[[legacy_image_49016]] “Ele disse que estava morrendo e não sentia mais o corpo. Ficou mole na cadeira, eu chamei a enfermeira e ela não quis colocar a mão. Eu peguei no colo, coloquei na cadeira de rodas e levamos para emergência”, relata uma parente de Leandro da Silva Saide, de 31 anos, sobre os momentos de aflição que teve com o motorista de aplicativo antes dele morrer em Mongaguá. Sem se identificar, a mulher relata à ATribuna.com.brdetalhes sobre o atendimento que Leandro recebeu no Pronto Socorro Central do município. Ela realizou um Boletim de Ocorrência como morte suspeita e homicídio culposo. Clique e Assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços! Pai de um menino de apenas seis meses, Leandro sonhava com um futuro melhor para a família. “Estava planejando a festa de um ano do filho”, ressalta a mulher que prefere não se identificar após receber diversas ameaças de telefones restritos. Ela explica que Leandro começou a sentir fortes dores no peito e nas costas no Dia das Mães, em 9 de maio. “Levei para um hospital que não deixaram entrar porque era apenas para Covid-19, então fomos para a unidade do Vera Cruz”, explica. De acordo com a parente, o motorista passou pelo médico, que receitou tramadol, conhecido como ‘tramal’. “Deu tramal com dipirona e outras medicações e mandou ir pra casa”, explica. No dia seguinte, portanto, Leandro voltou a passar mal por volta das 12h30. “Eu chamei o SAMU [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência] porque ele estava com dor no peito. Fomos para a emergência do PS, deram tramal novamente sem perguntar nada e liberaram”, relata a mulher. Porém, segundo ela, a dor não passou e o motorista foi encaminhado para o ortopedista por conta da dor lombar e no peito. Segundo a familiar, o ortopedista desconfiou de uma hérnia de disco. “Então ele recebeu encaminhamento para o neurologista. Como ele estava com muita dor, deram morfina. Eu falei ‘Doutor tem como pedir eletro ou algum exame’, mas ele disse que não tinha como porque era dor muscular”, explica. Desta forma, ambos retornaram para casa. Porém, na madrugada de terça-feira (11), o motorista passou mal novamente. “Por volta das 3h30 ele começou a ficar ruim, chamei a ambulância e o SAMU chegou 7h22. Levaram novamente para a emergência do PS, ele estava com o braço formigando e dor no peito”, enfatiza. Porém, Leandro novamente recebeu morfina. “Sem nenhum exame de novo”, desabafa. “Ele saiu mal, de cadeira de rodas. Estava reclamando de dor lombar, dor no peito e no braço. Mandaram no ortopedista de novo, fomos e explicamos a situação”, relata. Segundo a mulher, portanto, o ortopedista pediu raio-x da coluna: “Ele deu ok e falou que, por ele, Leandro tinha alta. Daí ele foi encaminhado para o clínico”. Segundo a parente, eles esperaram 40 minutos para passar no clínico. “Quando ele foi atendido, o médico falou ‘Nossa, você já tomou morfina, o que você quer aqui ainda?’”. Então, o motorista explicou as dores. “Eu pedi o Eletro, mas o médico afirmou que era dor muscular e iria receitar tramal. Ficou bravo comigo e mandou o Leandro fazer exame de sangue”, diz a mulher. Entretanto, o paciente piorou. “A boca dele ficou branca, a temperatura caindo. Eu falei para a enfermeira que ele estava passando mal e ela me perguntou se eu era médica. Eu expliquei que ele estava dois dias sem urinar e me disseram que iriam passar a sonda”, relata. Neste momento, portanto, Leandro começou a implorar por ajuda dizendo que estava morrendo: “Ele falou que não estava sentindo o corpo”. A mulher chamou a enfermeira, que disse que não poderia colocar a mão. Então, a própria familiar pegou Leandro no colo e colocou na cadeira de rodas. “O médico falou ‘Isso daí é frescura, é um fardo que você vai ter que carregar, é psicológico, ele tem que cuidar do psicológico dele’. Eu pedi pelo amor de Deus um eletro, mas ele insistiu que era dor muscular e frescura”, desabafa. Então, o motorista caiu da cadeira: “A enfermeira falou que ele estava fazendo gracinha”. Neste momento, a parente foi orientada a deixar o local. “Passou 40 minutos e falaram que ele teve uma parada, que não sabiam o que tinha causado. Ouvi o médico dizer que era só ensacar, como se ele fosse um lixo”, relata. Ainda segundo a familiar, uma testemunha que estava dentro da sala ouviu a equipe dizer que precisavam ‘arrumar uma causa para a morte’. “Deram adrenalina no pé, não fizeram nada. Agiram como se ele fosse nada, mas ele era trabalhador e pai de família”, ressalta. Então, a parente pediu que o corpo passasse por exames: “O médico queria colocar como morte indefinida, briguei com ele, perguntei por que ele matou o Leandro. Então eu fiz um B.O no mesmo dia”, relata a mulher. Segundo ela, o corpo de Leandro passou por exame e o resultado ainda não saiu. “Fizeram um exame de sangue para saber se foi por conta dos remédios, se foi infarto, o que realmente causou a morte”, finaliza a parente. A Secretaria de Segurança Pública (SSP) confirmou a denúncia. De acordo com o órgão, o boletim de ocorrência é sobre uma pessoa que morreu por suposta negligência médica após ir até a unidade médica no dia 9, 10 e morrer no dia 11. O caso foi registrado na Delegacia de Mongaguá como morte suspeita e homicídio culposo. RespostaProcurada pela reportagem, a Prefeitura de Mongaguá enviou uma nota sobre o ocorrido. Leia na íntegra: A Prefeitura de Mongaguá informa que, de acordo com o Instituto Alpha, que administra o PS Central, o paciente deu entrada em sala de emergência no dia 11/05/2021 trazido pelo SAMU, com sinais vitais dentro da normalidade. O paciente, pelo seu histórico de atropelamento anterior e dor lombar, foi encaminhado para atendimento clínico e devidamente medicado. Apresentou piora em sala de medicação, sendo de imediato levado à sala de emergência, onde depois de atendido, veio a óbito. Tanto o médico responsável pelo atendimento quanto a instituição se colocaram desde o início à disposição das autoridades para esclarecimento dos fatos, tendo inclusive, o médico requerido a abertura de boletim de ocorrência para realização de necropsia do paciente para determinação de causa mortis, para fins técnicos científicos e legais do SVO.