[[legacy_image_292307]] Por sua importância, o leite materno é definido por profissionais de saúde como um alimento padrão ouro. Tal qualidade deu origem ao Agosto Dourado, campanha criada em 1992 pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Fundo das Nações Unidas pela Infância (Unicef). Leia a seguir uma reflexão sobre o tema. Seis anos depois da sua formação como médica, a senhora começou a levantar a bandeira do aleitamento materno, porque viu de perto, no Hospital Guilherme Álvaro (em Santos), onde atuava, crianças morrendo por desnutrição, não é mesmo?Para a gente, foi um susto imenso, porque víamos muita tristeza nessas crianças que morriam, que adoeciam e, aí, nós tivemos essa curiosidade de levantar 2 mil crianças abaixo de 2 anos. Apenas 27 amamentavam, e criança que mamava no peito não vinha ao hospital. Nesse momento, tivemos também, dentro da equipe, uma pessoa fantástica, que era o nosso filósofo, o doutor Paulo Sérgio Andrade Silva. Ele falou assim: “Keiko, do que adianta a gente ficar cuidando dessas crianças que já estão com a consequência do desmame?” Aí, nós começamos a grande bandeira que foi para o mundo, não só para o Brasil, do incentivo do aleitamento materno. Uma criança amamentada recebe de sua mãe não apenas o leite, mas o seu olhar; hoje, sabemos que, se você olha nos olhos, é cientificamente comprovado que é muito importante para aquela criança sobreviver, ela vai se sentir amada. Na década de 1990, a senhora trabalhava na Prefeitura de Santos e houve uma pesquisa porque havia um grande índice de mortalidade infantil e desnutrição. Como foi isso?A Prefeitura de Santos, naquela época, fez um convênio com a extinta LBA (Legião Brasileira de Assistência), que tinha como objetivo recuperar o desnutrido. E, naquela época, a gente trabalhava na região do Valongo. Qual não foi a nossa surpresa que, de 197 crianças, apenas nove amamentavam. E aí nós vimos também a grande causa da repetência (escolar) daquelas crianças, das que morriam e de tudo aquilo que a gente via de tristeza. Hoje, nós temos dois bancos de leite na Baixada Santista e dois postos de coleta, em Itanhaém e Praia Grande. É suficiente?Não, infelizmente não é suficiente, porque o leite do banco é para crianças graves ou potencialmente graves, para crianças de UTI, hospitais e tudo mais. O Hospital Guilherme Álvaro, por exemplo, hoje está lotado de crianças prematuras internadas que precisam do leite humano. Então, mães que tiverem leite: o seu excedente não joguem fora, doem para o banco de leite. Uma criança que nasce com 500 gramas recebe 2 ml (mililitros). O pouco faz a diferença. Inclusive, no banco de leite de Santos, que tem seu nome, no mês passado a gente tem um dado de 20 litros de leite coletados.É pouco. O ideal é sempre ter em estoque, que a gente nunca tem, 30 litros. Principalmente do colostro, o leite dos primeiros dias, porque esse leite é o que tem mais produtos de imunidade para o prematuro. Faltam doadoras?Muito. É diferente de doadora de sangue, porque ela (a mãe) só pode ser doadora enquanto estiver amamentando. Aqui em Santos, por exemplo, a gente tem um índice de natalidade bom, mas não chegam a ser coletados nem 30 litros, para ter reserva. Para ser doadora, existem restrições?Basta ser saudável e ter dentro de si um espírito de caridade muito grande. Eu acho que aquela pessoa é feliz, porque ela, ao doar o leite para uma criança que precisa, vai fazer da mãezinha dela um ser feliz. Doar leite humano é um ato divino, porque pode salvar muitas vidas de crianças pequenas. A gente fez uma pesquisa que constatou que 2008 foi o ano de maior doação de leite em Santos. Foram 877 doadoras. A gente contabilizou o número mais atual, de janeiro para cá, e a gente viu só 185 mães.Algo muito baixo. É uma pena, e a gente precisando tanto de leite. É só ir na primeira doação do banco de leite: eles dão toda orientação, fazem o cadastro e eles vão buscar o leite na sua casa.