode entrar arbitrariamente só porque queremos ver o problema resolvido. Há uma série de facetas políticas e diplomáticas que precisam ser cumpridas antes da iniciação de uma operação de paz. Aqui em Santos, no Emissário, tem uma homenagem a Sérgio Vieira de Melo, que foi morto em 2003 em Bagdá, num ataque a bomba. Isso mostra que, por mais que a ONU faça uma varredura antes, não é uma profissão tão segura. É um desafio. Nós consideramos o ataque ao hotel de Bagdá e a morte do Sérgio Vieira de Mello (diplomata brasileiro), como um divisor de águas. Até então a ONU “surfava” sem grandes detalhes de segurança, acreditando no respeito que ela empunha. Não havia tanto o cuidado em termos de gerenciamento de desastres ou de preparação para emergências. Você ficava com aquela “arrogância simpática”, dizendo “eu sou da ONU, ninguém vai me atacar, ninguém vai fazer nada”. O próprio Sérgio recusava seguranças. Era muito difícil você ter medidas dentro das operações de paz que trabalhassem esses elementos. Quando aconteceu o ataque ao hotel em Bagdá, isso obrigou toda uma revisão nos protocolos de segurança. Das pessoas que estavam tomando conta da segurança, da maneira como você se comporta, dos cursos que nós precisamos fazer quando entramos na ONU. Eu fiz vários cursos com simulação de sequestrou, de ataques a bomba. Antes de 2003 não passava nem pela cabeça das pessoas a não ser àqueles que tivessem vivido especificamente uma experiência militar. A área de segurança da ONU, que não tinha muita verba, hoje tornou-se um “monstro”, positivo, é claro, de desempenho, de avaliação. Hoje não tem uma missão que não tenha todo um cuidado em termos de segurança para quem está lá fazendo a parte humanitária. Apenas para esclarecer, morreram agora 101 pessoas na Faixa de Gaza. Tem missões que nós chamamos de “missões residentes”, que são missões que estão lá há 10, 15 anos. Geralmente as pessoas que estão lá são nativas da região. Elas fazem trabalhos humanitários de educação, e nesse caso elas estão muito mais expostas do que um pessoal que ainda vai começar. Nós sabemos que a ONU não é só as missões de paz. A ONU é o Fundo Monetário Internacional, é o problema da comida, é o ACNUR (Agência da ONU para Refugiados), é a organização dos correios, a organização marítima, existe ONU para todos os segmentos do mundo moderno em que nós vivemos. Existem áreas e existem missões que são específicas para determinados eventos e situações. É o caso de Gaza, em que infelizmente esse pessoal estava lá e que foi atingido no meio desse conflito que está acontecendo agora. Para quem quer trabalhar na ONU, qual o caminho para a pessoa conseguir ingressar? A ONU está sempre aberta para profissionais qualificados de qualquer área. É só entrar no careers.un.org, que é onde se visualiza todo o processo de carreiras na ONU. É vital que você fale inglês ou uma das três línguas oficiais da ONU e o português não é uma delas. O português só é língua oficial do Programa Mundial da Comida e existe toda informação de como se inscrever nesse site. Você se aposentou pela ONU por causa da idade, voltou ao Brasil para visitar a família e está em tratamento de saúde. Você pretende parar? A aposentadoria é obrigatória, seja você secretário-geral, seja você porteiro. A aposentadoria chega para todo mundo. Mas eu recebi um convite para trabalhar numa outra ONG humanitária. Eu vou continuar enquanto puder, enquanto sentir que sou útil, vou continuar fazendo isso. E eu fiz uma pausa, mas não pretendo parar. Inclusive o tratamento já está tudo em ordem, graças a Deus. E já tem planos para voltar à ativa? Há algumas coisas acontecendo, mas tudo no seu tempo. Mesmo antes de entrar para a ONU, você já tinha uma missão de ajudar crianças adolescentes a se tornar melhores cidadãos. Foi chefe escoteira e está de volta ao grupo Morvan Dias de Figueiredo. Qual a importância do escotismo na formação de uma sociedade? Se as pessoas soubessem da importância do movimento escoteiro como na formação dos seus filhos, todo mundo colocaria os seus filhos no movimento. Ele é um coadjuvante familiar. Ele reforça e enfoca os valores familiares de cidadania, respeito, de ordem e alegria. Ele respeita o jovem e a criança, porque o movimento escoteiro vai dos 6 aos 21 anos em diversos grupos etários. Cada um deles tem uma proposta educacional, uma proposta didática especialmente preparada. Eu sou muito melhor porque eu sou escoteira e meus filhos, meus netos, já estamos na terceira geração do movimento escoteiro. Você é escoteiro até morrer. E qual é o caminho para a pessoa entrar em um grupo de escoteiro? Aqui na Baixada Santista tem vários grupos. O nosso é um grupo do mar e nós temos o prazer de ter o patrocínio da Marinha do Brasil, do grupo dos Fuzileiros Navais que tem sido extraordinário. Eles nos cedem a sua sede, ali na Avenida Perimetral, onde as crianças fazem atividades. Nossa outra sede é o Colégio Olga Curi, cujo diretor tem sido incansável em nos dispor as instalações, em proporcionar a todos os jovens tudo o que é necessário para que a gente possa fazer os nossos programas. Vou falar apenas do meu grupo, mas é bom saber que há vários outros grupos do 13º Distrito e, dependendo do local onde você mora, pode haver um próximo de você. Eu queria que você deixasse uma mensagem. Como tornar a nossa vida um lugar com mais paz para se viver? Primeiro eu sugiro que você participe de projetos sociais, seja ele qual for. Seja o movimento escoteiro, seja ajudar as tartarugas do Projeto Tamar, seja ajudar um asilo de idosos. Eduque seus filhos para a paz. A paz é um verbo ativo, você tem que ser paz. Então significa você educar as crianças dentro de uma visão muito menos competitiva do que elas estão sendo educadas hoje. E aprender, porque o pai e a mãe também não nasceram sabendo. Eles também têm que aprender. Eles não podem ter uma maternidade, uma paternidade acidental. "Ops, um filho aconteceu na sua vida”, é preciso aprender, comprar um livro, a gente educa. É bom educar para a paz agir. A paz exige ação. A paz exige participação. A paz exige comprometimento. A gente tem que ser paz, essa é a coisa mais importante.