El Niño não é apontado como a causa direta da onda de calor desta semana (Luigi Bongiovanni / Arquivo Pessoal) A onda de calor que atinge o litoral de São Paulo e outras áreas do Estado é causada pelo El Niño? A associação pode fazer sentido, já que o fenômeno está ativo e costuma favorecer temperaturas mais elevadas em parte do Brasil. No entanto, a explicação para o calorão previsto para a Baixada Santista nesta semana é mais imediata. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo a Defesa Civil do Estado de São Paulo, a elevação das temperaturas entre quinta-feira (13) e quarta-feira (19) está associada à atuação de uma massa de ar quente e seco sobre grande parte do território paulista. No litoral, os termômetros podem registrar temperaturas até 3°C acima da média. No interior, a diferença pode chegar a 7°C. Isso não significa, porém, que o El Niño deva ser ignorado. O fenômeno está em curso em 2026 e vem se fortalecendo no Oceano Pacífico, podendo contribuir para um cenário de temperaturas acima da média nos próximos meses, inclusive no Sudeste. Afinal, o El Niño causou a onda de calor? Não diretamente. O gatilho meteorológico para o episódio atual é a massa de ar quente e seco, conforme a Defesa Civil. O El Niño atua em uma escala maior e por períodos mais longos, modificando padrões de circulação atmosférica e aumentando ou diminuindo a probabilidade de determinadas condições climáticas. Na prática, é importante diferenciar tempo e clima. Uma onda de calor que dura alguns dias pode estar associada a sistemas atmosféricos específicos. Já o El Niño influencia tendências durante meses, podendo criar condições favoráveis para temperaturas acima da média e alterações na distribuição das chuvas. Por isso, não é correto atribuir isoladamente ao El Niño cada episódio de calor extremo registrado durante sua atuação. O El Niño está ativo em 2026? Sim. Dados do Climate Prediction Center (CPC), ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), já indicavam em julho que o El Niño estava ativo e em processo de fortalecimento. Na ocasião, a temperatura semanal da região Niño 3.4, uma das principais áreas utilizadas para monitorar o fenômeno, estava 1,2°C acima da média. O cenário mudou rapidamente ao longo do ano. Entre dezembro e fevereiro, o Pacífico Equatorial ainda apresentava temperaturas ligeiramente abaixo da média. O aquecimento ganhou força nos meses seguintes, até atingir condições características do El Niño. As projeções divulgadas pela NOAA em julho apontavam ainda que o fenômeno deveria continuar se intensificando ao longo de 2026 e permanecer ativo até o início de 2027. Mas o que é o El Niño? O El Niño é um fenômeno natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, principalmente em uma extensa região entre a costa da América do Sul e a Oceania. Em condições normais, os chamados ventos alísios sopram de leste para oeste e empurram as águas mais quentes em direção à Oceania. Ao mesmo tempo, águas mais frias das camadas profundas do oceano chegam à superfície nas proximidades da América do Sul. Durante o El Niño, essa dinâmica muda. Os ventos alísios enfraquecem e as águas aquecidas passam a ocupar uma área maior do Pacífico central e oriental. A alteração da temperatura do oceano interfere na circulação atmosférica, na umidade e na formação das chuvas. É justamente por essa conexão entre oceano e atmosfera que um fenômeno ocorrido no Pacífico consegue produzir efeitos a milhares de quilômetros de distância. O que muda no Brasil? Os efeitos variam de uma região para outra e também dependem da intensidade de cada episódio. No Sul, o El Niño costuma favorecer aumento das chuvas, elevando o risco de tempestades, enchentes e alagamentos. Já em partes das regiões Norte e Nordeste, pode contribuir para períodos mais secos. No Sudeste e Centro-Oeste, os impactos são mais variáveis. Entre os efeitos associados ao fenômeno estão temperaturas acima da média e alterações na distribuição das chuvas. É importante destacar que um El Niño mais forte não significa automaticamente que todos os seus impactos também serão mais intensos em todas as regiões. A própria NOAA ressalta que a força do fenômeno aumenta a probabilidade de determinados padrões climáticos, mas não garante que eles ocorrerão da mesma forma em todos os lugares. E o que pode acontecer em Santos e na Baixada Santista? Para Santos e o restante da Baixada Santista, um dos principais pontos de atenção está justamente nas temperaturas. Segundo o meteorologista Franco Cassol, um dos impactos esperados do El Niño na Região Sudeste é a ocorrência de temperaturas acima da média histórica, principalmente durante a primavera e o verão. Embora o fenômeno tenha origem no Pacífico Equatorial, ele altera a circulação atmosférica em outras regiões do planeta e pode influenciar os padrões climáticos durante os meses em que permanece ativo. Em relação às chuvas, entretanto, o comportamento é mais complexo. “O que se espera para o cenário atual é um calor acima da média durante a primavera e o verão, o que pode atuar como um fator agravante para tempestades mais intensas”, explica Cassol. Isso não significa necessariamente que a Baixada Santista terá um volume total de chuva maior. “É difícil precisar em quais meses esses eventos ocorrerão, sendo imprescindível o acompanhamento contínuo da previsão meteorológica. Existem riscos para a nossa região, como a ocorrência de chuvas intensas, tempestades ou vendavais, especialmente na primavera e no verão”, acrescenta. Calor pode continuar sendo preocupação O comportamento do Pacífico reforça a necessidade de acompanhar as condições meteorológicas nos próximos meses. A perspectiva divulgada pela NOAA é de fortalecimento do El Niño ao longo de 2026. No episódio atual, a preocupação mais imediata é com a massa de ar quente e seco que atua sobre São Paulo. Além das temperaturas acima da média, a Defesa Civil alerta para a redução da umidade relativa do ar e o aumento do risco de incêndios em vegetação, principalmente no interior. El Niño e mudanças climáticas são a mesma coisa? Não. O El Niño é um fenômeno natural e periódico, enquanto as mudanças climáticas estão relacionadas ao aquecimento de longo prazo do planeta, provocado principalmente pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa decorrente das atividades humanas. Os dois fatores, entretanto, podem atuar simultaneamente. Isso significa que um El Niño pode ocorrer em um planeta que já está mais quente, aumentando a preocupação com extremos de temperatura. Além dos impactos ambientais, períodos prolongados de calor podem trazer reflexos para a saúde, aumentar o consumo de energia elétrica e afetar setores como agricultura e abastecimento de água.