Embarcação tombou na noite de sexta-feira, no Parque Valongo (Alexsander Ferraz/AT) O navio Professor W. Besnard, atracado no cais do Parque Valongo, em Santos, no litoral de São Paulo, que adernou (tombou) na noite de 13 de março, sexta-feira, trouxe à tona a lembrança de naufrágios e acidentes marcantes ocorridos na Baixada Santista. São casos de afundamentos propositais, encalhes e até embarcações atingidas durante a guerra. Mais de 2.800 navios já afundaram no litoral brasileiro. No Estado de São Paulo, são cerca de 250. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Adernou O W. Besnard adernou por volta das 19 horas. Metade da embarcação ficou submersa. A Autoridade Portuária de Santos (APS) isolou a área em terra e instalou barreiras de contenção no mar. Segundo a APS, a embarcação é de propriedade do Instituto do Mar, está inoperante e ocupa um espaço cedido enquanto aguarda uma possível restauração. “O navio não representa risco para a navegação no canal do Porto de Santos”, explicou. Navio Professor Besnard em Santos, em imagem do ano 2002 (Alberto Marques/ AT/ Arquivo) Relembre, abaixo, alguns casos anteriores envolvendo embarcações no litoral de São Paulo, iniciando por uma que foi atacada durante a Segunda Guerra Mundial. O Tutoya recebeu originalmente o nome de Mitcham, quando foi fabricado na Inglaterra (Reprodução) Tutoya Uma equipe de mergulhadores comprovou ter encontrado o navio Tutoya, que teria afundado entre Peruíbe e Iguape, no litoral de São Paulo. A embarcação foi atacada por um submarino alemão durante a 2ª Guerra Mundial. O grupo já havia comprovado outros dois naufrágios na região, próximos à Ilha da Queimada Grande, a Ilha das Cobras, em Itanhaém: o Araponga (naufragado em 1944) e o Irmãos Gomes (em 1967). O Tutoya foi construído na Inglaterra, em 1913, e batizado de Mitcham. Dez anos depois, quando foi vendido para o Brasil, para a Lloyd Brasileiro, companhia que não existe mais, passou a se chamar Uno. Em 1929, recebeu o nome Tutoya. Ele era um navio cargueiro. Durante a década de 1940, em meio à Segunda Guerra Mundial, as embarcações navegavam próximas ao litoral, às escuras e durante a noite, como forma de proteção contra possíveis ataques. "O Tutoya foi abordado em 1º de julho de 1943 por um submarino alemão em frente ao litoral de Peruíbe. Os nazistas ordenaram que os tripulantes acendessem as luzes, e o comandante, acreditando que se tratava de um navio de patrulha, obedeceu. O navio foi, então, atingido por um torpedo do submarino alemão U-513”, explicou o pesquisador de naufrágios Maurício Carvalho. Sete pessoas morreram, e outras 30 sobreviveram. “O navio está protegido pelas leis brasileiras. Nada pode ser removido dele. É um ponto que pode ser utilizado para levar mergulhadores de forma exclusivamente contemplativa", completou. A imagem em 3D do Kestrel foi inspirada em uma pintura de Benedicto Calixto (Divulgação/ Prefeitura de Santos) Kestrel O veleiro inglês Kestrel, encalhado há mais de 100 anos na orla da Praia do Embaré, em Santos, deixa rastros visíveis quando o mar recua na orla. Nos anos 1970, uma estrutura de seu casco foi vista na areia devido ao desassoreamento do canal do Porto de Santos. Atualmente, uma placa instalada no pontilhão da faixa de areia do Canal 5 permite que visitantes escaneiem um QR Code e visualizem a embarcação em 3D, por meio de realidade aumentada. Ao apontar o celular para a direção dos destroços, o navio aparece reconstruído sobre a água (como na foto acima). O local foi transformado em sítio arqueológico pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O Ministério Público recomendou a sinalização da área para evitar acidentes. O Ais Giorgis naufragou no canal do Porto de Santos e o que restou de seus destroços foi retirado do mar em 2013 (Divulgação/ Codesp) Ais Giorgis O navio Ais Giorgis pegou fogo na madrugada de 8 de janeiro de 1974, enquanto descarregava no Porto de Santos. Com 139 metros de comprimento e calado de 24 pés, a embarcação transportava produtos químicos. Uma operação para desatracar o navio ainda em chamas para proteger os outros terminais do incêndio acabou com uma morte. A embarcação naufragou no canal do porto e o que restou de seus destroços foi retirado do mar em 2013. Ao passar pelo farol da Ponta do Boi, o Hathor foi violentamente jogado sobre as pedras da Ponta da Sepituba, próxima a Ilhabela (Reprodução) Hathor O cargueiro inglês a vapor Hathor naufragou em 24 de março de 1909 no litoral de Ilhabela. Com cerca de 104 metros de comprimento, a embarcação enfrentou forte mau tempo antes de colidir com formações rochosas próximas à ilha, o que provocou o seu afundamento. Com o passar dos anos, os destroços do navio se transformaram em um dos pontos clássicos de mergulho da região, atraindo mergulhadores interessados na história do naufrágio e na vida marinha que se formou ao redor da estrutura submersa. O Moreia, com cerca de 15 metros de comprimento, era um pesqueiro que estava abandoado em um mangue e foi afundado propositalmente em Santos (Parque Estadual Marinho da Laje de Santos/ Divulgação) Moreia O Moreia também se tornou atração para mergulhadores, porém foi a primeira embarcação afundada intencionalmente no Brasil. Isso ocorreu em 1992. A embarcação, com cerca de 15 metros de comprimento, era um pesqueiro que estava abandoado em um mangue do Porto de Santos. O processo ocorreu para que ele passasse a servir de ponto de mergulho na Laje de Santos. Moreia é o nome dado à embarcação pela equipe que realizou o processo de afundamento, pois seu nome original era desconhecido. O navio Recreio encalhou na orla de Santos em fevereiro de 1971, depois de uma forte tempestade (A Tribuna/ Arquivo) Recreio O navio Recreio tem seus destroços na faixa de areia da Ponta da Praia, entre o Canal 6 e o Ferry Boat, em Santos. Ele encalhou e virou atração em 26 de fevereiro de 1971. Até hoje, sempre que o mar recua, partes do casco se tornam visíveis. Uma tempestade se formou na Barra de Santos durante a noite, com ondas fortes e ventos intensos. O navio, que estava fundeado nas proximidades da Praia do Góes, em Guarujá, rompeu as amarras durante o temporal. Sem motores próprios, pois sua movimentação dependia de rebocadores, o navio ficou à deriva. Impulsionado pelos ventos, seguiu em direção à orla santista até encalhar na areia da Ponta da Praia. Na manhã seguinte, a cena impressionava. Um navio, imóvel, cravado na praia. Uma multidão se formou no calçadão para ver de perto o que parecia improvável: um transatlântico transformado em casa noturna, derrotado à beira do mar. Restos do Recreio podem ser vistos parcialmente ou totalmente, conforme a altura da maré em Santos (Flavio Hopp/ Acervo AT) História curiosa Batizado originalmente de Carl Hoepcke, o Recreio media 62,4 metros de comprimento e 10,96 metros de largura. Operou por décadas na rota entre o Rio de Janeiro e Florianópolis, transportando passageiros até 1956, quando sofreu um grave incêndio ao sair do Porto de Santos, com 130 pessoas a bordo. Depois do acidente, foi vendido, mudou de nome para Pacaembu e passou a atuar no transporte de carvão e madeira no Pará. Anos depois, com o motor comprometido e o alto custo de reparo, o seu destino parecia ser o desmanche. Foi então que surgiu uma nova reviravolta. O engenheiro naval russo Wladimir Grieves, radicado em Santos, comprou a embarcação para transformá-la em um navio-boate. A casa de máquinas deu lugar a uma piscina, a chaminé virou caixa-d’água e a torre de comando foi adaptada como mirante. O navio permaneceu inerte na Ponta da Praia até agosto de 1972. Parte da embarcação foi desmontada, mas o fundo do casco nunca foi completamente retirado. É esse remanescente que ainda hoje pode ser visto em dias de maré baixa.