[[legacy_image_341073]] Todo domingo, A Tribuna publica o resumo das entrevistas do programa Papo Tribuna, apresentado na TV Tribuna. Os assuntos que movimentam a vida da Baixada Santista estão em debate, com participação de autoridades e especialistas. Nesta semana as convidadas são Camila Araújo, empreendedora, fundadora da Chinua e artesã, e Flávia Durante, jornalista, produtora de eventos e idealizadora da Pop Plus Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Camila conta como o empreendedorismo mudou sua vida e como ela conseguiu reconhecimento internacional investindo em moda africana. Camila, você começou nesse mercado como artesã. Conte como foi. Eu sou formada em gastronomia. Eu tinha uma empresa nesse ramo, mas toda vez que eu fazia uma clientela, eu mudava de cidade, porque o meu marido jogava futebol. Eu tinha que terminar com a minha clientela. E, aí, no meu processo de transição capilar, quando eu buscava acessórios que me representassem, eu voltei a ter essa gana de confeccionar acessórios. O que significa o nome da marca, Chinua? Chinua quer dizer “bênçãos de Deus” em africanês. Você utiliza tecidos africanos. Como consegue trazer esses tecidos para cá? Hoje, os meus fornecedores são africanos que moram em São Paulo. Então, eles sempre têm alguém da família que, a cada 15 dias, 20 dias, vai ou está voltando aqui para o Brasil. O seu propósito também era empoderar mulheres pretas. O conceito é o empoderamento da mulher. Eu, inicialmente, quando criei a marca, era para mulheres pretas, mas a gente vê que não, que abrange todas as mulheres. Neste ano, em fevereiro, uma das suas peças foi parar no desfile da diversidade de um dos eventos de moda mais famosos em Nova Iorque (nos Estados Unidos). Como isso aconteceu? Uma (jaqueta) puffer foi para lá. Na minha volta da Colômbia, eu participei de um evento de e-commerce (...). Nesse dia do evento de e-commerce, ela (uma cliente) queria uma jaqueta, mas não dava. Acabei enviando a jaqueta para ela e ela se apaixonou, disse que estava fazendo essa curadoria para o desfile em Nova Iorque, na semana de moda. Perguntou se teria algum problema, se eu gostaria de enviar a peça. Eu falei: “claro que sim”. Como você pretende alcançar outros países? Vamos invadir. É muito gratificante ter essa oportunidade, ter essa representatividade, estar tendo essa representatividade, tanto ancestral, pelo tecido africano, como representar o Brasil lá fora. A mulher está cada vez mais empreendendo, independentemente do setor, moda ou qualquer que seja. Tem um dado do Sebrae de 2022 em que, no segundo trimestre, o País tinha 10 milhões de mulheres donas do seu próprio negócio. O maior contingente de empreendedoras da história. Você acredita que no futuro a alma do empreendedorismo será mais feminina? Eu acredito que sim, porque eu acho que é a gente (mulher) que tem mais essa paciência, essa resiliência, a força e a gana de continuar no empreendedorismo. Você é um exemplo de que é preciso foco e perseverança. Você acreditava que algum dia estaria no mercado lá fora? Sinceramente, não. Diversas vezes, eu pensei em largar tudo, em começar do zero, um outro negócio, em desistir da marca. Porque tem horas que parece que não dá certo, que não vai. Eu acredito que não é só comigo. Eu converso com diversas amigas, mulheres empreendedoras que estão aí, na batalha. A gente montou um grupo para a gente discutir e tentar uma ajudar a outra. Mas, se eu tivesse desistido, eu não estaria aqui. Qual mensagem você deixa para aquela pessoa que quer empreender, mas encontra dificuldade? A mensagem é não desistir. Está difícil. Por mais que tenha dificuldades no caminho, é para ser resistente, porque, se eu tivesse desistido, das diversas vezes em que pensei (nisso), eu jamais estaria em Nova Iorque e na Colômbia. Agora, eu tenho que seguir. A gente viu que deu certo, que está dando certo. Eu tenho mulheres incríveis ao meu lado que me ajudam e me levantam o tempo todo para eu estar onde eu estou. [[legacy_image_341074]] Flávia criou a maior feira do mercado de moda plus size, a Pop Plus. Você levanta muito a bandeira do amor-próprio, de não ser excluída, independentemente da medida do manequim. Que dificuldades você encontrava? Minha paixão sempre foi o Jornalismo. A moda veio parar na minha vida por acaso. A partir do momento em que eu engordei, comecei a ser muito excluída dos lugares onde todas as mulheres estão, nas lojas, shopping. Só que eu não admitia isso. Por mais que na época eu não tivesse a consciência política que eu tenho hoje, eu achava superbizarro, inadequado e preconceituoso entrar numa loja e ser maltratada e excluída por causa do meu tamanho. Por mais que a sua autoestima esteja boa, construída, você sai do lugar derrubada. Você dizia que, antes, para encontrar uma peça de roupa, você tinha de ir a uma loja de gestantes ou à seção masculina de uma loja de departamentos. Era a única forma, o que já tirava totalmente a minha personalidade, porque eu sempre gostei de me vestir de uma forma diferente, usar cor, coisas decotadas, com brilho, ou mandar fazer, o que já era um outro trabalho. Também nunca ficava da cara que eu queria. Foi aí que começou a chave para a minha virada de querer empreender na moda. Eu comecei revendendo biquínis plus size e, aos poucos, fui entendendo as necessidades de outras mulheres também. Em 2014, você teve uma situação. Relate rapidamente que situação foi essa, que lhe deu um estalo para que o bazar crescesse. Até então, eu via a Pop Plus como uma renda extra. Um dos eventos era em Pinheiros, São Paulo. Uma menina de 13 ou 14 anos chega e começa a ver as lojas e chorar. E todo mundo: “O que aconteceu? Por que você está chorando?”. Ela respondeu: “É a primeira vez que eu venho em um evento, em um lugar para comprar roupa em que eu sou bem tratada, que eu sou bem acolhida, encontro as coisas do meu lugar, do jeito que eu gosto, no estilo que eu gosto, e isso nunca tinha me acontecido antes”. Todo mundo chorou arrepiado. Daí foi que eu vi que era uma missão lutar para que a moda fosse cada vez mais democrática. Nas suas palestras, você costuma dizer que 17% do varejo do vestuário produz moda plus size, ou seja, é muito pequeno. Quantas pessoas no Brasil vestem plus size? Você tem esses dados? Quase 60% da população do Brasil está no que é considerado acima do peso, o mercado plus size, e apenas 17% do mercado de varejo e moda atende esse público. Ou seja, ainda tem muito a crescer. Você acha que falta humanização quando se fala da moda plus size? Faltam humanização e empatia da indústria da moda para pensar em em corpos gordos com dignidade e com respeito, e não achar que o pressuposto dos anos 40 é o válido até hoje. Devia ter uma escola de moda brasileira pensando em corpos gordos, em corpos de pessoas negras, em corpos trans. Você fala nas suas palestras que, além da moda, tem a questão de um atendimento médico, de um exame. É a questão da gordofobia médica, que é fortíssima. Às vezes, exigem tanto do corpo gordo: “Você precisa ter saúde”. Daí, ele vai a uma clínica médica e não tem lá uma maca adequada, um aparelho para aferir a pressão, para uma balança tem que ser indicado até clínicas veterinárias. Isso até desumaniza a pessoa e faz com que ela não vá ao médico.