Além dos movimentos diários e semanais regulados pela Lua, as marés do litoral de São Paulo também respondem a ciclos diretamente associados às estações do ano (Reprodução) Nos últimos dias, a Baixada Santista e o resto do litoral de São Paulo têm registrado o fenômeno conhecido como "maré viva", caracterizado por marés de maior amplitude. Segundo Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) em Santos, essa condição ainda se faz presente, com uma maré considerada razoável. No entanto, a região já inicia um período de transição lunar, nesta quinta-feira (2), o que fará com que o fenômeno se dissipe. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O especialista explica que a amplitude da maré, que é a diferença entre o momento mais baixo e o mais alto da água, começará a diminuir progressivamente. Após entrar na semana de um dos quartos lunares (Lua Crescente ou Minguante), a maré deixa de ser viva. Contudo, essa calmaria é temporária: daqui a uma semana, a amplitude voltará a aumentar novamente. Como funciona a maré viva? Apesar de parecer um termo informal, "maré viva" é um conceito técnico real e amplamente utilizado. "O termo maré viva existe, ele é muito tradicional, principalmente em Portugal, para essas marés de maiores amplitudes", afirma Christofoletti. Na prática, são os momentos em que o mar recua muito mais (a maré baixa bastante) e também pode subir muito mais do que o comum. O funcionamento das marés ocorre em diferentes escalas de tempo. Há o ciclo diário mais rápido, em que a maré sobe e desce a cada seis horas. Paralelamente, a intensidade desse movimento varia a cada sete dias, dependendo diretamente da fase em que a Lua se encontra: se é Cheia, Nova, Crescente ou Minguante. Quando ocorrem essas marés mais amplas do que o normal, o fenômeno recebe o nome de maré viva. A dança dos astros e a força gravitacional A explicação para essa variação drástica no nível do mar está na Física e no alinhamento dos astros. "Esse alinhamento de Lua e Sol causa forças gravitacionais", explica o professor da Unifesp. Durante as fases de Lua Cheia e Lua Nova, a Lua e o Sol ficam alinhados com a Terra. Essa união de forças atrai a massa de água com mais intensidade, resultando em amplitudes muito maiores: o mar desce mais e sobe mais. Por outro lado, quando a Lua entra nas fases Quarto Minguante ou Quarto Crescente, a configuração espacial muda. Os astros formam um ângulo de 90 graus entre si em relação à Terra, o que acaba dividindo as forças gravitacionais. Como resultado dessa "aula de Física", a amplitude da maré cai: mesmo subindo e descendo todos os dias, a água baixa menos e sobe menos ao longo da semana. As variações ao longo do ano Além dos movimentos diários e semanais regulados pela Lua, as marés também respondem a ciclos mais longos, que duram alguns meses e estão diretamente associados às estações do ano. O professor da Unifesp em Santos explica que momentos como o solstício de inverno (que aconteceu recentemente) e o solstício de verão alteram a intensidade das forças que atuam no planeta. "São escalas mais de alguns meses que essas forças podem ser um pouco maior, um pouco menor", detalha Christofoletti. Por conta dessa variação sazonal, o recuo do mar e a intensidade das marés baixas já são esperados de forma muito mais acentuada em determinadas épocas do ano. Trata-se de mais um componente natural e previsível que os cientistas monitoram para entender o comportamento do nosso litoral. O impacto nos organismos Esse movimento previsível e predefinido dos astros mexe diretamente com a dinâmica dos organismos marinhos, que evoluíram ao longo de milhões de anos acompanhando esses ciclos. Como essas variações são regulares, muitos animais ajustaram seus ciclos reprodutivos e de comportamento a elas. Como exemplo, o professor da Unifesp cita o caso dos caranguejos vermelhos na Nova Zelândia, que realizam migrações em dezembro por identificarem o momento exato da maré de maior amplitude. No Brasil, a dinâmica é semelhante: "Os nossos caranguejos-uçá dos nossos manguezais têm ciclos reprodutivos que também seguem isso", conclui Christofoletti, destacando como a vida costeira está sintonizada com o ritmo do oceano.