[[legacy_image_157443]] Para o Dia Internacional da Mulher, comemorado nesta terça-feira (8), A Tribuna recebeu vários artigos escritos por mulheres e alusivos à data. Confira vários textos assinados por articulistas de áreas de atuação distintas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! As que vieram para mudarDaniella Berkowitz e Jackeline Pereira (Tesoureira e Secretária-Geral da OAB Santos)OAB 15.311. O número de registro na OAB tinha nome, projetos e sonhos. Em 1971, Maria Lecticia Borges de Souza Lima tornava-se a primeira mulher a pertencer à Diretoria Executiva da OAB Santos, em uma função espinhosa: a de tesoureira, em plena ditadura militar. A partir de Lecticia, as portas começaram a se abrir à competência e ao respeito que as demais 11 advogadas conquistaram junto a seus pares, nesses 89 anos de história da Subseção. Precursoras, desbravadoras e, com certeza, inspiradoras: para a jovem advogada, recém-chegada à profissão; a estudante, conectada com o mundo e pronta a fazer valer direitos adquiridos sob tanta pressão. Para a colega advogada que teve/tem o privilégio de conhecer essas profissionais, em outros papeis fora da OAB Santos: professoras, sócias, amigas, mães, irmãs: Maria Cristina Oliva Cobra (OAB 31.538), secretária em 1981/1982 e 1984/1985; Isa Solitrenick (OAB 37.206), tesoureira em 1985/1986; Zélia de Figueiredo Lyra (OAB 52.263), secretária-geral em 1987/1988; Clara Monforte (OAB 29.360), tesoureira na gestão 1989/1990; Ademilde Fontes (OAB 26.056), in memoriam, vice-presidente em 1991/1992; Tânia Machado de Sá (OAB 31.744), tesoureira em 2001/2003 e secretária-geral em 2004/2006, 2007/2009, 2013/2015 e 2019/2021; Sônia Maria Catarino (OAB 140.021), vice-presidente em 2010/2012; Maria Lúcia Robalo (OAB 65.741), vice-presidente em 2015/2013 e 2019/2021; e Marília Bonavides de Sousa (OAB 84.498), secretária-geral em 2016/2018. Apesar da tecnologia que mudou, em definitivo, nossa forma de atuar e, em especial, no ensino do Direito; apesar da facilidade de comunicar pensamentos, elaborar projetos e discutir ideias, através das redes sociais, a emoção, tão própria da mulher, e sua fisiologia ainda são vistas com desconfiança pela sociedade. Como se uma enxaqueca, pelo período menstrual, fosse alterar o trabalho de pesquisa e redação de uma peça jurídica; como se a preocupação por um filho doente que ficou em casa tirasse o brilho de uma defesa correta. Nada, para nós, advogadas, é fruto do acaso ou “sorte”. Uma “família de advogados” não ajuda a criar reputação profissional. Longe disso. Provamos, nos fóruns, nossa capacidade de levar adiante o que foi construído antes de nós. Assumir um cargo na segunda maior Subseção do Estado é mostrar possibilidades de se mudar espaços, muito mais que ocupá-los por si só, mantendo pensamento e discurso vitimistas, disfarçados de modernidade ou ousadia. A advogada do século 21 se coloca, na sociedade e para a classe, com conteúdo, tanto por respeito àquelas que vieram antes de nós e por nossa própria história, espelhada naquelas que chegam a cada Cerimônia de Entrega de Carteiras, onde nasce a esperança da chegada de novas Lectícias. Empregabilidade e combate à violênciaRenata Bravo (Vice-prefeita de Santos) Mais do que celebrar a conquista dos direitos das mulheres, hoje é dia de homenagear todas que derrubaram tabus, apenas sendo elas mesmas, defendendo o ideal em que acreditam. Nossa luta é apenas por direitos iguais, nada mais do que isso. Desde o início do mandato, participamos de dezenas de encontros com mulheres de Santos, buscando diálogo e conhecendo de perto a realidade, estabelecendo uma ponte sólida com as santistas. Nestas reuniões, a falta de independência financeira, que muitas vezes as obrigam a se submeter à violência, se mostrou um obstáculo real. Identificada a dificuldade, foi a vez de criar oportunidades para elas. Atualmente, cerca de 80% dos alunos das Vilas Criativas são mulheres e 70% dos inscritos no Capacita Santos também foram mulheres. Temos muitos desafios pela frente e a empregabilidade de mulheres vítimas de violência é um dos mais importantes neste momento. Recolocá-las no mercado de trabalho é a garantia de independência financeira delas. Para isso, o prefeito Rogério Santos viabilizou parcerias para que ofereçam, preferencialmente, vagas de emprego às mulheres que sofreram violência. Uma conquista para as vítimas nesta retomada da vida. Em tempos de pandemia, a violência contra a mulher atingiu números ainda mais alarmantes e inaceitáveis. Uma mulher foi morta a cada nove horas. Garantir a segurança das santistas é uma política pública efetiva e de continuidade desde a gestão do ex-prefeito Paulo Alexandre Barbosa. O programa Guardiã Maria da Penha é nosso carro-chefe neste trabalho. Em parceria com Ministério Público e Guarda Municipal, ele protege e acompanha vítimas de violência com medidas protetivas. Já são mais de 600 visitas e 200 mulheres que tiveram segurança garantida. O sucesso desta política pública em Santos foi reconhecido nacionalmente ao conquistar o 2º Prêmio Raps, que premia boas práticas de governança. Hoje, estamos lançando um 0800 específico para agilizar ainda mais o atendimento destas mulheres, em casos de urgência. Outro importante avanço em políticas públicas que estamos transformando em realidade é a Casa da Mulher, que oferecerá serviços e acolhimento às vítimas de descriminação e violência. Será um marco na garantia dos direitos às mulheres integrando e humanizando o atendimento em um mesmo espaço. Já a luta contra a pobreza menstrual está se transformando em política pública para garantir mais qualidade de vida às santistas. Todas as meninas e mulheres em vulnerabilidade social terão direito a absorventes, para que algo tão comum como a menstruação deixe de ser um fator na evasão escolar. Trabalhar pela mulher é uma política de governo prioritária em nossa gestão, aprimorando o que foi construído e implantando ações que atendam a todas. Conquistas femininas: só faltam na políticaSolange Freitas (Jornalista)O fato de ter ocorrido na semana anterior ao Dia Internacional da Mulher torna o episódio Mamãe Falei ainda mais emblemático. Numa única fala, o deputado estadual Arthur do Val (Podemos) tocou em dois pontos fundamentais: 1) A maneira como faz referência à beleza das mulheres ucranianas traduz a visão da mulher como objeto. 2) Ao comentar a “facilidade” de se apropriar delas em função de serem pobres, expressa a visão da mulher como mercadoria. Esses dois conceitos sobrevivem submersos nos grotões mais sombrios de muitas das nossas almas e das nossas culturas. São eles que explicam os números da violência contra a mulher, os salários menores que elas recebem para exercer a mesma função que homens, a dupla jornada e muitas outras questões que afetam duramente a vida feminina. É preciso reconhecer que um longo caminho de muitas e preciosas conquistas foi trilhado nas últimas décadas. Podemos usar como exemplo de sucesso para simbolizar essa trilha luminosa a evolução da atuação da mulher na Medicina brasileira. Em 1879, o imperador Pedro II assinava o Decreto 7.247, que proibia a discriminação de mulheres na admissão aos cursos de graduação no Brasil. O ato abriu o caminho para que a gaúcha Rita Lobato Velho, em 1887, se formasse na Bahia e se tornasse a primeira médica do País. O episódio está retratado na novela Nos Tempos do Imperador, da Globo, pela personagem Pilar Villar, representada pela atriz Gabriela Medvedovski. A luta de Rita Lobato Velho abriu caminho para que em 2020, pelo levantamento da Demografia Médica, 46,6% desses profissionais sejam mulheres, contra 53,4% de homens. Caminhamos para o equilíbrio ou talvez até para a vantagem, porque em 2015 éramos 42,5% contra 57,5% e também porque em 2019 as mulheres já representavam 60% dos formandos em Medicina no Brasil. Mayara Cardoso, 22, vai fazer parte dessa estatística crescente ainda nesta década. Foi admitida pelo Sisu neste ano para o curso de Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Sou preta, pobre, e vim da escola pública. Quando as pessoas me perguntavam ‘por que Medicina’, eu respondia ‘por que não escolher a Medicina?”. Os números da Medicina mostram que é possível alcançar esse sucesso em todos os outros campos e, entre eles, com prioridade, a política. Mulheres, somos 52,5% do eleitorado brasileiro, mas temos apenas 15% das cadeiras da Câmara de Deputados. Na raiz dessa desproporção está o preconceito que tem de ser combatido até entre nós mesmas. Se uma mulher que tivesse adormecido na primeira metade do século passado acordasse agora, ficaria espantada com o número de policiais femininas, engenheiras, narradoras e comentaristas de futebol, jornalistas, médicas, empresárias...Por que as lideranças políticas não estão nessa lista? Fui candidata e sofri ataques enquanto mulher e violência política. Esses ataques não me intimidaram. Vou continuar na luta e este texto está convidando você, mulher, para vir junto. Vamos virar esse jogo. Vamos equilibrar homens e mulheres na representação política. O que parecia impossível nos tempos do imperador está ao nosso alcance. Na parede do quarto da agora estudante de medicina Mayara, em Belo Horizonte, tem uma frase de Alice no País das Maravilhas: “A única forma de alcançar o impossível é acreditar que é possível”. Oportunidade e solidariedade juntas, Maria Ignez Barbosa (Presidente do Fundo Social de Solidariedade de Santos) Santos é a terra da liberdade e da caridade. Mais do que o lema de nossa Cidade, é o estilo de vida dos santistas e podemos afirmar que o Fundo Social é o símbolo maior desta solidariedade. Este reconhecimento se deve às incansáveis mulheres, que mesmo durante a pandemia não pararam de trabalhar ajudando o próximo. Claro, os homens também foram fundamentais nesta batalha, mas nós mulheres somos maioria não apenas na Cidade, como no Fundo Social! Em meus quase 15 anos à frente do Fundo Social, passando pelas gestões dos ex-prefeitos Paulo Gomes Barbosa e Paulo Alexandre Barbosa e do prefeito Rogério Santos, nunca enfrentamos um momento tão crítico quanto a pandemia. E só o estamos superando graças ao trabalho conjunto com mulheres, que carinhosamente chamamos de voluntárias do Fundo. Elas são fundamentais para transformar em realidade campanhas solidárias, bazares, eventos para entidades cadastradas, entre outros. O trabalho do Fundo vai muito além de enfrentar temporariamente uma dificuldade com doações, que são fundamentais, porém não a solucionam a longo prazo. Por isso, desenvolvemos também instrumentos para geração de renda e melhora da qualidade de vida. Empregabilidade e solidariedade precisam caminhar juntas, em especial, às mulheres que já são maioria entre os chefes de família no Brasil. Temos cursos de qualificação profissional como as Escolas de Moda, de Beleza, Padaria Artesanal. Para a geração de renda, temos Pintura em Tecido, em Madeira, Arte Aplique, entre tantos outros. Em grande maioria, os alunos são mulheres buscando independência financeira e liberdade. Desde o início dos cursos, já são quase oito mil alunos formados. Dentre todos avanços históricos do Fundo Social, o mais emblemático e revolucionário foi a criação do Programa Mãe Santista, numa parceria de muito sucesso com a Secretaria de Saúde, na gestão do ex-prefeito Paulo Alexandre Barbosa. Atualmente, a política pública é um marco na saúde da gestante e foi responsável direta pela queda ao menor patamar da história no índice de mortalidade infantil em Santos: 7,2 mortes para cada mil nascidos vivos. O programa dá assistência à gestante durante toda a gravidez. Elas também ganham um kit completo com enxoval para mamãe e bebê. Os números do programa mostram sua grandeza: mais de 18 mil mulheres atendidas, além de 16 mil kits de enxoval e higiene bucal distribuídos. Outra importante conquista é a Rede Amigos da Solidariedade, lançada em dezembro. Ela reúne, em um cadastro único, pessoas e empresas interessadas em realizar voluntariamente ações que ajudem quem precisa - chefes de família, mães, filhas. Neste 8 de março e em todos os dias do ano, todas as mulheres precisam de atenção, de acolhimento. A sociedade civil e o poder público, juntos, podem e devem dar oportunidade às santistas.