[[legacy_image_327014]] Esta edição do Papo Tribuna fala sobre a importância de brincar, principalmente em um período propício como esse que é o de férias escolares. Deixar um pouco de lado o mundo da tecnologia e investir no desenvolvimento social, na interação, na proximidade. Muitos pais aproveitam essa fase para também tirar férias no trabalho e para passar mais tempo com os filhos. E pra falar sobre essa interação, a diretora da IPA Brasil, a primeira associação brasileira sem fins lucrativos pelo direito de brincar livre à cultura, Jéssica Gimenez, explica sobre a importância dessa atividade lúdica e essencial para o desenvolvimento da criança e do adolescente. Jéssica, primeiro, explica pra gente o trabalho da IPA Brasil. Ela faz parte de uma entidade internacional e que possui filiadas em 50 países. Qual a missão de vocês? A nossa missão é promover, proteger e preservar o direito ao brincar livre de todas as crianças. A partir do brincar a criança desenvolve o físico, o cognitivo, o emocional e a partir disso ela vai adquirir habilidades para a sua vida toda. A criança desenvolve a resiliência, então ela vai ser um adulto mais resiliente. Um adulto que estabelece melhores vínculos, resolve melhor os problemas, e isso tudo ela aprende a partir do brincar. A IPA Mundo surge num contexto pós-guerra, onde as crianças ficam realmente naquele cenário terrível e a parte mais importante da criança, a comunicação dela com o mundo é o brincar, então surge a necessidade dessa entidade internacional cuidar de um dos direitos fundamentais da criança que é o direito ao brincar. E aqui no Brasil a gente surge em 97, também com a fundadora Marilena Flores Martins, e ela traz para a cidade de São Paulo o primeiro núcleo da IPA Brasil, que depois alcança o Brasil inteiro. Hoje, qual é a atuação do IPA nos estados do Brasil? Para muitos a pandemia foi realmente um cenário terrível e para nós também. A gente viu muitas coisas acontecendo, mas usamos isso também a nosso favor, que foi a possibilidade de levar a IPA para outros lugares através do on-line. Antes, as nossas ações eram apenas no território de São Paulo - poucas eram em outros estados por conta de uma logística difícil -, e desde 2020 a gente conseguiu chegar no Brasil todo. A gente tem uma equipe fixa, uma equipe administrativa, uma diretoria voluntária e mais de 40 colaboradores que são oficineiros. São os nossos agentes do brincar formados que apoiam as nossas ações. Em 2013, vocês lançaram uma cartilha, o que ela significa? O guia prático do brincar surgiu no contexto da Copa da África do Sul, em 2010. Nos países onde tem a Copa do Mundo existe sim a exploração do trabalho infantil e isso é um problema para nós que defendemos o direito ao brincar livre, então foi criado esse guia. No contexto da Copa de 2014, no Brasil, a participação da IPA Brasil foi na tradução desse guia prático e a gente incluiu algumas brincadeiras da cultura brasileira, mas também mantivemos as brincadeiras africanas e tudo mais, e a gente trouxe esse guia traduzido para ser lançado não só no final de 2013, mas para ser utilizado no ano da Copa do Mundo do Brasil. A IPA Brasil capacita adultos nesse processo do brincar. Como são feitas essas capacitações, como funciona? O nosso carro chefe é o curso Agentes do Brincar. A gente tem uma ONG alemã, que é TRD Homes, que financia esse projeto pra nós, permitindo que a gente ofereça isso de forma gratuita. Também temos parcerias, como aqui em Santos, com a Etec Dona Escolástica Rosa, em que oferecemos o certificado da Etec com a capacitação da IPA. A gente busca essas parcerias para que possamos deixar ainda melhor um curso que já é excelente. Nesse contexto, oferecemos os cursos, fazemos a capacitação dos adultos, jovens e idosos. Também temos um curso que se chama Guardiões do Brincar e, nesse curso, que teve início na cidade de São Paulo em 2019, a gente capacitou mais de 800 idosos da Capital. Desde então a nossa ideia é continuar oferecendo para outros lugares do Brasil, desde que a gente tenha possibilidade de levar para mais cidades. Para vocês manterem esses cursos, essas oficinas, vocês precisam de recursos. Esses recursos vêm de onde? Parte das nossas ações é financiada por essa entidade alemã, a TRD Homes, mas a gente tem também a iniciativa privada que busca a gente para capacitar a população ao redor da empresa em relação aos impactos, ou então os próprios funcionários da empresa com suas famílias. Portanto, tem diversas possibilidades e para além disso a gente também busca ser autossustentável, por exemplo, com a venda de camisetas, que começamos a comercializar. Desde que a IPA Brasil existe já foram mais de 39 mil pessoas capacitadas e vocês devem ter um feedback dessas capacitações. Sim, uma das provas finais do nosso curso é a escrita de um artigo que vai para o nosso blog. Todos os artigos são escritos por pessoas da nossa equipe ou pelos agentes do brincar formados pela IPA Brasil. Mas, para além disso, os nossos agentes estão realmente espalhados pelo Brasil todo e fazem as suas próprias ações, trazendo muitos feedbacks de como foi importante compreender a importância do brincar livre no desenvolvimento infantil. Você lembra de algum relato importante ou emocionante que fez a diferença na vida de uma família, de uma criança ou até de quem busca essa capacitação? Acho que o mais impactante para nós foi ver o retorno do Guardiões do Brincar, que aconteceu na cidade de São Paulo, onde os idosos que estavam passando por processos de depressão, de isolamento social, ao fazerem o curso, entenderam a importância do brincar para eles mesmos, para a família e para as crianças do entorno. Muitos eram aqueles idosos que não gostavam que as crianças brincassem no portão das suas casas, nas ruas, ficava aquele clima tenso, e depois do curso teve uma mudança de comportamento e começaram a entender. Teve uma melhora na saúde mental e a gente ficou também impactado com esse retorno, em especial desses idosos. Nos nossos cursos a gente tem uma parte também importante de formação que é o Dia do Brincar. O nosso agente do brincar vai fazer um evento, faz o planejamento e oferece para a comunidade, para o seu território, de forma gratuita, para que as crianças possam brincar. E ele faz a mediação, age como um verdadeiro agente do brincar para que a criança possa brincar livremente, em especial naquele dia. No final do evento, a gente tem uma roda de conversa de como foi o dia, do que aquilo significou, e as crianças chegam a falar “fazia tempo que eu não brincava fora de casa, sem internet, fazia tempo que eu não via o meu amiguinho”. Então sempre tem esse relato de que as crianças gostaram de sair da sua bolha, principalmente do mundo tecnológico. E o que é preciso fazer para participar dessas capacitações? Basta você ficar ligado nas nossas redes, @redebrincar, e lá a gente vai divulgando os cursos, dizendo quando vai ser a inscrição, o que vai ter durante o ano. Essa é uma forma, ou então, se for uma iniciativa privada, buscar parceria para oferecer para os seus colaboradores. Então tem várias formas, é só ficar ligado na gente. Pra encerrar, qual a importância do brincar, principalmente para os pais? Isso é uma missão para todos, de promover, proteger e preservar o direito ao brincar das crianças, porque é a partir do brincar que ela vai se desenvolver, vai se comunicar com o mundo e vai ser um adulto bem-sucedido. Portanto, que a gente possa se unir nessa missão e fazer com que o direito de brincar seja efetivado na prática, porque não se trata de um direito opcional, ele é um direito fundamental. [[legacy_image_327015]] A gente continua falando sobre a importância das brincadeiras, principalmente nesse período de férias escolares, agora com a Débora Cristina Dacanal, que desde 2013 atua na área de programação cultural do Sesc de São Paulo. Ela já atuou também no Sesc de Santos e é responsável pela programação aqui da Unidade de Santos, um dos locais mais procurados e movimentados nessa época do ano. Débora, você é mãe, tem conhecimento e formação em pedagogia, com mestrado em literatura, então queria que você juntasse todo esse conhecimento para falar sobre a importância do brincar. Qual é a importância desse processo? É interessante nós falarmos sobre isso porque no Sesc nós também fizemos, no final do ano, encontros para falar sobre a importância do brincar com pais, e é uma questão que já era para ser dada, mas a gente ainda tem que estar nessa defesa dos direitos das crianças porque se você for ver pelo desenvolvimento da criança, desenvolvimento social, cognitivo, físico, motor, para tudo isso o brincar é muito importante. Ele além de tudo isso, para uma infância feliz, que é o básico, isso já responderia todas as nossas questões. Hoje, ter tempo para estar com os filhos, de brincar com os filhos é uma dessas estruturas. Eu acho que hoje a gente vê que as famílias trabalham fora, às vezes a mãe somente que fica com a criança e também precisa trabalhar fora, então, existe um provérbio africano que diz "é preciso de uma aldeia toda para cuidar de uma criança”. E pensando nisso, não é só a responsabilidade dos pais, mas de toda a sociedade também, de criar, poder propiciar para que essa criança possa brincar, tenha esse direito ao brincar, ao tempo livre e aos espaços também de brincar. Isso é muito importante. E sobre a programação do Sesc de Santos? A gente sabe que a unidade é uma das mais procuradas e movimentadas nessa época do ano. Muita gente tem dúvidas de que o Sesc só existe ou só abre as portas para os associados, ou para quem trabalha no comércio, mas não é bem assim. As férias escolares também são sinônimos de lazer para quem não é sócio do Sesc, certo? Isso mesmo, os meses de janeiro e julho são os períodos em que a gente tem maior movimento na unidade. E no Sesc qualquer pessoa pode entrar. Nós temos algumas coisas que são permanentes, temos a biblioteca com o acervo de livros infantis, que é muito interessante, a pessoa pode ir lá, ler junto, e tem outras atividades também. Em janeiro, uma das atividades é o Memórias Brincantes, que vem justamente nessa ideia de resgate de brincadeiras de antigamente para que os pais possam contar um pouco do que eles brincavam e propor essa brincadeira junto com as crianças. Tem momentos que nós vamos levar as crianças para a praça, entre outras atividades dentro do Sesc mesmo. Tem o Espaço de Brincar, que é um espaço físico na unidade do Sesc, que é para a primeira infância, com crianças de 0 a 6 anos, sempre junto com os responsáveis, e outras atividades também onde o público pode acompanhar pelo portal do Sesc e se programar para participar. E para participar é preciso se inscrever? Os pais podem participar de algumas dessas atividades? Sempre. Todas as atividades voltadas para a infância são pensadas para a criança estar acompanhada dos seus familiares. Nesse mês de janeiro nós temos uma programação mais recheada, com muitas atividades também de manualidades, de construção de brinquedos, tem atividades do ateliê, que é aberto para a família, também temos atividades de música aos sábados que ocorrem o ano inteiro, tem as contações de histórias, às 17h, que também são gratuitas e abertas ao público, só que precisa se organizar direitinho para chegar antes. E nesse mês de janeiro a programação é diária ou só de segunda a sábado? Essas oficinas são pontuais, então a pessoa participa para aquela atividade. O Sesc aqui em Santos funciona de terça a domingo, então é necessário programar mesmo para qual atividade e para qual faixa etária vai levar sua criança. O espaço de brincar fica aberto na parte da manhã, de terça a sexta, das 9h às 12h, e depois das 14h às 17h, e de sábado e domingo das 10h30 às 12h e das 14h às 17h. Algumas delas são direcionadas para bebês ou crianças até seis anos e outras são de sete a doze anos. Então, a gente considera aí a infância até os doze anos de idade. E o que vocês percebem na relação entre pais e filhos quando saem dessas atividades? A gente acaba até conhecendo melhor algumas famílias, porque tem aquelas que frequentam muito o Sesc, dizendo que replicam as atividades em casa com as crianças e que gostam de estar ali. Tem muita gente que, no contraturno da escola, traz sua criança diariamente. Para você ter uma ideia, no ano passado nós tivemos dias que só do Espaço de Brincar foram 600 pessoas. Esse ano vamos ver como será. Tem atividades esportivas, atividades artísticas, de lazer, de saúde, de meio ambiente, tem um leque de atividades bem extenso para outras faixas etárias também, inclusive para os idosos. E vocês também planejaram algumas apresentações no teatro, como é que elas funcionam? Eu comentei das contações de histórias em que algumas delas acontecem no formato de espetáculo, mas também tem os espetáculos infantis, aos domingos, que predominantemente acabam sendo, na linguagem de teatro, com a venda de ingressos. Eles são gratuitos para crianças até 12 anos, mas também precisam retirar seus ingressos. Para esse mês de janeiro, por exemplo, está acontecendo o repertório da Companhia Mevitevendo, com espetáculos de bonecos e sombras, que é um espetáculo bem sensível, bem bonito, e é interessante as famílias participarem, porque, diferentemente de você assistir com sua criança uma televisão - que a gente tem que saber limitar -, quando você participa de um espetáculo, uma apresentação, é algo mágico. Tem aquele início, meio e fim, e você sai dali com sua criança, com o repertório todo para conversar, brincar de outras coisas, incentivar o lúdico, a imaginação, porque essa fabulação é muito importante para o desenvolvimento da criança, além da interpretação do mundo e interpretação de texto. Essa é a nossa grande bandeira, criar momentos que criem memórias para essas famílias. Sobre os preços dos ingressos pagos, eles têm uma variação de valores para quem tem credencial plena e para quem não tem, e esse valor varia de R\$ 10 a R\$ 30. Nessa sua experiência, qual é a brincadeira que mais atrai público e que trazem uma resposta mais positiva? Eu acho muito interessante quando nós propomos atividades que não são, necessariamente, mediadas, porque tem o brincar orientado e tem o livre brincar. Quando nós deixamos esse momento, que é aquela ideia de “brincar no quintal” mesmo, é quando a coisa se cria. Quando eles inventam, quando os vínculos se aproximam mais, tanto que a gente fala muito sobre o desenvolvimento também da autonomia da criança. E autonomia é muito mais do que amarrar um sapato, usar um talher. Autonomia você desenvolve o seu senso crítico diante do mundo, aprende a fazer suas escolhas. Então essa brincadeira livre entre as crianças, onde elas têm que definir as regras, isso é muito importante. Portanto, criança com criança, tanto as famílias estarem junto com as crianças, isso é muito rico. O Sesc de Santos também é aberto também para as pessoas de outras cidades ou estados? É sim, tanto que a gente vê um público novo nesses períodos de temporada, quando também vem muita gente nova. Tem algumas pessoas que já vêm conhecendo a unidade Sesc de outros locais, da Capital, que lá tem vários Sescs, então as unidades têm as suas familiaridades, mas é muito gostoso ver essa movimentação. É uma troca superimportante. Além de todas as atividades, existe também o turismo social, que é muito pautado nessa ideia de expandir sua percepção e estar mais aberto para a diversidade. Então esse contato, a vinda também de outras pessoas, a gente também tem que receber nesse olhar. Ao longo do ano nós temos sempre buscado movimentar através de espetáculos, oficinas, além dos programas permanentes, os esportivos que são tanto para os programas permanentes do Esporte Criança, Esporte Jovem, que precisam de inscrição. Também temos o Curumim, que é uma atividade de contraturno escolar para crianças de 7 a 12 anos. E esse tema do Brincar Também é o carro-chefe, porque ele cumpre um papel muito importante desse “quintal de casa”, que nós não temos mais, porque cada vez mais as cidades estão sendo fechadas em condomínios, e o Espaço de Brincar também acontece o ano todo. E para finalizar, no mês de maio tem o Dia Mundial do Brincar, onde o Sesc reserva uma programação especial. Explica como será. A Semana Mundial do Brincar acontece sempre no final de maio e é uma parceria com a Aliança pela Infância. Aqui em Santos é muito especial porque essa data também existe oficialmente no município, então a cidade se movimenta e o Sesc faz uma atividade sobre o brincar mesmo, chamando o público para essa importância, para brincar junto. Não só sobre falar, mas o importante é brincar.