[[legacy_image_106507]] “Ficamos isolados da sociedade. O uso de máscaras atrapalha a leitura labial e as expressões faciais”, conta a professora surda e atuante no Movimento Surdo da Baixada Santista, Maria Elisa Galvão, sobre as experiências de pessoas com algum grau de surdez nos meses de mudanças provocadas pela pandemia de coronavírus. “A máscara transparente embaça. Tivemos que nos adaptar.” Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Se quem ouve praticamente esgotou as opções de filmes e séries de catálogos de serviços de streaming, Maria Elisa afirma que os surdos não chegaram nem perto de tanta variedade. “Legenda configurada em português não é para qualquer surdo. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a nossa primeira língua.” Hoje, quando que se comemora o Dia do Surdo — data que coincide com a da fundação da primeira escola para surdos do Brasil, o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines), no Rio de Janeiro, em 1857 —, Maria Elisa, que é instrutora e professora de Libras em escolas públicas de Guarujá, quer ajudar a levar informações pertinentes à surdez e à educação bilíngue, recentemente aprovada pela Lei Federal 14.191. Sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em 3 de agosto deste ano, o texto insere a Educação Bilíngue de Surdos na Lei Brasileira de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), como uma modalidade de ensino independente. Antes, estava incluída como parte da Educação Especial. Na Baixada Santista, há 164 surdos em escolas municipais. Guarujá, com o maior número, tem 47. Maria Elisa precisou aumentar a potência da internet de casa e da tecnologia de celulares e computadores para garantir que aplicativos de chamada de vídeo, como o Meet e o Zoom, não a deixem “perdida na tela, no momento de visualização da fala”. Saídas e cirurgia A motorista de aplicativo Acácia Osmarina Azevedo Ramalheiro também precisou se adaptar à nova realidade. Ela descobriu que estava perdendo a audição há cerca de 15 anos, e passou a usar aparelhos auditivos. Ficou surda no início da pandemia, e “me senti totalmente dependente de ter alguém sempre junto para me socorrer”. [[legacy_image_106508]] Antes, Acácia vendia lanches nas ruas, perto do Porto. Com a queda no movimento, tornou-se motorista de aplicativo. Parou novamente por causa do alto preço dos combustíveis e para se preparar para uma possível cirurgia com um implante coclear — um dispositivo eletrônico que transforma sons em estímulos elétricos e os envia diretamente ao nervo auditivo. “Acabo ganhando mais ficando em casa. Não corro risco, nem coloco meu carro em risco. Com a corrida dos papéis para a cirurgia, são muitos exames. Então, resolvi me dar tempo paa isso”. Ela luta para que o convênio médico pague o procedimento. “Só os materiais custariam cerca de R\$ 28 mil.” Ansiosa com o procedimento, passou por exames e consultas com psicóloga, para avaliar se está apta à cirgurgia. “Em caso de dar certo, posso ter um retorno muito bom da minha audição". O uso de máscaras também limitou sua comunicação. “Não vou ficar pedindo aos outros que baixem a máscara (para ela ler lábios ou ver expressões). (...) Mas, nesse meio-tempo, descobri um aplicativo de celular que transforma a fala em texto, e foi minha salvação.” Tecnologia ajuda a qualificar e incluir quem não pode escutar A tecnologia tem sido aliada, em muitos casos, na comunicação e na convivência da comunidade surda. Professora de Libras, Ana Lúcia Claudio Dias Lazaro é surda e leciona na Congregação Santista de Surdos (CSS), instituição filantrópica de assistência social e educacional criada em 1957. Durante a entrevista, a intérprete e tradutora de Libras Alessa Alves ajudou a transcrever as respostas de Ana Lúcia ao português. A demanda por projetos é grande na instituição, que tem 400 cadastrados, mas sofre desde março do ano passado. “Nos últimos anos, mantivemos os cursos de culinária, informática, artesanato, pintura em tela, dança, caratê e percussão, mas muitos tiveram as aulas paralisadas por causa da pandemia.” Nos últimos anos, a congregação investiu em projetos profissionalizantes para a comunidade, como corte e costura, restauração de móveis e panificação. “Mas a grande dificuldade de manter alguns desses projetos ainda é a comunicação, pois os capacitadores devem ser usuários da Língua de Sinais”, diz Ana Lúcia, filha de surdos e com três irmãs na mesma condição. “Para a comunidade surda, é importante que as (pessoas) ouvintes busquem conhecer sua cultura, a identidade surda e também aprender a Libras. Não é necessário gritar, basta ser paciente e se esforçar para se comunicar.” Campanha Para atender demandas da comunidade surda, a startup Wise Hands criou a Campanha Nacional de Surdos, Amigos e Familiares, para geração de cadastros de profissionais. O objetivo da ação é ter um efetivo registro sobre surdos, para que se ofereçam conteúdos acessíveis em Libras. Segundo o cofundador da startup, Rafael Rezende. “a maior parte do mundo em que vivemos não foi projetada para pessoas surdas ou com deficiência auditiva. Então, queremos conversar com os surdos, familiares e amigos, para entender como podemos ajudar”. Por inclusão O Dia do Surdo visa a propor reflexão e debate sobre direitos e luta pela inclusão das pessoas surdas na sociedade — mais de 10 milhões de brasileiros. “Estamos mostrando para grandes empresas que eles estão deixando de fora pessoas que movimentam mais de R\$ 600 bilhões por ano, simplesmente, por falta de acessibilidade”, diz Rezende.