[[legacy_image_267455]] O Brasil produz anualmente 27,7 milhões de toneladas de resíduos recicláveis. Apenas 4% passam por esse processo. Os dados são da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) e se referem a 2022. Os índices são muito abaixo de países da mesma faixa de renda e grau de desenvolvimento econômico, como Chile, Argentina, África do Sul e Turquia, que apresentam média de 16% de reciclagem, conforme dados da International Solid Waste Association (ISWA). Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “O Brasil recicla quatro vezes menos que esses países. Temos que acelerar”, diz o presidente da Abrelpe, Carlos Silva Filho. Em relação aos países desenvolvidos, a distância é ainda maior. Na Alemanha, por exemplo, o índice de reciclagem é de 67%. “O Brasil está 20 anos atrasado em relação a esses países”, diz Silva Filho, para quem a falta de conscientização e participação dos consumidores na separação do descarte seletivo é o principal fator desse baixo índice. Falta, também, infraestrutura das prefeituras para que a coleta seletiva seja feita. Levantamento feito pela Abrelpe em 2019 mostrou que somente os recicláveis que vão para os lixões acumulam uma perda de R\$ 14 bilhões por ano, que poderiam gerar receita e renda para uma camada da população que atua nessa atividade. Emprego e rendaEm Santos, existem quatro cooperativas cadastradas na Secretaria de Meio Ambiente, que reciclam os resíduos. Juntas, elas empregam 210 pessoas. Essas cooperativas estão autorizadas a coletar o material de condomínios e grandes geradores. A cidade de Santos também tem em seu cadastro 22 empresas particulares que atuam nesse segmento. Uma dessas cooperativas fica no Centro, a ONG Sem Fronteiras, onde trabalham 30 pessoas em vulnerabilidade social. Ali, elas têm café da manhã, almoço e o lanche da tarde. O trabalho começa às 8 horas e se encerra às 18 horas. A primeira etapa do serviço é na triagem do material. Papel, papelão, plástico e vidro são separados. Na sequência, o material é prensado, colocado em fardos, pesado e vendido para as indústrias da Capital. O valor arrecadado com a venda é rateado entre os 30 trabalhadores que atuam na cooperativa. “No futuro, com pessoas cada vez mais conscientes, a quantidade de material reciclável destinada às cooperativas vai aumentar. Os números ainda são pequenos porque muita gente não sabe como e o que fazer com os produtos que podem ser reciclados”, diz Marcelo Adriano da Silva, fundador da ONG Sem Fronteiras. “E falta mão de obra”, afirma, já que sua estrutura comporta até 200 pessoas. Para Marcelo, é importante que as pessoas, além de separarem o material reciclável, não o contaminem com produtos orgânicos. “Não custa a pessoa passar uma água no material e separar. Essa simples atitude simplifica muito o serviço. Mas, antes disso, é preciso que as pessoas criem o costume de separar o lixo orgânico (restos de alimentos) dos recicláveis (papel, papelão, vidro, plástico e metal)”. Um dos cuidados que se deve ter, explica Marcelo, é com o vidro descartado. Ele deve ser embalado de forma a não causar dano em quem vai manipulá-lo na reciclagem. Uma curiosidade: o papel higiênico, por exemplo, é feito de papelão e papel branco. Se não houvesse a coleta desse material para reciclagem, o número de árvores cortadas seria muito maior. [[legacy_image_267456]] InclusãoSamantha Passos dos Santos, de 24 anos, começou a trabalhar na cooperativa aos 17. “Sou trans e aqui me sinto incluída. Meus colegas me respeitam. Todos os dias chego às 7 horas, tomo o café com a turma e encaro numa boa mais um dia de trabalho”. Ela recebe por quinzena, mas chega a ganhar, em média, R\$ 1.200,00 por mês. Com esse dinheiro, ajuda a sustentar a casa, onde moram mais duas irmãs e a mãe, que ganha o auxílio do governo, de R\$ 600,00. Samantha já terminou o Ensino Médio e agora sonha em continuar estudando. “Quero ser advogada e vou chegar lá”.