[[legacy_image_291050]] Costumam dizer que Denilze Lourenço, 59 anos, é uma guerreira diante das dificuldades da maternidade atípica, ou seja, das mães cuidadoras de crianças neurodivergentes, ou com algum problema de saúde grave. Mas ela não se vê como guerreira e, sim, uma sobrevivente. “A gente tem de lidar com a falta de rede de apoio, falta de dinheiro, falta de apoio governamental, das coisas que as crianças necessitam, como terapia e tratamentos”. Integrante do Conselho Municipal dos Direitos das Pessoas com Deficiência (Condefi) de Santos, Denilze participou, junto com mulheres de diversas áreas, do 1º Fórum de Maternidade e Infância, no último fim de semana, no Teatro Rosinha Mastrângelo, em Santos. O projeto foi desenvolvido pela relações-públicas Carolina Ferreira, de 31 anos, com o intuito de unir mulheres, sejam mães ou não. O evento, segundo ela, é o primeiro na Baixada Santista a fim de mobilizar as mulheres como classe, com foco na maternidade e no desenvolvimento das crianças nos anos iniciais. Carolina tem dois filhos e diz que ama ser mãe. “O que incomoda é a dificuldade de me recolocar no mercado de trabalho, a violência obstétrica e a forma como as crianças não são vistas como pessoas”. Projetos“Quando o diagnóstico entra pela porta, os homens saem pela janela”, afirmou a deputada estadual Andrea Werner (PSB), sobre as dificuldades da maternidade solo e atípica. Ela explicou que entrou na vida política por lutar pelos direitos do filho. Os projetos de lei elaborados por Andrea são voltados a mães em situação de vulnerabilidade, e buscam, por exemplo, que o diagnóstico de transtorno do espectro autista seja mais acessível. “O diagnóstico não deve ser um privilégio, mas, sim, um direito”. Uma questão abordada sobre os tratamentos é que eles não funcionam da mesma maneira para todos. “Um dia, o tratamento funciona, no seguinte, não. Então tem uma regressão, e uma frustração das mães”, disse a escritora Julie Lua, de Praia Grande. Ela apontou, entre outras questões, a dificuldade das mães moradoras de bairros periféricos para levar filhos cadeirantes para tratamento. Maternidade x carreira“Eu não entendia onde estava, profissionalmente. Foram muitos nãos”, apontou a especialista em marketing Verônica Ponce. “O erro era eu ter um filho, e isso não deveria ser visto como um erro. Eu não queria ter de escolher entre ser mãe e a minha carreira”. Verônica foi crítica ao compartilhar experiências pessoais. “Ninguém quer contratar uma gestante. Ter filho foi visto como um erro por eu não estar 100% disponível para o trabalho. Vou ter que me ausentar quando meu filho estiver doente, vou sempre estar com a cabeça dividida. Ao longo desses anos, me perguntaram muito onde eu estava com a cabeça, mas o engraçado é que nunca perguntaram isso para o meu marido”. “Minha carreira era minha prioridade, e eu senti que teria de abrir mão dela para colocar minha gestação em primeiro plano”, comentou a assistente social Larissa Figueiredo, chefe do Seção de Acolhimento e Abrigo Provisório de Adultos, Idosos e Famílias em Situação de Rua (Seacolhe-AIF) de Santos. “Eu posso ter conseguido ser mãe e continuar minha carreira, mas quero também que outras mães possam ter esperança de alcançar seu próprio desejo, sabendo que as políticas públicas vão dar uma base para garantir o direito de seus filhos também”. Processo eleitoralA participação das mães no processo eleitoral foi outro tema discutido. “A principal característica entre a relação de uma mãe e de uma gestora pública é o cuidado”, apontou a vice-prefeita de Santos, Renata Bravo (PSDB). Ela defendeu maior participação feminina no processo político. “Muitas mulheres estão nos bastidores por não terem a oportunidade de estarem à frente”. Uma crítica constante à situação atual foi a de que a política ainda é um espaço masculino e machista, e como a presença de mais mulheres pode mudar esse quadro. “Quanto menos nos envolvemos em política, mais damos espaço para que nossa voz seja interrompida e calada”, disse a vereadora de Cubatão Jaque Barbosa (PSD). Ela também ressaltou que, até 2021, a licença maternidade era considerada falta na Câmara e em Cubatão. Como a única mulher eleita na Cidade, e atuando grávida no seu primeiro ano de mandato, Jaque disse que conseguiu reverter a situação e destacou que mulheres envolvidas na política precisam ser a rede de apoio daquelas que se interessam em começar uma carreira, mas não têm ajuda. “Mães trazem novas narrativas, novos olhares sobre questões públicas. A gente precisa dessa representatividade”. (*) Reportagem feita como parte do projeto Laboratório de Notícias A Tribuna - UniSantos sob supervisão do professor Eduardo Cavalcanti e do diretor de Conteúdo do Grupo Tribuna, Alexandre Lopes.