[[legacy_image_158141]] Um dia após receber a notícia de que seria contratada, uma moradora de Itanhaém perdeu a oportunidade de emprego. Rejiane Rodrigues de Oliveira Silva, de 42 anos, sofreu um acidente dentro de um ônibus enquanto estava indo comprar materiais para o novo trabalho. Desde então, ela não consegue levantar da cama, usa um colete na coluna e vive à base de remédios. Além disso, precisou levar 17 pontos na cabeça. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Agora, a auxiliar de enfermagem luta por um tratamento para recuperar a saúde e cobra atitudes da empresa responsável pelo transporte coletivo e da Prefeitura de Itanhaém. Com dores, vômitos e tonturas, a mulher depende do marido - que é autônomo e precisa cuidar dela e dos dois filhos. “Eu tinha uma vida com meu esposo e agora a gente não tem mais, porque eu estou em cima de uma cama e ele não pode trabalhar. Estou à mercê da boa vontade do município, é uma impotência total. Tenho medo de ficar com sequelas”. Em entrevista para A Tribuna, Rejiane descreve o acidente como “cena de terror”. O caso aconteceu por volta das 12h40 do dia 4 de janeiro, quando o motorista do ônibus municipal com destino ao Centro da cidade freou em cima de uma lombada, fazendo com que os passageiros pulassem. “Eu estava no último banco, bati a cabeça no teto e a coluna no chão”. No dia anterior, a mulher tinha fechado um contato particular de trabalho com uma família. Ela ajudaria nos cuidados com gêmeos que nasceriam entre o fim de janeiro e início de fevereiro. “Eu estava feliz porque começaria o ano já com o pé direito, ia trabalhar, colocar a vida para andar depois de tudo que passei ano passado por conta da pandemia. Mas no dia 4 aconteceu esse acidente estúpido e hoje eu estou aqui parada”. Além de prejudicar o próprio emprego, Rejiane explica que também se preocupa com a família para qual ia trabalhar. “Estavam contando comigo, mas eu estou aqui no escuro, em cima de uma cama sem poder fazer nada. Essa é minha indignação maior”. Acidente e consequênciasA auxiliar de enfermagem conta que não foi a única ferida no acidente, mas foi o caso mais grave. Segundos após o impacto contra o teto, ela sentiu fortes dores na coluna. “Meu marido sabe os primeiros socorros e me imobilizou no local”, explica, dizendo que não se lembra de muita coisa até a chegada do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Segundo Rejiane, a equipe médica queria que ela saísse de dentro do ônibus andando, apesar das dores. “Se não fosse meu esposo, poderia ter acontecido algo mais sério. O despreparo do Samu foi muito grande, foi bem complicado”. Ela foi levada até a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da cidade, mas desde então, busca pelo diagnóstico correto. A moradora de Itanhaém explica ao chegar na unidade, levou os pontos na cabeça, fez alguns raios-x na coluna e ficou sob efeito de remédios aguardando um médico até por volta das 20h, quando o marido dela exigiu atendimento. “Um médico me viu e me internou para pedir tomografia no dia seguinte. Passei a noite lá, de manhã fui informada que ia fazer o exame, mas 13h falaram que o SUS (Sistema Único de Saúde) não tinha liberado, então outro médico passou e me deu alta sem a tomografia”. Ela foi liberada com receita dos medicamentos tramal e dipirona. Nos dias seguintes, fez um boletim de ocorrência do acidente e, cerca de 10 dias depois, estranhou não apresentar melhora. Por isso, foi procurar a empresa Fênix, responsável pelo transporte público coletivo de Itanhaém. “Mandaram procurar um médico, procuramos e fomos achar um neurologista em Peruíbe (cidade vizinha)”, conta, dizendo que lá foi orientada a fazer uma tomografia. A empresa arcou com os custos do exame e da consulta, realizados no dia 15 de janeiro. O resultado da tomografia ficou pronto três dias depois, quando ela retornou à Peruíbe, mas foi atendida por outro médico, que constatou que os sintomas que a mulher sente são decorrentes de uma lesão na coluna próxima à medula. Rejiane foi orientada a tomar medicação e ficar 90 dias de repouso, para depois fazer fisioterapia. Porém, em 2 de fevereiro, ela voltou a procurar atendimento com o médico de Peruíbe que pediu a tomografia. Ele avaliou o exame, disse que provavelmente precisaria de cirurgia, recomendou um colete para a coluna e afirmou que ela faria fisioterapia caso melhorasse. Após mais 12 dias sem se sentir bem, Rejiane recebeu apoio de amigos, que pagaram uma consulta em um ortopedista e traumatologista de Mongaguá (outra cidade vizinha). “Ele falou que para fechar o diagnóstico concreto, precisa de três ressonâncias porque é cirúrgico”. Ao procurar a empresa Fênix para a realização desses exames, Rejiane conta que não recebeu mais apoio. Por isso, ela passou no atendimento público de Mongaguá no dia 16 de fevereiro devido às dores. Na ocasião, o médico pediu uma nova tomografia. “Com o resultado, ele disse que os exames não estão condizendo com o que sinto, então tinha que procurar um ortopedista e neurologista”. A mulher foi até o Centro de Especialidades Médicas de Itanhaém (CEMI) para ter fazer o pedido das ressonâncias sugeridas pelo ortopedista em que tinha passado, mas o especialista em Ortopedia da cidade negou o guia para tais exames. “Disse que não podia pedir esses exames, a não ser que pedisse primeiro um raio-x da coluna total, que demoraria”. Agora, ela aguarda o exame. Em busca de um diagnóstico concreto, a auxiliar de enfermagem enxerga as ressonâncias como uma “esperança” para ter o tratamento correto e se recuperar. Porém, sem condições financeiras, ela fez uma vaquinha online para arcar com os custos de exames particulares e não depender da fila da Prefeitura de Itanhaém. Revoltada, a mulher passou a denunciar nas redes sociais a falta de mobilização da empresa Fênix, que garantiu que iria ajudar a vítima do acidente no ônibus, mas não prestou mais auxílios. “Somos humildes, o aluguel também está atrasado. Quando pedimos ajuda para eles (Fênix), ligaram para meu marido e ofereceram R\$7 mil para não ter mais vínculo, uma barbaridade”. Visão médicaA Tribuna consultou o neurocirurgião, João Luís Cabral Júnior, que analisou o caso de acordo com os relatos da paciente. Segundo o médico, a ressonância magnética é essencial para definir a realização – ou não – de uma cirurgia. No entanto, o tratamento com o colete de jewett também é importante para evitar maiores danos durante a realização dos exames. “Existem várias técnicas de tratamento, desde a cirurgia até o conservador, que é o não-cirúrgico, mas desde que não tenha instabilidade, ou seja, que a vértebra não esteja solta. Se estiver solta, tem que fixar com a cirurgia chamada de artrodese. Porque se ficar instável, vai ficar machucando a medula e ela pode ficar com uma paraplegia, sonda de urina, entre outros”. Segundo ele, os médicos estudam a instabilidade por meio da ressonância. Por isso, o exame é decisivo para o tratamento correto. "Para ter a avaliação precisa do prognóstico e do tratamento definitivo".No entanto, durante o tempo de espera, a paciente deve seguir sem fazer esforço. O neurocirurgião acredita que não há possibilidade de lesão na cabeça devido aos sintomas que ela sente como tontura e vômito. “Geralmente o hematoma intracerebral ocorre nas primeiras horas, é progressivo. O paciente vai piorando e em poucas horas, entra em coma. Essa tontura chama-se síndrome labiríntica pós-traumática, que ela pode sentir por até três meses, além da dor de cabeça até a cicatrização”. RespostasA Tribuna procurou a empresa Fênix, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem. A Prefeitura de Itanhaém, por sua vez, afirmou que está realizando os procedimentos necessários para atendimento da paciente por meio da Secretaria de Saúde. “Em decorrência de sua situação clinica, é necessário a realização de uma ressonância para melhor avaliação do quadro e posterior confirmação, ou não, de uma intervenção cirúrgica. A Secretaria realiza as tratativas para o agendamento do exame com a devida urgência junto a rede SUS na Região”, diz a nota. A Administração Municipal ainda esclareceu que está acompanhando o caso “com a devida atenção, inclusive com a oferta de equipamentos hospitalares para uso da paciente”.