Viajar pelo mundo sobre “quatro rodinhas”, conhecer lugares, viver experiências e transformar a jornada em um processo de cura e homenagem a quem se foi. Essa é a história do influenciador gaúcho Roger Matheus Freitas de Oliveira, de 28 anos, que partiu de Porto Alegre (RS), de skate, rumo a Ushuaia, na Argentina, conhecida como o “fim do mundo”. Foram mais de 6,5 mil quilômetros percorridos por quatro países durante sete meses. Ele também esteve no litoral de São Paulo recentemente. Quer saber todas as curiosidades da nossa região? Siga o nosso canal do YouTube! Roger retornou ao Brasil e passou pela Baixada Santista na última semana ao lado da atual namorada, Catherine. Acolhido por moradores, conheceu parte do litoral paulista e, depois de permanecer em Guarujá, iniciou uma nova aventura com a companheira: percorrer a Baixada Santista de bicicleta. Para A Tribuna, Roger contou que a viagem até Ushuaia e o seu projeto representam muito mais do que uma aventura. Há cerca de três anos, ele perdeu a então namorada para o câncer. Os dois sonhavam viajar pelo mundo, fazer mochilão, montar um motorhome e viver experiências juntos. Antes de morrer, ela ouviu de Roger a promessa de que ele realizaria o projeto. Depois da perda, veio a depressão e uma longa luta para seguir em frente. Dois anos depois, durante as férias do trabalho, Roger pegou o skate que havia ganhado do padrasto aos 12 anos, uma mochila, uma barraca e algumas roupas. O destino foi Florianópolis (SC), onde percorreu toda a ilha de skate. A ideia era concluir o percurso em sete dias, mas ele ficou oito para conhecer pessoas, acampar e fazer trilhas. A experiência se tornou um ponto de virada. Roger acreditava que jamais voltaria a sentir a felicidade que tinha quando morava com a companheira, mas, em Florianópolis, percebeu que ainda poderia encontrar momentos de alegria. “Quando eu cheguei lá, consegui realizar essa etapa e vivi tudo que a gente queria ter vivido: se aventurar, viver e se conectar com a natureza. Aí eu senti uma felicidade tremenda”, conta. A experiência fez nascer o projeto Skate Nômade. Segundo Roger, a iniciativa busca inspirar as pessoas a acreditarem que nenhuma dor precisa ser o capítulo final da história e que os esportes salvam vidas. Para ele, liberdade começa “dentro de nós mesmos e sempre vale a pena seguir em frente, transformando a dor em algo bom, um aprendizado, um agradecimento por tudo que já viveu, independente da situação que tenha sido”. Ele compartilha a jornada nas redes sociais para incentivar outras pessoas. Atualmente, tem 132 mil seguidores no Instagram. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Ushuaia Roger passou a planejar uma viagem que tivesse o skate como principal meio de deslocamento e que, por exigir paradas frequentes, permitisse conhecer diferentes cidades e pessoas. A escolha de Ushuaia ocorreu pela distância: mais do que conhecer a cidade argentina, ele queria experimentar tudo o que encontraria no caminho até o extremo sul do continente. Foram sete meses de viagem, quatro países — Brasil, Uruguai, Argentina e Chile — e mais de 6,5 mil quilômetros percorridos. Desse total, 4 mil quilômetros foram feitos sobre o skate. O restante foi percorrido a pé ou com caronas, principalmente em trechos onde não era possível utilizar o equipamento, como áreas de areia ou locais sem pavimentação. No skate, uma homenagem acompanhava Roger. Segundo o influenciador, a ex-namorada havia dito que, depois de morrer, apareceria para ele como uma borboleta azul. A imagem foi incorporada ao equipamento e se tornou uma das marcas do projeto. Na sua jornada até o "fim do mundo", influencer passou por Uruguai e Chile. Ele "remou" em média de 70 a 80 quilômetros por dia (Arquivo pessoal) Namorada Antes de chegar a Ushuaia, a viagem também trouxe uma nova possibilidade para a vida de Roger. Após seis meses na estrada, ele conheceu Catherine durante uma trilha em El Chaltén, na Argentina. Os dois estavam viajando e acabaram se encontrando. Combinaram que se veriam novamente depois que ele chegasse ao destino final. Catherine voltou para Toledo (PR), enquanto Roger continuou a viagem. Depois de chegar a Ushuaia, ele comprou uma passagem para São Paulo. Ela saiu do trabalho, pegou um ônibus e foi encontrá-lo. Os dois seguiram para Guarujá em maio, onde foram recebidos pelo tio e pela prima de Roger, no qual foram visitar. Permaneceram no município por cerca de um mês, organizando os próximos passos da viagem. Litoral de São Paulo Antes de vir para a região, Roger contou que tinha uma visão limitada do Estado de São Paulo, associada principalmente à cidade grande, à correria e à violência. A passagem pelo litoral mudou essa percepção. Guarujá, Santos, Praia Grande, Itanhaém e Peruíbe fizeram parte do percurso. “Não tínhamos ideia da proporção que é o litoral paulista e de quão lindo ele é. De quantas pessoas boas também a gente conheceu aí no caminho”, afirma. Durante sua passagem pela Baixada Santista, entre maio e a semana passada, quando foi embora da região, Roger teve experiências que marcaram. Por Praia Grande, a passagem ficou marcada pelo acolhimento. Cansados, os dois pararam em uma praça na orla para descansar e tomar um energético. A intenção era seguir até Mongaguá, onde passariam a noite. Dois homens que jogavam beach tennis se aproximaram e conversaram com o casal. Depois de conhecerem a história da viagem, ofereceram a chave de um apartamento. Roger e Catherine ficaram no imóvel por dois dias, entre sexta-feira (31) e domingo (2), para descansar e organizar os próximos passos. Durante a estadia, fizeram ainda a trilha do Parque Estadual Xixová, acompanhados pelos moradores. Em Itanhaém, outra ajuda surgiu pelas redes sociais. O casal procurava um local para montar a barraca e dormir quando um homem de 60 anos viu a viagem pelo Instagram e ofereceu o quarto da mãe, que havia falecido. Depois de uma noite no local, Roger e Catherine seguiram para Peruíbe. Junto com a namorada, Roger percorreu várias cidades da Baixada Santista e passou pelo litoral Sul na última semana (Arquivo pessoal) Obstáculos e bastidores A jornada até Ushuaia também foi marcada pelo cansaço e pelas dificuldades. Nos primeiros dias, Roger chegou a duvidar que conseguiria completar o percurso. A mochila chegou a pesar 30 quilos, com comida, água e outros itens necessários para enfrentar trechos de 200 a 300 quilômetros entre cidades argentinas. Apesar dos obstáculos, ele diz ter encontrado na estrada uma sensação de liberdade que há muito tempo não experimentava. “Eu me senti a pessoa mais realizada do mundo com a sensação de liberdade. Eu vivi tanta coisa na minha vida que eu não esperava que fosse viver. Conheci tantas pessoas que me acolheram, que eu jamais imaginaria”, afirma. Roger deixou o Brasil sem saber falar espanhol. Ao longo da viagem, aprendeu a se comunicar no idioma e conheceu as diferenças entre o espanhol falado no Uruguai, na Argentina e no Chile. A experiência também mudou sua relação com bens materiais. Para ele, a estrada mostrou que é possível encontrar felicidade com pouco. “A vida é muito mais que isso, que as coisas materiais. A gente só precisa do básico para viver e ser feliz. Não precisa de muita coisa”, diz. Entre Argentina e Chile, enfrentou fortes ventos e condições difíceis nos desertos, mas também encontrou pessoas dispostas a ajudá-lo nas cidades por onde passou. Skate Mais do que um meio de transporte, o skate se tornou, para Roger, um símbolo de reconstrução. Foi a ferramenta encontrada para lidar com a perda, enfrentar a depressão e voltar a se movimentar. “O Skate Nômade é um projeto para mim que representa recomeço, porque ele nasceu ali da dor da perda da minha namorada e na luta contra a depressão”, afirma. Ele lembra que já utilizava o skate em Porto Alegre como uma espécie de rota de fuga, andando pela cidade com fones de ouvido. A experiência em Florianópolis mostrou que poderia transformar aquela relação com o esporte em algo maior. Para Roger, o skate representa equilíbrio em meio ao caos e liberdade. A escolha por utilizá-lo na viagem também foi proposital: ele queria que cada conquista exigisse esforço, resiliência e persistência. Para ele, a viagem mostrou que, mesmo depois de uma perda, é possível reconstruir a própria história. “A certeza de que existe esperança, existe um novo recomeço, existe um novo amanhã. Isso moveu muito o projeto.” Agora, ele pretende voltar de skate a Porto Alegre em dezembro. “Quero chegar em Porto Alegre até dezembro, nesse meio tempo vou descendo devagar e conhecendo o máximo de lugares que eu conseguir. Depois de Porto Alegre em dezembro vou pra Salvador (BA) e de lá sigo subindo pelo litoral”.