Os sambaquis são verdadeiros arquivos no litoral de São Paulo (Condephaat/ Reprodução) À primeira vista, podem parecer apenas grandes montes de conchas espalhados pela paisagem. Mas os sambaquis são verdadeiros arquivos a céu aberto. Formados ao longo de milhares de anos, esses sítios arqueológicos ajudam pesquisadores a entender como viviam as populações que ocuparam o litoral brasileiro muito antes da chegada dos portugueses. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Na região de Cananéia, no extremo sul do litoral de São Paulo, a história ganha ainda mais profundidade: além dos sambaquis encontrados em terra, pesquisadores identificaram sítios com vestígios arqueológicos atualmente submersos. Afinal, o que é um sambaqui? A palavra pode parecer complicada, mas o conceito é simples. Sambaquis são sítios arqueológicos formados principalmente pelo acúmulo de conchas e restos de moluscos, além de outros materiais, como restos de peixes, alimentos, carvão e vestígios deixados pelas populações que ocupavam essas áreas. Com o passar do tempo, esses materiais foram sendo acumulados em camadas, formando elevações que podem ter aparência de pequenas colinas. O próprio nome ajuda a explicar a origem desses locais. O termo sambaqui vem de palavras de origem tupi-guarani relacionadas a monte e conchas. Um retrato de quem viveu por aqui Mais do que montes de conchas, os sambaquis funcionam como pistas sobre o cotidiano de populações antigas. A análise dos materiais encontrados nesses locais permite aos pesquisadores investigar hábitos alimentares, formas de ocupação do território e aspectos da organização dessas comunidades. Por isso, os sambaquis são importantes para a arqueologia e para a compreensão da ocupação do litoral brasileiro. Em Cananéia, a concentração desses sítios é especialmente significativa. Documentos de planejamento ambiental da região apontam a existência de diversos sambaquis e destacam a importância do município para o estudo do patrimônio arqueológico do litoral de São Paulo. Três sambaquis que viraram patrimônios Entre os sítios protegidos estão os chamados Três Sambaquis, localizados na Fazenda Boa Vista, em Cananéia. O conjunto foi tombado em 1987. A área protegida possui 26,5 hectares e foi reconhecida por sua importância cultural e arqueológica. A preservação é importante, porque muitos sambaquis foram destruídos ao longo da história. Durante o período colonial, por exemplo, parte desses depósitos de conchas foi explorada para a produção de cal, utilizada na construção de igrejas, fortes e outras edificações. E se parte deles estiver debaixo d’água? Essa é uma das histórias mais curiosas de Cananéia. Durante pesquisas arqueológicas realizadas na região dos manguezais, foram identificados oito sambaquis com vestígios arqueológicos submersos. O assunto foi estudado pelo arqueólogo Flávio Rizzi Calippo em sua dissertação de mestrado pela Universidade de São Paulo (USP). Mas como um sítio arqueológico que estava em terra foi parar embaixo d’água? Uma das explicações está nas mudanças ocorridas no nível do mar ao longo de milhares de anos. A pesquisa de Calippo investigou justamente a relação entre os sambaquis submersos de Cananéia e as variações do nível relativo do mar durante o Holoceno, período que começou há cerca de 11,7 mil anos e se estende até os dias atuais. Assim, o que hoje aparece escondido sob as águas pode guardar informações sobre paisagens e ambientes que eram diferentes daqueles que conhecemos atualmente. Um patrimônio que precisa ser protegido Os sambaquis são considerados patrimônios arqueológicos e não podem ser simplesmente retirados, destruídos ou modificados. Cada camada pode guardar informações importantes para os estudos científicos. Em Cananéia, a preservação ganha ainda mais importância diante da quantidade de sítios existentes na região. Estudos e documentos ambientais apontam que muitos sambaquis já foram pesquisados, enquanto outros ainda permanecem como importantes fontes para futuras descobertas. Preservar esses locais significa proteger uma parte da história de quem viveu no litoral muito antes de a região ter as cidades, estradas e paisagens que conhecemos hoje.