A Ilha Cardoso fica em Cananéia, no litoral sul de São Paulo (Reprodução/ MPSP) Uma mudança na circulação das águas está transformando a paisagem na região costeira entre São Paulo e Paraná. O rompimento de uma faixa de areia e vegetação abriu um novo canal para o mar, com cerca de 170 metros de largura, e fez com que um banco de areia começasse a crescer no trecho ao sul. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O processo pode resultar na formação de uma barreira de areia onde antes havia circulação de água. A alteração ocorre em uma área próxima ao Estreito do Melão, na Ilha do Cardoso, em Cananéia, no litoral de São Paulo, e chama a atenção pelos efeitos que pode provocar no ambiente, na pesca e na navegação. O fenômeno começa com a erosão. A movimentação das águas e as ressacas provocam o desgaste das faixas arenosas. Quando uma delas se rompe, a água encontra um novo caminho para chegar ao mar. Foi o que aconteceu na região, segundo o pesquisador Ronaldo Christofoletti, professor do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Com a abertura do canal de aproximadamente 170 metros, o volume principal de água passou a seguir por essa nova passagem. Isso reduziu a força do fluxo no trecho ao sul, na direção da divisa entre São Paulo e Paraná. A consequência foi o aumento da deposição de sedimentos. Quando a água perde velocidade, a areia que permanece em movimento tende a se depositar no fundo. "O mar tem areia circulando junto porque existe fluxo, e a onda revolve essa areia do fundo, mantendo os sedimentos na coluna d'água. Quanto mais lenta a velocidade da correnteza, maior é a chance de esse sedimento decantar e ir para o fundo", explica Christofoletti. Assoreamento e avanço da barreira Segundo o pesquisador, a redução do fluxo favorece o assoreamento e faz com que a barreira de areia avance enquanto o novo canal concentra a maior parte da água. "Como esse fluxo diminuiu no sentido sul, em direção à divisa de São Paulo com o Paraná, o local passa a sofrer assoreamento. A força reduzida da água favorece a deposição do sedimento, formando uma barreira que vai se fechando, enquanto o novo canal passa a concentrar a maior parte da água", afirma. O que era um vilarejo, em 2016, foi apagado pelo avanço do mar (Google Earth) O risco de um novo rompimento A mesma dinâmica ajuda a explicar a preocupação existente atualmente no local, onde uma estreita faixa de areia separa uma laguna do mar e está sofrendo com a erosão. A faixa funciona como uma barreira entre as águas da laguna e do oceano. Se houver um rompimento, a água que hoje segue pelo curso natural até a saída do estreito poderá encontrar um novo caminho diretamente para o mar. O processo erosivo é natural e está relacionado principalmente à movimentação das águas e às ressacas extremas que atingem a região. Neste ano, porém, a deterioração das margens se acelerou e aumentou o risco de rompimento da restinga. "Se a gente deixar isso ocorrer naturalmente, poderia haver um rompimento daquela margem, e a gente teria uma mudança, porque eu vou ter uma área lagunar se misturando com uma área de mar, e isso seria um problema", afirma Nelson de Campos Lima, diretor da SP Águas. A eventual abertura de um novo canal poderia mudar novamente a circulação da água na região, como ocorreu no trecho descrito por Christofoletti. Entre os possíveis impactos estão alterações na navegação e nas condições de pesca. Segundo Lima, algumas comunidades poderiam ficar praticamente isoladas, sem condições de navegar pelo trecho da mesma maneira como fazem atualmente. Obra tenta preservar a faixa de areia Para evitar que o processo de erosão avance até o rompimento da faixa arenosa, o Governo do Estado iniciou uma obra estimada em R\$ 12 milhões no Estreito do Melão. A intervenção ocorre em um trecho considerado vulnerável do Parque Estadual da Ilha do Cardoso e prevê a recuperação de 1,2 quilômetro de margem, sendo 600 metros de cada lado do estreito. A solução utiliza a própria areia existente na região. O material será colocado dentro de grandes tubos geotêxteis, que serão posicionados nos trechos mais vulneráveis para reforçar a margem e aumentar sua resistência à ação das marés, à variação do nível da água e, principalmente, às ressacas. A obra é executada pela Fundação Florestal, com projeto e acompanhamento técnico da SP Águas. O trabalho também é acompanhado pelo Ministério Público Estadual (MP-SP). O Governo do Estado iniciou uma obra de cerca de R\$ 12 milhões que busca reforçar a margem sem alterar a dinâmica natural da região do litoral de São Paulo (Fundação Florestal/ Divulgação) A estratégia foi definida como uma Solução Baseada na Natureza. Em vez de uma estrutura rígida para impedir a movimentação da água, a intervenção utiliza sedimentos da própria região para reforçar a margem e tentar preservar a dinâmica existente. "É uma situação natural. Por isso que a gente está usando material da região, tentando garantir com muito cuidado como vamos fazer essa proteção com geotubos, usando a área da região para impactar o mínimo possível e recuperar o sistema como ele já existe há muito tempo", explica Lima. Mudanças já afetam o ambiente A alteração na circulação das águas também provoca efeitos ambientais. Segundo Christofoletti, a mudança no fluxo de água doce que chegava ao mar tornou o ambiente mais salino, afetando os ecossistemas de manguezal e restinga e alterando a rota dos peixes. A mudança atinge também famílias e comunidades tradicionais que dependem da pesca artesanal. Por isso, a Fundação Florestal monitora a região em busca de Soluções Baseadas na Natureza. A proposta é utilizar intervenções que respeitem o funcionamento do próprio ambiente e reduzam os impactos sem recorrer a grandes obras de engenharia. "São soluções planejadas com base no próprio sistema natural, aproveitando o que a natureza ensina para minimizar os impactos, sem a necessidade de grandes intervenções de engenharia. A mudança na paisagem afeta diretamente famílias e comunidades tradicionais que têm sua cultura e seu sustento atrelados à pesca e à geografia desse local", afirma Christofoletti. Trabalho depende das condições do mar A obra no Estreito do Melão já começou, mas sua execução depende diretamente das condições naturais. Os trabalhos precisam ser interrompidos quando há ressaca, enquanto algumas etapas só podem ser realizadas durante períodos de maré mais baixa. A localização remota da área também exige o transporte de equipamentos e materiais por grandes distâncias. Por isso, o prazo estimado para a conclusão da intervenção é de nove meses. O objetivo é reforçar a faixa de areia antes que a erosão provoque um rompimento e altere novamente o caminho das águas, o que já ocorreu em um trecho da região, com a abertura de um novo canal e a formação do banco de areia.