[[legacy_image_121921]] O ex-prefeito de Itanhaém Marco Aurélio Gomes (PSDB) é investigado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público Estadual (MPE) por dar uma suposta mesada de R\$ 4 mil ao ex-presidente da Câmara, Valdir Gonçalves Mendes, o Valdir do Açougue. O ex-vereador, que era do mesmo partido, foi preso em julho do ano passado acusado de participar de uma organização criminosa na Cidade, conforme publicado nesta segunda-feira (8) em ATribuna.com.br. No último dia 27 de outubro, Valdir do Açougue foi condenado pela Justiça a seis anos e nove meses de prisão, em regime inicial fechado. O processo que resultou na condenação não tem relação com o ex-prefeito, mas, durante as investigações, foi apurado que Valdir receberia dinheiro de Marco Aurélio e outros políticos e empresários, o que resultou na abertura de um inquérito policial separado para apurar esse fato. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Marco Aurélio foi prefeito de Itanhaém por dois mandatos seguidos, entre 2013 e 2020. Já Valdir foi parlamentar por quatro mandatos, entre 1993 e 2000, e de 2004 a 2012, assumindo a presidência do Legislativo entre 2006 e 2008. O ex-vereador teria começado a receber a mesada quando não exercia mais o mandato, ou seja, a partir de 2013. IntermediárioEm audiência judicial, Valdir do Açougue disse que recebia dinheiro por meio de um intermediário do ex-prefeito, o empresário Cezar Augustus Lopes Saliba, de 47 anos, que não teria vínculo com a Prefeitura. Saliba, porém, parece ser bem próximo de Marco Aurélio. Nas redes sociais do empresário, há várias fotos em compromissos com o ex-prefeito. [[legacy_image_121922]] Em depoimento à Polícia Civil, ao qual ATribuna.com.br teve acesso, Saliba disse que já foi filiado ao PSDB e fez parte de “um grupo político” na Cidade. Segundo o empresário, Valdir se queixou que, por não ter mais mandato, estava “financeiramente quebrado” e precisava de ajuda. O empresário afirmou que após conversar com empresários e político do seu grupo conseguiu a ajuda de R\$ 4 mil de forma “quase mensal” e que Marco Aurélio “colaborava com pequenas importâncias do seu próprio bolso”. Foro privilegiadoA investigação que inclui o ex-prefeito começou logo após a prisão de Valdir em 2020, quando mensagens no seu celular mostravam a cobrança de valores. Na época, porém, o caso foi encaminhado ao procurador-geral de Justiça, em São Paulo, porque, no exercício do cargo, o chefe do Executivo tinha prerrogativa de foro. Este ano, o inquérito retornou para Itanhaém. “Ainda temos que descobrir a origem desse valor, mas ficou muito bem caracterizado que, não só Valdir, mas outros ex-vereadores, que não ganharam a eleição, recebiam mensalmente R\$ 4 mil do então prefeito”, diz o promotor de Justiça Romildo da Rocha Sousa. “É uma série suspeita, quando eu tiver indícios suficientes, poderei oferecer a denúncia (à Justiça)”, completa o representante do MPE. Em conversas, a exigência de dinheiroA Reportagem teve acesso às conversas por aplicativo de celular entre Valdir e Saliba. O diálogo foi obtido pela Polícia Civil após o cumprimento de mandados de busca e apreensão da Operação Colche, que levou à condenação do ex-vereador. Em um dos trechos, Valdir cobra de Saliba o pagamento da suposta mesada. “Cezar, será que hoje o prefeito me dá aqueles quatro contos? Todo mês é uma dificuldade, cara. Não vou falar para ele porque é você quem faz essa correria. Oito anos, todo mês eu sou o último a pegar o dinheiro”. Em uma das conversas, Valdir pede o suposto pagamento dizendo que está com saudade de Saliba. Em outro trecho, o empresário afirma que deixou uma sacola no prédio do ex-vereador, mas Valdir reclama que teria faltado R\$ 500,00. “Ô meu patrão, aqueles R\$ 500,00 eu não esqueci, não. Avisa aí, três e meio não é quatro”. AudiênciaDurante audiência judicial, quando foi questionado pelo juiz Paulo Alexandre Rodrigues Coutinho sobre uma suposta mesada, Valdir do Açougue confirma que recebia R\$ 4 mil e que era entregue por Saliba. “No partido a gente fez uma reunião que aqueles que se elegessem iriam ajudar quem não se elegeu”. Quando questionado de onde vinha o dinheiro, Valdir disse que era “uma vaquinha” dos que se elegeram. O juiz pergunta, então, por que, se era algo lícito, era entregue de forma sorrateira, escondida. “Era a situação, eu ligava e ele falava que estava em tal lugar e eu ia buscar”, disse Valdir. “Para mim não era ilícito isso aí”. O promotor de Justiça Romildo da Rocha Sousa questionou o motivo de o dinheiro ser entregue em espécie. “Eu até preferia que fosse em dinheiro mesmo. Como tinha coisas a pagar, para mim era melhor”, disse o ex-vereador. O representante do Ministério Público também quis saber por qual motivo a cobrança era em cima do prefeito. “Ele arrecadava a vaquinha e eu tinha que cobrar ele, iria cobrar quem? Quem ganhou as eleições colaborava”, afirmou. DefesasA defesa de Valdir do Açougue afirma que nada de ilícito foi comprovado. “O parecer do MP (Ministério Público) é claro no sentido que não houve indícios de crime quanto ao ex-prefeito e Valdir, mas dá continuidade à investigação em relação ao Cezar Saliba, com a quebra de sigilo bancário e outras diligências”. O advogado de Marco Aurélio, Ricardo Ponzetto, afirma que os esclarecimentos já foram apresentados no inquérito policial, “refutando, veementemente, qualquer dúvida que pudesse pairar” e que aguarda “o arquivamento do inquérito policial pelo Poder Judiciário, ante a absoluta inexistência de elementos técnicos viáveis à instauração de uma persecução penal”. Quanto ao auxílio financeiro dado a Valdir, o advogado diz que “foi proporcionado por correligionários sob suas expensas pessoais. Fora disso, o que se tem são infundadas alegações de caráter meramente especulativo”. Procurado pela Reportagem, Saliba não retornou o contato.