[[legacy_image_200844]] As praias do litoral paulista despertaram em Kayo Mathias uma inspiração artística que o segue desde os quatro anos - quando se mudou da capital para Itanhaém - até hoje. Ele encontrou no desenho uma paixão pela arte e, aos 22 anos, sonha em viver apenas disso. O objetivo está cada vez mais perto, pois Kayo sobe, de degrau a degrau, uma escada de sucesso: o desenho no papel passou para arte digital, que já virou até tatuagem e chegou a grandes artistas nacionais. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “Meu desenvolvimento inteiro teve a cultura da praia, com essa ‘vibe’ mais artística que o litoral traz”, explica o jovem, que viveu 14 anos em Itanhaém, considerando-se um ‘caiçara de coração’. Ele retornou para São Paulo aos 18 anos, mas têm na Baixada Santista um segundo lar. “Aquilo de ‘largar tudo para vender arte na praia’, a gente vê de perto morando no litoral. Sempre desenhei em frente ao mar, buscava inspiração para imaginar fora da caixinha. A praia dá estímulo criativo”, explica. Ele conta que a paixão esteve presente em sua vida desde a infância. “Desenhava antes de saber ler e escrever. Faço arte muito antes de qualquer outra coisa”. Para Kayo, fazer um desenho sempre foi natural, mas ele começou a perceber seu diferencial no período escolar. “Eu tinha noção de desenho e era estranho pra mim as pessoas não terem. Eu não penso, só faço. Foi quando percebi que fazia bem”. Ainda criança, ele copiava o que via: seja capas de DVDs, de cadernos e até as estampas das mochilas. “Foi quando eu comecei a comprar revistas de como desenhar super-heróis e mangá (história em quadrinho em estilo japonês). Era uma fase que eu queria aprender a desenhar e fiquei muito preso a isso para depois largar e entender que desenhar não tem regra”. [[legacy_image_200845]] O jovem enfatiza que cada um tem o próprio estilo de desenho e foi durante a adolescência que ele desenvolveu o seu. “Eu não gostava de arte digital, achava que era uma facilidade e quem desenha no digital não sabia no papel. Tinha esse preconceito”. Por isso, ele desenhava no próprio papel, tirava foto e publicava no Instagram, plataforma em que começou a ganhar notoriedade. “Era uma conta pessoal de fotos minhas. Mas sempre fui de acompanhar o cenário de música underground (alternativa) e independente e comecei a desenhar os artistas. A partir disso, comecei a ter reposts (repostagens)”, explica. Ele diz que a conta foi ganhando um alcance além de seu círculo pessoal devido aos desenhos de artistas e, por isso, ele resolveu fazer deixar o perfil apenas para isso. “Usei como ferramenta de divulgação do meu desenho, ainda mais por serem artistas do ramo mais independente, que proporcionavam facilidade de chegar junto”. ArtistasDe acordo com Kayo, o primeira artista que valorizou o seu desenho e chegou a repostar foi o cantor Spinardi, do grupo de hip hop Haikaiss. Isso ainda antes do Instagram, quando se usava mais o Facebook. “Na época, eles (banda) estavam começando a estourar com as músicas Sem Graça e Camaleão”. A partir daí, o jovem passou a ser notado por outros cantores, como Emicida (que curtiu um desenho) e ser convidado para shows. “Porque eu tinha o desenho em mãos e eles (artistas) falavam ‘me entrega em show tal’. Então quando eu ia passar as férias em São Paulo, ia em shows convidado pelos próprios artistas, como Haikaiss e Recayd, além do pessoal do trap e os produtores com quem eu tive mais amizade”. Segundo Kayo, ele foi criando uma conexão com as pessoas e enxergou nisso a oportunidade de criar um networking se apresentando com o nome de sua conta no Instagram ‘zikadasartes’. “Uns falavam com os outros sobre meus desenhos, era bem nichado. Um público pequeno, mas já de pessoas grandes”. ProfissãoKayo percebeu que o hobby podia se tornar profissão ainda novo, quando tinha 15 anos. “Percebi que dava para ganhar dinheiro porque um homem abriu uma barbearia e precisava de uma logo de uma caveira. Mas ele não queria a tradicional, então me indicaram e eu fiz o desenho no papel, transformei no digital, mas dei a arte na mão dele. Foi meu primeiro dinheiro”, explica, dizendo que não sabia como dar preço à arte. Ao se mudar para São Paulo em 2019, o jovem passou a estudar arte digital. “Entendi que não dava pra ficar vendendo encomendas feitas à mão porque não tinha como entregar. O mercado digital estava crescendo com o pessoal de design e ilustração, então comecei a querer estudar isso”, ressalta. Por isso, ele fez um curso que o apresentou às ferramentas e programas. [[legacy_image_200846]] “Mas eu larguei de lado e foquei mais em o que eu queria fazer do que nas regras do curso. Acabei criando um estilo meio único por não seguir nenhuma regra”. Ele acredita que todo mundo que aprende em uma mesma sala de aula acaba fazendo a mesma coisa. “No meu caso, eu sei as técnicas e teorias por ter estudado, mas sempre procurei fazer da forma que eu acho mais legal”. Para o jovem, esse diferencial faz com que as pessoas procurem ele, já que é o único que faz determinado desenho. “E partindo para o digital foi quando defini valores de acordo com meus gastos, como parcela do notebook e valor do Photoshop pago”, explica, dizendo que trabalha com preços acessíveis, mas que também ajudam nas contas de casa. Porém, sua principal dificuldade é explicar que ele não é designer. “Eu sou ilustrador, então o produto é diferente”. Por isso, Kayo deixou a profissão em paralelo, realidade que precisou se transformar durante a pandemia de covid-19. “A empresa em que eu trabalhava começou a ter corte de funcionários e eu precisei focar totalmente nos desenhos, tive que me virar”, ressalta Kayo, dizendo que começou a usar o antigo método de divulgação por meio de artistas nas redes sociais. “Como eles divulgavam, chegavam fãs querendo o desenho também. Desta forma, fui arriscando muita coisa. Fiz animação, estilo de arte mais blocado, mais solto, cartoon, realismo, enfim, fui fazendo”. De acordo com ele, a crescente foi grande durante a pandemia, já que toda atenção ficou voltada aos desenhos. “Eu tinha que ser bom naquilo para poder cobrar o valor que eu precisava e pagar as contas”. No entanto, ao arrumar outro emprego, a arte voltou a ser hobby. “Hoje em dia é bem mais estruturado com contratos, como não existia no começo. É algo que eu estudo muito, sonho fazer e viver disso”. [[legacy_image_200847]] RepercussãoCom o retorno dos eventos presenciais, Kayo recebeu ainda mais convites para shows. “É uma gratidão que eu tenho pelo reconhecimento através da minha arte. Hoje no freelancer eu trabalho mais com capa de single para Spotify, com artistas que estão começando e não tem dinheiro para lançar um clipe ou sessão de fotos. Isso tudo dentro da estética que eu criei. Sou muito feliz que as pessoas conseguem enxergar minha arte, saber que fui eu que fiz até sem ler a assinatura”. Atualmente, oportunidades de diversos setores estão surgindo na carreira do jovem. “Já tenho clientes como pessoal do Haikaiss, fiz da música para o MC Davi, sem contar os artistas pequenos”, enfatiza. Ele ainda recebeu convite para estampar uma coleção e foi notado até pela Netflix, após desenhar fanartes de séries e games. Kayo participou de um evento fechado com fãs para o lançamento de uma temporada da série Love, Death and Robots. “Recebi o convite deles (Netflix) e assisti ao vivo com os produtores da série. Isso foi um absurdo. Além disso, as pessoas foram ficando fã do meu trabalho, até que chegaram num ponto de tatuar um desenho que eu fiz. Foi surreal”. Agora, ele sonha além: viver da arte. "Foco muito em estúdios e empresas do exterior porque lá há uma valorização muito grande. O concept art é meu foco. Quero ser um artista de concept art lá fora, trabalhar com filme, jogos, ideias e ter meu próprio livro de artes".