[[legacy_image_311549]] Em muitos debates, o termo sustentabilidade tem sido associado exclusivamente às questões ambientais, como redução de emissões de gases que prejudicam a camada de ozônio, desmatamento e poluição das águas. Para Jorge Abrahão, diretor-presidente do Instituto Cidades Sustentáveis, o conceito é muito mais amplo: não adianta resolver as questões ambientais se as desigualdades sociais e econômicas persistem. Abrahão esteve em Santos na quinta-feira para participar de um dos painéis do ‘Frutos do Diálogo da Cultura Oceânica’, evento organizado pela Secretaria de Meio Ambiente de Santos como mais um passo nas políticas públicas que visam avançar na proteção da vida marinha e das cidades costeiras. Abaixo, breve entrevista com o presidente do instituto que produz, desde 2022, o Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades, um ranking de todas as cidades brasileiras com base em 100 indicadores. Os dados deste ano podem ser acessados no site. O que é uma cidade sustentável?É uma cidade capaz de promover vida digna a todas as pessoas. Esse é o primeiro ponto, porque quando a gente fala de vida digna estamos falando de inclusão, da relação favorável com o ambiente, de participação da sociedade, então, conseguir integrar todas essas questões é fundamental e torna a cidade sustentável. E você diria que ter essa compreensão e, em um segundo momento, fazer a integração de todos esse eixos (ambiental, inclusivo, participativo) é um grande desafio no Brasil?É o maior desafio, eu diria, porque nós não vamos conseguir ter uma cidade sustentável, um país sustentável se a gente resolver a questão ambiental. Por exemplo, ‘resolvemos a questão ambiental e o país já não emite mais gases de efeito estufa’. Ótimo, digamos que o país consiga alcançar a meta do governo atual de zerar essas emissões, consiga resolver o desmatamento, o impacto na biodiversidade e etc. Mas se a gente continuar sendo um dos dez países mais desiguais do mundo nós não seremos um país sustentável e as cidades também não. Se não cuidarmos do aprimoramento da democracia, com transparência, com participação das pessoas de alguma forma para que haja perspectiva da sociedade sendo incorporada, nós corremos o risco de não avançarmos nesse conceito de cidade sustentável por ter isso desmontado. As questões negacionistas vão ganhar poder e não vão deixar avançar as outras questões. Então, eu te diria assim: a integração dessas agendas é fundamental, por isso é importante esse olhar para os diferentes campos para conseguirmos conquistar essa cidade sustentável. Isso é possível e estamos em um momento favorável no Brasil. Favorável por quê?Porque existe hoje em dia um bom ambiente do ponto de vista de expansão para o diálogo, de abertura para que de alguma forma essas agendas sejam incorporadas e isso facilita para que avancemos nesses temas. Em agosto, o instituto divulgou novo ranking das cidades sustentáveis no Brasil. Em mais de 70% das cidades brasileiras a pontuação é baixa ou muito baixa para os indicadores de avaliação. A que você atribui esse cenário?Quando a gente conversa com os municípios - e isso aconteceu em todo o Brasil e no mundo - as falas são de que houve uma pandemia forte, há guerras que geram impactos econômicos e sociais, e isso pode ser uma justificativa para essas questões. Para ser bem franco, eu acho que não devemos aceitar essas justificativas. É claro que esses são fatores que contribuem para indicadores ruins, e precisamos considerá-los, mas mesmo antes da pandemia e das guerras nós já não estávamos conseguindo avançar fortemente nessas agendas. Então, me dá a impressão de que é muito mais uma questão de envolver essas agendas e efetivamente olhar como transforma tudo isso em programas, em definição de orçamentos e políticas públicas para que esses temas possam avançar. E menos de encontrar desculpas para explicar por que não avançou. Não estou dizendo que a pandemia não impactou. Impactou, sim, mas antes dela nós já não avançávamos. Não busquemos álibis para justificar o não-avanço. Temos sete anos até 2030 para recuperar...Exatamente, temos sete anos. Podemos acelerar isso, mas vai depender de uma visão de prioridades, investimentos, políticas públicas. E eu diria mais: investimentos desiguais para os locais mais desiguais. As cidades têm que avançar na capacidade de identificar, com dados, onde estão os mais vulneráveis, e a partir dessas vulnerabilidades investir mais nos lugares que precisam de mais. As cidades ainda não são capazes de fazer isso. Quem deve investir mais? Quem é o sujeito desse verbo: os municípios, os estados, a União?O sujeito desse verbo é o município, o governo local. Santos faz seu mapa da desigualdade. São Paulo, a cidade mais rica do Brasil, também faz. Temos um indicador, por exemplo, que diz qual é a idade média de morte. Essa idade média no Jardim Paulista, na Capital, é de 80 anos. Em Cidade Tiradentes, bairro periférico da zona leste distante 20 quilômetros do Jardim Paulista, a idade é de 59 anos, uma diferente de 21 anos. Como é que uma cidade pode ter, dentro dela, uma diferença dessas entre dois bairros? Mapear isso é fundamental. Nós pegamos esse tipo de dado e levamos para a prefeitura, questionamos, cobramos, propomos alternativas. E tem funcionado?Então, em São Paulo surgiu uma política pública com base nesse indicador. A Prefeitura se comprometeu a destinar 25% do valor em investimentos considerando esses bairros mais vulneráveis, ou seja, vão mais recursos para Cidade Tiradentes do que para o Jardim Paulista. Mas para definir onde investir é preciso saber que fator está abreviando a vida nesses bairros mais vulneráveis. Pode ser a violência, pode ser a insegurança alimentar, pode ser a mortalidade infantil...Sim, é verdade. Esse dado da idade média é fruto de mortalidade infantil, gravidez na adolescência, renda, falta de saneamento, habitação precária... Então, é uma multiplicidade de fatores. Nós dissemos ao prefeito que se ele conseguir reduzir pela metade a diferença da idade média de morte, durante o mandato, será a melhor obra da gestão dele. Os fatores são a síntese de um cenário que, uma vez modificado, representa um grande avanço social que transforma a cidade. Os governos passam, os políticos passam, as desigualdades ficam. O que faz um cenário mudar sem ficar refém da mudança de governo?Temos que criar políticas públicas que atravessem governos e, mais que isso, reduzir a concentração de riquezas, porque é isso que promove as desigualdades. Temos como mapear onde isso está. Temos que enfrentar esse cenário, porque a riqueza está concentrada em um grupo muito pequeno da população, e esse grupo pode viver com algum tipo de taxação que reverta em benefício para os que têm menos. Reduzir as desigualdades vai impactar a vida para todo mundo. O poder público é o mediador dessas questões na sociedade. Em uma região conturbada como a Baixada Santista, em que as relações sociais e econômicas se dão em todos os campos, como levar bons indicadores de uma cidade para o coletivo?É fundamental ter uma integração e uma autoridade que trabalhe isso. Só teremos esse processo quando contarmos com uma política pública que integre essa região. Os impactos não respondem mais às fronteiras físicas entre os países. Veja a pandemia, que não considerou limites entre os países. Mudanças climáticas também não. Precisamos ter uma governança global, alguém pensando no todo. Isso vale para as regiões metropolitanas. É preciso ter um olhar integrado, com espaços de governança que gerem um equilíbrio, e que esteja em sintonia com as diferenças.