Após fazer o programa de Educação para Jovens e Adultos, se formou em pedagogia e não parou mais (Divulgação) Impossível conhecer a trajetória de Lydia da Silva Gonçalves e não se surpreender. A poucos meses de completar 90 anos, a senhora moradora do bairro Santa Cruz, em Peruíbe, mantém uma biblioteca comunitária na garagem de casa. O projeto é a concretização de um sonho, que teve início após o fim de sua primeira graduação em Pedagogia, aos 65 anos. “Foi o maior presente poder compartilhar os livros e o conhecimento”, diz ela, que se sente devolvendo o que conseguiu com muito esforço e apoio da família. Nascida em 1936, na mesma região onde mantém o projeto, Lydia viveu grande parte da vida sem acesso à educação. Até os 60 anos de idade não sabia ler nem escrever. Foi após um golpe financeiro que ela decidiu mudar sua história, segundo ela. Ela explicou que assinou documentos sem compreender o conteúdo e perdeu parte de seu patrimônio. “Para evitar ser enganada e garantir meus direitos, eu precisava ingressar nos estudos”, afirmou. O caso que seguiu na Justiça, porém, foi o ponto de partida para um novo capítulo. Ela ingressou no programa de Educação para Jovens Adultos (EJA) e, com a conclusão, veio a decisão de ingressar em Pedagogia e não parou mais. No início, ela diz que a decisão de voltar a estudar causou estranhamento entre familiares e amigos, que esperavam que ela optasse por uma aposentadoria tranquila. Com o tempo, veio o apoio dos amigos e da família. Mesmo com a idade avançada, Lydia cursou ainda História Regional e se graduou em Direito. Mas, de todas as formações, foi a Pedagogia a que mais marcou, por permitir que atuasse diretamente na educação de crianças, além da própria convivência com colegas mais jovens, que sempre encarou como “uma troca de saberes”. Esforço Ainda assim, Lydia diz que não foi fácil. A rotina exigiu esforço: cansaço, longos deslocamentos e a diferença de idade. O segredo, ela diz, é não recuar. “Se eu queria algo, tinha que lutar”, resume. Sua persistência, segundo ela, foi o que permitiu que se dedicasse intensamente aos estudos. A senhora conta que também passou a ministrar palestras e conseguiu até publicar livros de sua autoria, entre eles, ‘Mosaico caiçara’ e ‘A for que encanta’. Suas obras darão base a um documentário que está em fase de produção, de acordo com ela. Lydia destaca o incentivo de uma professora como essencial em sua trajetória. Atualmente, afirma já ter lido centenas de obras e busca conscientizar sobre a importância da leitura, especialmente em comunidades onde o acesso ainda é limitado. “A pessoa sem leitura é cega”, reforça. Apesar das dificuldades e de momentos em que pensou em desistir, ela diz que a vontade de aprender prevaleceu. Após concluir o Ensino Superior, Lydia afirma ter ganhado confiança e uma nova visão de mundo. “Nunca é tarde para começar”, defende. E, mesmo com quase 90 anos, ainda tem mais planos para o futuro: pretende expandir a biblioteca comunitária que mantém em Peruíbe, incentivar a leitura e seguir compartilhando sua história por meio de palestras. *Reportagem feita como parte do projeto Laboratório de Notícias A Tribuna - Unisantos, sob supervisão da professora Lidiane Diniz e do diretor de conteúdo do Grupo Tribuna, Alexandre Lopes.