O fenômeno natural de recuo da maré está relacionado à força gravitacional exercida pela Lua, pelo Sol e pela Terra, especialmente quando esses astros se alinham durante as fases de Lua Cheia e Lua Nova (Alexsander Ferraz/ AT) O recuo do mar observado em Santos, Praia Grande e demais cidades do litoral de São Paulo está relacionado à combinação de fatores astronômicos e meteorológicos. Na Baixada Santista, a altura da água depende tanto da atração gravitacional da Lua e do Sol quanto das condições atmosféricas, que podem favorecer o afastamento ou o acúmulo de água junto à costa. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Segundo Regina Ferreira, oceanógrafa do Núcleo de Pesquisas Hidrodinâmicas (NPH), da Universidade Santa Cecília (Unisanta), a influência desses fatores varia conforme as características geográficas de cada trecho do litoral. A falta de sensores oceanográficos em número suficiente, porém, impede uma comparação consistente das séries históricas de maré entre os municípios da região. Como as marés influenciam o nível da água A maré total resulta da combinação entre a maré astronômica e a maré meteorológica. A primeira é provocada principalmente pela atração gravitacional da Lua e também pela do Sol. Em condições habituais, essa variação pode ficar entre zero e 1,6 metro. Já a maré meteorológica é influenciada por fatores como ventos e pressão atmosférica. Dependendo da direção e da intensidade, o vento pode empurrar a água para a costa ou afastá-la, alterando o nível observado. Em determinadas condições, esse efeito já elevou a maré em até 80 centímetros acima do previsto. A combinação desses fatores pode provocar episódios de maré negativa, quando o nível registrado fica abaixo do zero de referência do marégrafo. Na Baixada Santista, um dos registros citados por Regina ocorreu em 9 de outubro, quando a medição chegou a -10 centímetros no equipamento da Praticagem, na Ponta da Praia, em Santos. O menor valor registrado em 2026 até então foi de -36 centímetros, em 28 de agosto, segundo a oceanógrafa. O menor valor de maré negativa registrado em 2026 na Baixada Santista foi de -36 centímetros (Paula Ribeiro/ Arquivo pessoal) A influência das fases da Lua As fases da Lua também interferem na amplitude das marés. Nas luas Nova e Cheia, ocorrem as chamadas marés de sizígia, com maior diferença entre os níveis da maré alta e da maré baixa. Nas fases Crescente e Minguante, as marés de quadratura apresentam uma variação menor. Essas oscilações naturais se combinam às condições meteorológicas. Por isso, o nível do mar observado em determinado momento não depende apenas da fase lunar: a atuação dos ventos e as mudanças na pressão atmosférica também podem contribuir para uma redução mais acentuada. Por que o efeito varia entre as cidades Embora a variação astronômica das marés tenha comportamento regional semelhante, os efeitos dos ventos não são iguais em todos os pontos da Baixada Santista. A orientação das praias e a geografia local podem alterar a maneira como o vento atua sobre a água. Morros, por exemplo, podem proteger determinadas áreas, enquanto corredores geográficos podem intensificar a circulação do ar. De acordo com a especialista, a quantidade insuficiente de sensores oceanográficos no litoral de São Paulo não permite comparar adequadamente as séries temporais de maré entre os municípios. Assim, não há base de medição suficiente para afirmar, de forma geral, em qual cidade o mar recua mais ou com maior frequência. Primavera e eventos extremos As marés negativas podem ocorrer todos os anos. Um estudo de Campos e Camargo, publicado em 2010 e baseado em dados históricos do Porto de Santos entre 1951 e 1990, identificou maior frequência de eventos extremos de redução do nível do mar associados à influência meteorológica durante a primavera. Esse comportamento não deve ser confundido com o das ressacas, que são mais frequentes no outono e no inverno. Embora ambos os fenômenos estejam relacionados às condições do oceano e da atmosfera, eles não são a mesma coisa: a maré negativa corresponde a um nível da água abaixo da referência do marégrafo, enquanto a ressaca está associada a condições de ondas mais intensas.