Na foto, o local aproximado na rodovia e, à direita, uma das arcadas encontradas no sítio arqueológico (Reprodução e Reprodução/ Fotografias e Radiografias Dentais de Sambaqueiros do Estado de SP) Antes de a Rodovia Guarujá-Bertioga existir no litoral de São Paulo, a região onde hoje fica o km 17 já era ocupada por um sítio arqueológico conhecido como Sambaqui do Buracão. Localizado na Ilha de Santo Amaro, próximo ao Canal de Bertioga, na Baixada Santista, o local foi estudado por pesquisadores desde a década de 1940 e revelou dezenas de sepultamentos humanos e outros vestígios de populações que viveram no litoral há cerca de 2 mil anos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O sítio arqueológico foi observado pelo pesquisador italiano Ettore Biocca em 1946. Anos depois, entre 1962 e 1963, uma equipe de arqueólogos vinculada ao antigo Instituto de Pré-História da Universidade de São Paulo (USP), sob coordenação de Paulo Duarte, realizou escavações no local. As pesquisas identificaram 43 sepultamentos no Buracão. Eram 42 deposições individuais e uma dupla, totalizando um número mínimo de 44 indivíduos. Desse total, 24 eram adultos, com mais de 20 anos, e 20 eram subadultos, com menos de 20 anos. Sambaquis são sítios arqueológicos formados ao longo do tempo por populações que viveram principalmente em regiões costeiras. Essas estruturas podem reunir conchas, sedimentos, restos de alimentação, ferramentas, objetos, vestígios de ocupação e sepultamentos humanos. O que foi encontrado A documentação analisada posteriormente pelo arqueólogo Sérgio Francisco Serafim Monteiro da Silva, em sua tese de doutorado defendida no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE-USP), mostra que 28 dos 43 sepultamentos tinham materiais associados. Entre esses vestígios estavam 190 elementos de pedra, 435 valvas de moluscos, 335 dentes de peixes e mamíferos, 326 ossos de animais e 15 registros de material corante, incluindo ocre em bloco ou pulverizado. Os registros, portanto, contabilizam: 43 sepultamentos; 44 indivíduos, como número mínimo; 28 sepultamentos com materiais associados; 190 elementos de pedra; 435 valvas de moluscos; 335 dentes de peixes e mamíferos; 326 ossos de animais; 15 registros de material corante. Um dos sepultamentos descritos por Paulo Duarte também apresentava um conjunto de objetos trabalhados em osso e pedra que, segundo a descrição registrada posteriormente na documentação arqueológica, teria sido colocado dentro de uma carapaça de tartaruga. A relação com a rodovia O Sambaqui do Buracão não desapareceu simplesmente com o passar do tempo. A área foi atingida pela construção da Rodovia Guarujá-Bertioga, e estudos arqueológicos indicam que a estrada destruiu parte do sítio. Um levantamento relacionado ao patrimônio arqueológico da região do Porto de Santos informa que apenas um terço do sambaqui restou após a destruição provocada pela construção da estrada Bertioga-Guarujá. O mesmo documento registra que o sítio arqueológico ficava às margens do Canal de Bertioga e era conhecido também como sambaqui S3 na publicação de Biocca e colaboradores de 1947. Documentação do Governo do Estado de São Paulo também localiza o Sambaqui do Buracão no atual km 17 da Rodovia Guarujá-Bertioga e informa uma datação de 1950 anos, com margem de erro de 100 anos. Por isso, embora o sítio arqueológico tenha cerca de 2 mil anos, não é correto afirmar que os 43 sepultamentos estejam atualmente sob a rodovia. Os estudos disponíveis registram a destruição de parte do sambaqui, mas não apresentam um levantamento atual capaz de determinar quanto do sítio permanece preservado no solo ou nas margens da estrada. Dentes de tubarão Outro conjunto de vestígios do Buracão foi analisado posteriormente por pesquisadores do MAE-USP. Um estudo publicado na Revista do Museu de Arqueologia e Etnologia examinou cinco dentes de tubarão-branco provenientes do sambaqui. Todos apresentavam algum tipo de modificação. Um tinha perfuração; dois apresentavam perfuração e a base de fixação raspada, e outros dois tinham perfuração e desgaste. Três dos cinco dentes estavam associados a sepultamentos. O estudo classificou esses dentes entre os artefatos encontrados nos sambaquis e analisou características relacionadas ao seu possível uso como adorno ou instrumento. O que aconteceu com o material A documentação da tese de Sérgio Francisco Serafim Monteiro da Silva informa que os vestígios associados aos sepultamentos foram descritos em publicação e em relatório de pesquisas e estão acondicionados na reserva técnica do MAE-USP. Assim, parte do material retirado do Sambaqui do Buracão, incluindo restos humanos e outros vestígios arqueológicos, permanece sob guarda da instituição e integra o conjunto de materiais arqueológicos utilizados em estudos.