Catástrofe climática em Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, completa 59 anos neste mês (Divulgação/ Semil/ Arquivo) Entre 17 e 18 de março de 1967, o índice pluviométrico ultrapassou os 500 milímetros, com 13 horas seguidas de chuva e deslizamentos em Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo. Na época, a média de precipitação pluviométrica do Brasil, variava de 1.000 a 1.200 milímetros anualmente. Ou seja, choveu em apenas dois dias a quantidade esperada para seis meses. As marcas daquela tragédia, considerada o maior temporal do litoral de São Paulo, podem ser vistas até os dias atuais, com os chamados “paredões” sem qualquer tipo de vegetação nas encostas da serra. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Na época, casas foram arrastadas, famílias ficaram ilhadas e a cidade perdeu contato com o restante do Estado de São Paulo. Estradas foram destruídas, a energia elétrica caiu e o abastecimento de água entrou em colapso. Muitas áreas ficaram irreconhecíveis. Morros desfigurados e ruas soterradas compunham um cenário descrito por sobreviventes como “o fim do mundo”. Segundo a Prefeitura de Caraguatatuba, o desastre, conhecido como hecatombe, deixou 450 pessoas mortas, além de 3 mil desabrigados, cerca de um quinto da população local na época. Porém, o número oficial de mortos jamais refletiu com exatidão a dimensão da tragédia. A devastação foi tão impactante que especialistas classificaram o episódio como a maior tragédia natural do Brasil até então. O desastre também expôs a vulnerabilidade das ocupações em áreas de risco e a ausência de um sistema estruturado de resposta a emergências climáticas. O trauma coletivo impulsionou mudanças institucionais importantes. Anos depois, o Governo de São Paulo estruturou oficialmente a Defesa Civil Estadual, reforçando políticas de prevenção, monitoramento e socorro em situações extremas. Hoje, quando temporais voltam a atingir o litoral de São Paulo, a memória de 1967 ressurge como alerta. A urbanização acelerada, somada às mudanças climáticas, amplia o risco de novos episódios extremos. Para quem vive na região, recordar aquele março não é apenas revisitar o passado, é compreender que prevenção e planejamento continuam sendo as principais defesas contra a força da natureza. A causa Especialista mundial em mecânica de solos e fundações, o professor Arthur Casagrande, que na época prestava assessoria aos Estados Unidos, Índia e Suíça, veio até Caraguatatuba para ver o resultado da tragédia. “Nunca vi coisa igual na minha vida. Isso só ocorre a cada milênio. O que aconteceu em Caraguatatuba foi um evento natural - tromba d’água, fato raríssimo. Na história do Brasil nunca ocorreu nada igual”, disse Casagrande na época. O professor afirmou, durante a visita, que não ocorreu um terremoto, como imaginaram alguns moradores, devido ao barulho das pedras que rolavam morro abaixo das encostas da Serra do Mar nas noites de 17 e 18 de março daquele ano. Arthur Casagrande explicou que ocorreu uma precipitação excepcional, com dificuldades no escoamento das águas que encharcaram os morros, numa área de cerca de 200 quilômetros quadrados na escarpa da Serra do Mar, junto a Caraguatatuba. Foi, segundo os cientistas, a maior tragédia natural ocorrida no Brasil até então.