[[legacy_image_159266]] A necessidade de cativar os adolescentes brasileiros a se interessarem por política é um desafio. A quantidade de jovens de 16 e 17 anos que têm título de eleitor mostra a dificuldade dessa missão. Afinal, o voto é facultativo nessa faixa etária. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Em dezembro de 1994, a Baixada Santista tinha 9.425 adolescentes com essas idades aptos a ir às urnas. Esse número foi caindo a cada pleito até chegar ao nível mais baixo, neste ano: 5.684, o que representa uma diminuição de 39,69%. A região acompanha um fenômeno estadual e nacional. Esse cenário pode ser revertido, pois os cartórios eleitorais aceitam o cadastro de novos votantes até 4 de maio. As inscrições podem ser feitas por celular ou computador com câmera e com acesso à internet. Por isso, o movimento estudantil local vai iniciar, nesta semana, uma campanha na qual irá às escolas conversar com os jovens e informá-los sobre a importância de eles participarem do processo democrático do País, desde cedo e de forma ativa. O presidente da União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes) de Santos, Matheus Martins Café Santana, relembra que o voto facultativo aos 16 e 17 anos é fruto de uma luta do movimento estudantil, que assegurou esse direito na Constituição Federal de 1988. “A gente quer que essa conquista continue viva. Por esse motivo, iremos falar para a juventude o quanto é importante exercer a democracia e como ela pode mudar a história do País”, destaca. Durante a visita às unidades de ensino, será entregue um folheto com todas as orientações de como tirar o título de eleitor. “Com essa ação, procuramos passar o sentimento de esperança por um Brasil melhor, pois muitos deles não têm sonhos e estão sem perspectivas”, afirma. Ex-dirigente da Umes, Marco Antônio Torres Guimarães foi convencido da importância de tirar o título de eleitor antes dos 18 anos, após participar do cursinho pré-vestibular ofertado pelo Educafro. “A gente percebe que a galera está prestando mais atenção na política hoje, devido à atual conjuntura do nosso País. Iremos passar nas escolas para falar dessa campanha e, também, para ajudar na construção de grêmios estudantis”. Moradora do Bairro Estuário, em Santos, Kamila Santos da Silva, de 17 anos, já tirou o título de eleitor e admite estar ansiosa para votar pela primeira vez no pleito de outubro. “Eu tomei essa decisão ao entender que poderia mudar a minha realidade e a de outras pessoas. Também queria saber como é a sensação de escolher alguém que vai me representar”, observa. Também com 17 anos, a praia-grandense Lissandra Hellena Gonçalves da Silva Galdino entende que o cenário eleitoral no País é bem confuso e que existe uma grande divisão na sociedade. Ela passou a se interessar mais pelo assunto após contatos com lideranças do grêmio estudantil. “Percebi a importância de me envolver mais nessas questões e estou incentivando outros colegas a fazer o mesmo. Vários deles não ligam para esse tema. Espero decidir bem meus candidatos e escolher aqueles que podem me dar algum tipo de esperança”, frisa. Thalles Gabriel Menconi Bê morava em São Paulo e está vivendo em Santos há três meses. Na avaliação dele, os jovens precisam ter responsabilidade, e ele decidiu tirar o título de eleitor para entender melhor como funciona a vida adulta. “Eu fui muito incentivado pela minha família para tomar essa atitude. É bem importante a gente se envolver nas discussões sobre os rumos do nosso Brasil. Discutir política já era um costume em casa e entre os meus colegas”, explica ele. CampanhaO Tribunal Superior Eleitoral (TSE) realizará, entre esta segunda (14) e sexta-feira (18), a Semana do Jovem Eleitor, para conscientizar a juventude do papel de cada cidadão para definir o futuro do País e, assim, fortalecer a democracia. A coordenadora de Comunicação Social do TSE, Eliana Passareli, explica que o principal foco é incentivar que os adolescentes de 16 e 17 anos obtenham o título de eleitor e votem no pleito deste ano. Durante a semana, o TSE divulgará materiais voltados para esse público. Essa mobilização também contará com a participação de influenciadores digitais, organizações da sociedade civil e instituições públicas e privadas. Eliana cita que serão feitas postagens nas principais redes sociais acessadas pelos jovens, como Facebook, Instagram, Twitter e TikTok. “Apesar do esforço da Justiça Eleitoral, a gente sabe que a política é um assunto bastante complexo e que deve envolver toda a sociedade. A pessoa, desde muito cedo, precisa ser incentivada a participar da vida política do País”, enfatiza. Visita monitoradaA chefe do cartório da 118ª Zona Eleitoral de Santos, Michelle Lapa Cortegiano Molarino, afirma que, a partir de 2011, o trabalho com os jovens foi intensificado para incentivar a participar desse público durante as eleições. Um dos projetos de que esse órgão é parceiro é a Câmara Jovem, que promove a integração do Legislativo com os estudantes dos ensinos Fundamental e Médio da rede municipal. Outras iniciativas citadas por Michelle são palestras em escolas e a visita monitorada ao cartório eleitoral, onde os alunos entendem melhor o papel da Justiça Eleitoral. A atividade é encerrada com a simulação de um pleito, e a votação ocorre com o uso de urna eletrônica. Falta de interesseA descrença, a falta de interesse e o desconhecimento da importância da política e uma comunicação falha por parte dos representantes da população e dos partidos com os jovens são razões apontadas para que quem tem 16 e 17 anos não providencie o título de eleitor. A cientista política e professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp) Joyce Luz acredita que a maioria dos adolescentes diz não gostar do tema por desconhecer, de fato, o que é a política. E não recebe incentivo para aprender ou pensar sobre esse universo. “Muitos entendem o que é política pelo que a mídia transmite, mas não conseguem compreender o que está por trás dos fatos, como aprovar uma política que controle o preço dos combustíveis. Os jovens não conseguem perceber que há toda uma estrutura — neste caso, o Legislativo — que poderia resolver os problemas da sociedade”, explica Joyce, que é diretora do Movimento Voto Consciente. Mestre e doutoranda em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), Joyce avalia que os partidos e as instituições deveriam oferecer conteúdo com linguagem mais acessível e didática sobre política para atrair esse público. A coordenadora do curso de Ciências Sociais da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), Syntia Pereira Alves, vê pouca inovação na comunicação entre os partidos e a população, que ainda considera a participação política somente pelo voto. “É de responsabilidade de toda a sociedade, meios de comunicação e sistema de ensino, por exemplo, trabalharem para mudar a visão que as pessoas têm da política e de suas responsabilidades na vida pública e da sociedade”. Para a professora, há pouca relação entre os políticos e os jovens, que não veem suas demandas atendidas — situação que tende a se agravar em médio e longo prazos.