[[legacy_image_20454]] Moradora da Área Continental de São Vicente, Mariana Gomes Martins, de 23 anos, batalha há quatro anos pelo sonho de ingressar em um dos cursos mais concorridos do país, em uma das melhores universidades da América Latina. Para ela, somou-se a isso a luta contra tudo o que pesa sobre uma mulher vinda de família pobre que sonha grande. Arredar o pé do campo de batalha não estava em seus planos, mas, contrariando as estatísticas, faltas, medos e preconceitos, Mariana garantiu seu lugar no curso de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Esta semana, pisou pela primeira vez no Campus Pinheiros, sua casa pelos próximos seis anos. Ao lado dela, dona Conceição e seu Custódio, os pais. Ela, retirante do Ceará, chegou a São Paulo para começar a vida como doméstica. Ele, deixou Minas Gerais e os estudos para tentar uma vida melhor por aqui. Os dois estão tentando se acostumar com a ideia da filha trocar o Parque das Bandeiras para morar na Capital. Porém, sabem que isso é uma baita vitória para ela e, de forma indireta, para muita gente. [[legacy_image_20455]] Primeira na família a cursar uma faculdade pública, Mariana diz que ter uma médica entre os familiares não era uma ideia que passava pela cabeça de seus parentes. Era uma realidade tão distante que muitos só a imaginariam em outra galáxia. Mas recebeu muito apoio. Por isso, garante que essa é uma conquista coletiva. “É a representação de uma luta de gerações. Por isso, não é uma conquista só minha, mas de todos que contribuíram para que eu chegasse até aqui, inclusive meus ancestrais”. Ela diz que foi sustentada por uma rede de apoio que lhe deu oportunidades que possivelmente não teria. Oriunda de escola pública, apesar dos esforços, precisou de cursinhos para se preparar. Há dois anos, iniciou os estudos no Pré-Médico, em Santos. A família fez o que pôde para conseguir pagar as mensalidades do cursinho. Até que chegou o momento que não podiam mais. Porém, a garra de Mariana garantiu-lhe uma bolsa integral. “A Maju, como é conhecida aqui no cursinho por conta da jornalista da Globo, nos procurou em 2018, conseguimos um desconto e os pais dela pagaram esse ano. Ela não passou, mas era muito esforçada e nós decidimos dar a bolsa, porque ela é muito humana e nós precisamos de profissionais assim”, fala, emocionado, Marcelo Polachini, responsável pelo cursinho. Otimizando o tempo A rotina da vicentina começava às 5h. E para quem tinha tanto o que estudar e precisaria de um dia de 48 horas, perder quatro delas sacolejando dentro do ônibus em deslocamentos não era nada animador. Nesse caso, valeu a lição de usar os limões da vida para fazer limonadas. Mariana conseguiu colocar em dia as obras obrigatórias que eram lidas dentro do coletivo. “Minha família se esforçou muito para que eu pudesse estudar em período integral, sem trabalhar. Foi um privilégio. Eu reconheço os privilégios que tive. Por isso, não sou exemplo de meritocracia. Se fosse só pelos meus esforços, sem as oportunidades que tive, não estaria aqui”. Apesar de tudo, a própria fé de Mariana foi testada. Durante sua preparação, teve que perder horas de sono – que já eram poucas – para acordar ainda mais cedo. Com o fechamento da Ponte dos Barreiros, ficou ainda mais difícil chegar ao cursinho. Pior que isso, dona Conceição ficou doente. O que obrigou muitas vezes Mariana a faltar para cuidar da mãe. “Chegou um momento que eu pensei em desistir. Estava exausta e achei que não fosse dar conta. Mas resisti, e isso me levou ao curso dos meus sonhos, na faculdade dos meus sonhos”. E todo o cansaço vindo dos sacrifícios e dificuldades, diz, parece que sumiu com um sopro. Lição de vida A verdade é que a vitória de Mariana reverbera um eco de ‘eu posso’ no coração de muita gente que ainda não se permitiu sonhar alto. “Quando minha mãe soube que eu queria fazer Medicina, ela ficou um mês sem dormir. Porque sabia das dificuldades. Sabia que essa é uma profissão elitizada, embranquecida. Mas entendeu meu sonho e me apoiou”, conta Mariana. “Agora, quero motivar outras pessoas”. [[legacy_image_20456]] Por isso, apesar de já saber que sua rotina continuará difícil e exigirá esforço, ela já se comprometeu com três estudantes que, ao conhecerem sua história, se sentiram inspirados e vão sonhar alto também. “Já assumi o compromisso de ajudá-los na preparação para o vestibular”, resume, com a sabedoria de quem entende a importância de ter apoio. Aliás, ela vem assumindo outros compromissos desde já. Além de inspirar outras pessoas vindas de realidades como a dela a alcançarem a universidade pública ou a se permitirem sonhar, Mariana garante que aproveitará a faculdade ao máximo, se envolver em projetos e pesquisas com um objetivo: “o meu compromisso é com o Sistema Único de Saúde [SUS]. Será uma forma de devolver à sociedade essa oportunidade que vou ter”.