[[legacy_image_279971]] O historiador Rafael da Silva e Silva, autor do livro A História da Educação Japonesa na Baixada Santista e Vale do Ribeira (1908-1945), fala sobre sua obra, que retrata a imigração japonesa a partir da atuação dos imigrantes na área da educação. O que você conta nas páginas do seu livro?Esse livro faz uma trajetória da imigração japonesa na Baixada Santista e no Vale do Ribeira, com enfoque na educação. Já é sabido que a imigração japonesa se dedicou muito às escolas. Em Santos, existia uma escola no Saboó, outra no Marapé, e principalmente a Escola Japonesa de Santos, onde funciona a Associação Japonesa de Santos hoje em dia. Além disso, várias outras escolas surgem ao longo da linha férrea Santos-Juquiá e nas cidades do Vale do Ribeira. Todas essas escolas eram centralizadas pela Escola Japonesa de Santos. No livro, busco retratar essa história, na baliza temporal de 1908 até 1945. Não houve apenas comemorações na chegada dos japoneses, eles também tiveram muitos problemas. Muitos foram impedidos de entrar no Brasil por causa da Segunda Guerra Mundial. Você fez pesquisas sobre essa época?Sim, o trabalho começa com a chegada do Kasato Maru. Traço um retrospecto em relação à economia do café, com necessidade de mão de obra para as fazendas. Mas, é possível perceber que, já no primeiro ano de imigração japonesa, muitas pessoas fugiram das fazendas e regressaram à Baixada Santista. Segundo o memorialista Tomoo Handa, esse regresso à região se deu, em muitos casos, devido à semelhança entre Baixada Santista e Okinawa, por exemplo. Essas pessoas ficaram aqui e construíram suas vidas. A partir de documentações como recortes de jornais e fotografias, é possível perceber que eles se dedicaram à horticultura, à pesca, e muitos trabalharam como empregados no Porto. Em 1943, com a guerra, essa comunidade foi expulsa, num momento que foi muito traumático para os imigrantes. Se analisarmos os documentos do Departamento de Ordem e Política Social (Dops), no Arquivo Público de São Paulo, é possível verificar que as famílias que se dedicavam à pesca tiveram muita dificuldade no Interior, então elas pediram para regressar. No Vale do Ribeira, isso não aconteceu. A partir de Pedro de Toledo, o que se percebeu é que a comunidade japonesa produzia muito alimento. Isso está documentado, e o livro inclusive conta que o líder da comunidade japonesa nesse local avisa o seguinte às autoridades: “Se a gente for expulso, vai ter crise de alimentos”. Por isso, no Vale do Ribeira essa questão não foi traumática como em Santos. Os imigrantes japoneses deixaram muitos legados. Qual o principal? O que você pode falar dessa cultura, desses costumes?São muitos legados, mas creio que a educação é um dos principais. Isso porque a metodologia que a comunidade adota é a de não enfrentamento em relação às autoridades. Apesar de o Brasil estar passando por anos de nacionalização com Getulio Vargas na época, é perceptível pela documentação que a comunidade japonesa estava se esforçando para não entrar em atrito com a legislação brasileira. Havia cartilhas educacionais, que eram praticamente cópias do que se fazia no Japão, dando lugar a cartilhas bem ocidentalizadas. Outra estratégia adotada pelos imigrantes foi doar os prédios escolares para o governo. Eles ofereciam cursos de língua no contraturno, e essas escolas eram mantidas pelo governo. O resultado é que muitas dessas unidades de ensino hoje em dia são escolas estaduais.