[[legacy_image_288496]] Presidente da Beneficência Portuguesa há 19 anos, Ademir Pestana conta como o hospital ampliou o atendimento humanizado, que está presente na história da instituição desde a sua fundação – ela completa 164 anos neste mês. A Beneficência Portuguesa tem uma tradição no atendimento humanizado, não é mesmo? A Beneficência Portuguesa já nasceu humanizada, porque recebia aqui os portugueses dando morada, cesta básica e trabalho. Essa associação foi fundada para isso. Somente depois de 19 anos é que virou um hospital, devido às pandemias que assolavam nossa Cidade. Como a Santa Casa lotava e não podia atender, os portugueses, que eram boa parte da população na época, criaram o primeiro hospital. Já na primeira Beneficência, quem entrava dava de frente com a capela, que é algo humanizado e que temos até hoje. Em 2017, veio o projeto de humanização também nas alas e nos corredores da Beneficência. Como surgiu e como foi a implantação dessa ideia? Entendo que cada hospital tem sua característica, e a Beneficência tem a humanização no atendimento dentro do seu legado. Resolvemos incrementar isso, levando para a Beneficência um novo comportamento; deixamos de ver o paciente para ver a pessoa. Estamos tentando passar isso para todos os nossos colaboradores, como enfermeiras, técnicos e médicos. Os médicos são mais difíceis, pois sempre chegam apressados (risos), mas estamos conseguindo passar os três pilares da humanização: o acolhimento, a empatia e a comunicação. Vocês conseguem ver resultados nessa mudança de comportamento dos funcionários com os pacientes? Muitos resultados. A gente percebe até no leito. Por exemplo, nós temos uma bailarina lá, que outro dia foi dançar num aniversário de uma paciente que já tinha sido bailarina. E ela não movimentava os braços. Há pessoas que vão ao hospital e não querem mais viver, perdem a motivação. Essa paciente, no meio da música, levantou os braços e começou a se movimentar igual à bailarina. É uma coisa emocionante. Existe também o Café Com o Presidente. Como ele surgiu? Eu visito as alas, às vezes. Vou sozinho e entro nos quartos, converso com as pessoas, e, às vezes, elas nem sabem quem sou, me confundem com o médico. Uma vez, uma paciente me convidou para um café na casa dela e eu fui. Daí surgiu a ideia, e todas as quartas-feiras eu faço duas visitas às casas das pessoas. Me sinto como um parente afastado que chegou de repente, há um carinho muito grande. Tem alguma história emocionante em especial nesse trabalho de humanização que você acompanha de perto? Sempre tem. Há pessoas que comemoravam o aniversário no hospital depois de ficar mais de 20 anos sem comemorar, porque nenhum parente as visitava nesse dia. No hospital, tinham sete ou oito pessoas (nessa condição). Isso deixa uma gratidão muito grande. Outras pessoas contam a vida. Teve uma senhora, por exemplo, que há 14 anos não recebia uma visita. Ela me contou até sobre o primeiro namorado, algo que me marcou muito. Percebi o carinho que ela tinha por ele, o que me despertou a curiosidade. Ela contou que morava em Minas Gerais, numa casa com um alpendre que tinha um banco, onde o pai permitia que ela namorasse. Perguntei se ela era apaixonada por ele e ela me contou que ainda era, mas que o homem a havia deixado há 20 anos, quando faleceu. Foi algo que mexeu muito comigo.