Henrique Marques é médico, cantor e compositor (Arquivo pessoal/Henrique Marques) Antes de ser reconhecido pelo cabo da Polícia Militar Isaías Alves de Lima como o médico que o ajudou a sobreviver após um tiro em 2008, em Santos, no litoral de São Paulo, Henrique Adhemar Marques Jr. já tinha uma história construída em duas áreas diferentes. Médico e proctologista, ele também é cantor e compositor, e acumula mais de 170 músicas gravadas por alguns dos principais nomes da música brasileira. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Conhecido artisticamente como Henrique Marx, ele está há cerca de 25 anos na música. Ao longo desse período, viu suas composições chegarem ao rádio, à televisão, aos palcos e às plataformas digitais. A relação com a música começou ainda na infância, quando mantinha uma banda com amigos na Zona Leste de São Paulo. Na faculdade de Medicina, continuou participando de festivais. Depois, passou a conciliar os plantões com shows e sessões de estúdio. “Eu sabia que gostava das duas coisas. A música é um presente que Deus me deu para eu continuar alegrando a alma e a medicina é um presente e a missão que Deus me deu para eu cuidar do corpo das pessoas.” Composições famosas A lista de artistas que gravaram suas composições inclui Reginaldo Rossi, Edson & Hudson, Bruno & Marrone, Daniel, Alexandre Pires, Gian & Giovani e Rio Negro & Solimões. A primeira música de Henrique a ser gravada por um artista conhecido foi “Vida Bandida”, registrada por Reginaldo Rossi. Depois, vieram outras composições que ampliaram sua projeção no meio musical. Entre as canções que considera mais especiais estão “Fala”, gravada por Edson & Hudson, “Amor de Ping Pong”, por Bruno & Marrone, e “A Chapa Vai Esquentar”, que chegou à novela “A Favorita”, da TV Globo. “Essas três foram os meus filhos mais queridos”, afirma. “Fala” ganhou ainda uma versão em espanhol e chegou a ser gravada pelos grupos Los Nocheros, da Argentina, e Bryndis, do México. Segundo Henrique, o trabalho ficou durante uma semana entre os dez mais da Billboard americana. Suas composições também estiveram em novelas, seriados, comerciais e no Criança Esperança. Até pouco tempo atrás, Henrique contabilizava cerca de 178 músicas gravadas por artistas e disponibilizadas por gravadoras e plataformas digitais. O número de composições feitas por ele, porém, passa de mil. O home já cantou com diversas figuras do meio artístico (Arquivo pessoal/Henrique Marques) De compositor desconhecido a parceiro dos artistas O caminho até os grandes intérpretes não foi simples. Henrique conta que, no começo, precisava procurar pessoalmente os artistas para tentar apresentar suas músicas. Ele chegou a esperar durante horas na porta de shows de verão em Praia Grande para tentar entregar seus demonstrativos. Em uma dessas ocasiões, ficou cerca de quatro horas esperando Bruno & Marrone. “Logo de cara, eu acho que é uma batalha para todo compositor, porque a gente não é conhecido até se tornar conhecido.” Com o tempo, a insistência deu resultado. A dupla Edson & Hudson está entre os primeiros artistas a abrir espaço para suas composições. A parceria ajudou a aumentar o reconhecimento de Henrique no meio musical. Os dois passaram a convidá-lo para apresentações e a divulgar seu trabalho. Outros artistas começaram a perguntar quem era o compositor por trás das músicas. A história chegou até a televisão. Depois de uma apresentação que ganhou grande repercussão na internet, o Programa do Jô (apresentado por Jô Soares) procurou Bruno & Marrone pensando que a música era da dupla. O escritório dos artistas indicou Henrique, que acabou participando do programa. A partir daí, outras portas se abriram. Médico dos próprios artistas O homem é natural de São Paulo, mas vive há diversos anos na Baixada Santista (Arquivo pessoal/Henrique Marques) A relação entre Henrique e alguns artistas não ficou restrita à música. Ao longo dos anos, ele também atendeu alguns deles como médico. Entre os nomes que já passaram por seu atendimento estão Bruno, Marrone, Ximbinha, Joelma, Alexandre Pires e Zé Henrique & Gabriel. Ele virou até padrinho de casamento do Bruno e também de Marrone. Daniel Uma dessas histórias envolve Daniel. Durante a residência de cirurgia geral, Henrique teve uma ideia para ajudar uma ação beneficente promovida pelo cantor, que arrecadava alimentos e agasalhos. Na época, havia necessidade de aumentar os estoques de sangue. Henrique sugeriu que pessoas que fossem doar sangue recebessem ingressos para acompanhar uma partida beneficente organizada pelo cantor. A ação resultou, segundo ele, em mais de 350 bolsas de sangue arrecadadas em um dia. A medicina, portanto, nunca deixou de fazer parte da trajetória do compositor. Atualmente, ele atende como clínico geral e proctologista em uma clínica de São Vicente, além de atuar em outros consultórios. Na música, continua fazendo apresentações em eventos de verão, festas de empresas, prefeituras e casas noturnas. No ano passado, gravou um audiovisual comemorativo pelos 25 anos de carreira, com a participação de artistas que já registraram suas composições, além de outros convidados. Não tem lugar Mesmo depois de tantos anos, Henrique ainda mantém o hábito de compor em qualquer lugar. “Compor não tem horário. A gente está tomando banho, está compondo. Está dirigindo, está compondo. Está em casa, está passeando, está olhando uma frase. Vai compondo e aquela frase vira tema de uma música.” E foi justamente essa vida dividida entre consultórios, hospitais, estúdios e palcos que fez com que, anos depois de um atendimento que ele próprio não conseguia mais lembrar em detalhes, recebesse um dos maiores reconhecimentos de sua trajetória médica. Em 2008, Henrique atendeu Isaías após o policial ser baleado durante uma ocorrência em Santos. Dezoito anos depois, os dois se reencontraram por acaso em Praia Grande. O policial reconheceu o médico, contou que jamais havia esquecido daquele atendimento e fez questão de agradecer. Para Henrique, a lembrança que permaneceu não foi a do caso clínico, mas a da gratidão recebida tantos anos depois. “Quando isso acontece, são presentes que não têm preço.”