[[legacy_image_206173]] Uma ‘caixa misteriosa’ que surgiu na orla de Itanhaém surpreendeu uma equipe do Instituto Ecosurf que fazia um monitoramento de rotina na Praia do Centro no último fim de semana. Suspeitando em se tratar de um fardo de látex solto de um navio nazista naufragado na 2ª Guerra Mundial, os três homens recolheram o item. A hipótese da origem do material é confirmada pelo biólogo e professor da Universidade de Pernambuco (UPE), Clemente Coelho Junior, que acompanhou o aparecimento do primeiro fardo de látex na costa brasileira, em 2018. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! O jornalista e geógrafo João Malavolta explica que estava com os colegas Tiago Pinheiro e Vinicius Silva quando encontraram o objeto. Ele relata que o grupo logo desconfiou do que se tratava, já que no mesmo dia tinham visto fotos dos fardos de látex encontrados no nordeste desde 2018 em uma matéria sobre as manchas de óleo que atingiram a costa há três anos. “Na hora, a gente viu que se tratava do mesmo objeto. Foi uma surpresa muito curiosa isso ter vindo parar aqui”, ressalta João. No entanto, ele explica que o item é um agente poluidor, pois com o processo de degradação, vai se fragmentando “em micropartículas que podem ser ingeridas por organismos marinhos e causar prejuízos à vida marinha”. Além disso, pode servir de transporte para espécies invasoras. “Elas incrustam na superfície do material e podem ser transportadas por longas distâncias, causando desequilíbrios em frágeis ecossistemas”, afirma. Desta forma, o grupo recolheu o objeto para incluí-lo no acervo da Coleção Didática de Lixo no Mar, do Instituto Ecosurf. “Temos muitos resíduos que estão guardados e fazem parte de exposições que realizamos para falar sobre os problemas da poluição no oceano”, finaliza. O jornalista diz que entrou em contato com Clemente, pois além dele acompanhar as pesquisas sobre o aparecimento dos fardos de látex, é um pesquisador parceiro do instituto e conhece Itanhaém. “Ele nos trouxe muitas outras informações. Para nós, o que foi mais extraordinário é que é a primeira vez que existe um relato deste fardo de látex em praias do Sudeste. Até então, só apareceu no Nordeste”, ressalta. [[legacy_image_206174]] NavioPara A Tribuna, o professor confirmou que a principal suspeita é que seja um fardo igual aos demais que surgiram na costa brasileira e ainda pontuou sua hipótese para o material ter chego ao litoral paulista. “Existe no Nordeste, praticamente, boa parte da Bahia até o Rio Grande do Norte, a corrente sul equatorial. É uma corrente de deriva, que vem em direção da costa africana para a nordestina e, nessa altura, vai derivar ao Norte, virando a corrente Norte do Brasil e, depois, deriva ao sul como corrente do Brasil. Se esse fardo fica por muito tempo sendo levado pelas correntes, há contracorrentes também, que podem ter colocado o fardo mais próximo. Então, a possibilidade de chegar no Sudeste e até mesmo no Sul não é descartada”. Ele ainda relembra que os estudos do Instituto de Ciências do Mar (Labomar), da Universidade Federal do Ceará (UFC), apontaram para um navio alemão como origem do material encontrado em 2018: o SS Rio Grande, naufragado em 1944. “A possibilidade de que seja o mesmo fardo do navio naufragado na costa da Paraíba é grande porque só se tem notícia do transporte desses fardos de látex deste navio. Até o momento, não existe nenhum outro estudo que mostre algum outro navio da época da Segunda Guerra Mundial que transportava este material”, enfatiza. O professor cita que, inclusive, a Polícia Federal emitiu um laudo sobre o material em abril de 2019. “Me lembro que os fardos chegaram no final de 2018 e foram coletados pela PF, que analisou e chegou a conclusão que tratavam-se de látex, mas era impossível identificar a fonte, de onde veio de fato”. Em sua visão, apesar da maior frequência ser no Nordeste pela proximidade do naufrágio, há possibilidade de mais itens serem localizados no Sudeste. “A corrente equatorial vai derivar ao Sul virando corrente do Brasil e aí a possibilidade é grande de chegar nas praias do Sul e Sudeste”, finaliza.