Desde a pré-história, seres humanos guerreiam. Estão atrás de água, pastagens, rotas comerciais, petróleo. Mudaram as formas de lutar, de se defender e de se ameaçar para evitar guerras — hoje, com bombas atômicas. Há normas para batalhas, que também se transformam e passam por questões sobre a licitude de pôr crianças para lutar, de explorar adversários vencidos, de matar inimigos subjugados. Nesses regulamentos nem sempre escritos, estão a possibilidade de se reconciliar com a outra parte no conflito e, para o combatente, de exercer a consciência e manter a humanidade para poder conviver consigo mesmo quando tudo terminar. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! E como fica o Brasil, um país que não está em guerra, mas poderia assim ser considerado por donos de interesses políticos e ideológicos internos e externos? São elementos em análise no livro As Regras da Guerra (editora Zahar, 336 páginas), do jornalista João Paulo Charleaux, de 47 anos. Santista e formado na Universidade Católica de Santos (UniSantos), Charleaux passou sete anos assessorando a Cruz Vermelha Internacional, onde procurou ajudar colegas, inclusive, a incorporar tais pontos ao seu trabalho. Também, enquanto repórter, acompanhou tropas brasileiras no Haiti na década passada. Esteve em Israel, nos limites com o Líbano, na fronteira com a Faixa de Gaza. Foi em uma série de textos analíticos para o jornal Folha de S.Paulo, relativos a possíveis crimes de guerra em Gaza à luz do direito internacional para mostrar o que são crimes de guerra e o que pode acontecer com quem os comete, que surgiu a ideia do livro. “Tinha análise política, militar, mas não, sobre o direito. (…) Quando comecei a trabalhar com o material, me dei conta de que precisava fazer uma perspectiva histórica, para mostrar de onde vêm essas regras. Fui recuando no tempo até a pré-história, basicamente — quando o ser humano começa a se organizar para confrontar outros grupos, quais são os resquícios arqueológicos disso”, conta Charleaux. Essa “arqueologia” passou por preceitos morais, religiões orientais, filosofias anteriores às de Jesus Cristo, pela interpretação de textos bíblicos na Europa medieval e por leis atuais. “Textos sagrados trazem recomendações sobre a guerra. Muitas delas são regras de contenção, ligadas a amor, solidariedade, perdão, empatia. Mas, para minha surpresa, muitas delas são ao contrário: são regras divinas que ensejam a violência”, demonstra. Nem tudo é permitido em uma guerra. O controle só pela lei “é muito frágil”. Mas “o respeito a essas leis torna possível você se reconciliar depois” com a nação oponente e seu povo. Sobretudo, “o exercício da consciência permite se reconciliar consigo mesmo. (…) Não poderia fazer nada que me dificultasse eu me reaver comigo, porque essa guerra acaba, e eu fico”. Belicismo “A bula papal que autoriza o avanço ultramarino em direção à América contém uma recomendação bélica: vocês vão encontrar povos que são gentios, não foram apresentados a Deus, e vocês estão autorizados a fazer a guerra contra eles” “A paz é uma forma de guerra (…). Significa que as pessoas oprimidas não têm oportunidade de contestar essa paz de forma violenta. (…) Quando você perde esse controle, você tem uma perturbação da paz. A paz não é uma paz em si: ela é só um estado de não guerra” “Tropas brasileiras passaram 13 anos lá (no Haiti), um pouco treinando para agir no Brasil, projetando um paralelismo da guerra civil que havia no Haiti com algo semelhante que haveria no Rio de Janeiro. Uma parte dessa mentalidade bélica foi importada para o Rio” “Em vez de você fazer um trabalho policial (contra o tráfico de drogas), você opta por fazer um trabalho bélico (…). Talvez você queira (não resolver), porque o envolvimento do crime organizado com a política é muito grande. Você não vai bombardear um palácio de governo” João Paulo Charleaux. Jornalista. “Primitivismo de ódio pode acabar com o mundo” O atual conflito entre Estados Unidos e Irã contém uma novidade discursiva. Ao invés das ideias de exportação de democracia e direitos humanos que justificaram batalhas, o presidente norte-americano Donald Trump “diz mais expressamente que ele tem interesse no petróleo” iraniano. “Mas não é que antes dele não houvesse violação (a princípios de guerra). Isso é muito notável no caso dele e é muito didático porque desnuda um padrão que de outra forma estaria muito encoberto por eufemismos”, considera João Paulo Charleaux. Para o jornalista, o discurso pode ter dois efeitos: uma “vulgarização” que dê margem para outros países agirem à maneira de Trump ou um desejo de afastamento, devido à “constatação de que esse é um nível tão baixo que a gente não quer frequentar”, como Charleaux nota a respeito da Europa. Contenção e armas Fará 81 anos, em maio, que acabou a Segunda Guerra Mundial. Jamais o planeta viveu período tão longo sem conflitos de extensão planetária. Para esse resultado, o jornalista cita estudiosos que concluem se tratar de avanços diplomáticos e econômicos. Mas lembra outros, para os quais tal situação de deve a uma “contenção mútua” pelo armazenamento de bombas nucleares. “A arma atômica é uma forma de preencher o vácuo do direito”, resume. “O que tem de verdade insofismável agora é a questão nuclear. Num desses retrocessos históricos, num desses primitivismos de ódio, de não contenção, você pode acabar com o mundo.” Por ora, já se usam drones, veículos não tripulados e máquinas autônomas, para se evitar o custo político de enviar soldados à morte. “Essa impessoalidade é um convite à violação”, adverte. E já se preveem as guerras do futuro, diz Charleaux. Nelas, no lugar de seres humanos, seriam atacados sistemas informacionais — bancários, previdenciários, de energia elétrica. Afetariam pessoas, e recuperá-los custaria mais do que reconstruir estruturas físicas.