Visitação na Ilha só é permitida com autorização oficial (Divulgação/Marília Ruberti/Comunicação Butantan) A Ilha da Queimada Grande – popularmente conhecida como Ilha das Cobras – voltou aos holofotes nesta semana, após uma embarcação com três pessoas desaparecer próximo ao local na noite de sábado (23). Localizada a cerca de 35 quilômetros da costa, entre os municípios de Itanhaém e Peruíbe, no litoral de São Paulo, a Ilha é considerada um dos lugares mais perigosos do planeta. Coberta pela Mata Atlântica, sem praias e de difícil acesso, o local abriga milhares de serpentes venenosas, entre elas uma jararaca rara que não pode ser encontrada em nenhum outro lugar do mundo. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! O naufrágio não foi o primeiro registrado na região, que conta com outras tragédias históricas. O navio Rio Negro afundou em 1893; o navio Tocantins, em 1933; e o Araponga, em 1943. Todos colidiram contra a ilha sob intensa cerração. Além disso, em 2019, seis pescadores tiveram o barco virado durante uma tempestade. Quatro deles conseguiram nadar até a ilha, sobreviveram três dias se alimentando de bananas verdes e água da chuva, e foram resgatados. Outros dois, porém, não resistiram. Apesar da fama assustadora, as águas cristalinas que cercam a ilha atraem mergulhadores. Em 2014, pesquisadores descobriram uma barreira de coral de 75 mil m² a 12 metros de profundidade, considerada o recife mais ao sul do Atlântico. Porém, diferente de outros pelo mundo, ele é formado por apenas uma espécie de coral. Ilha das cobras e do fogo De acordo com o Instituto Butantan, estima-se que a ilha tenha pelo menos 15 mil serpentes. Em concentração de cobras por metro quadrado, ela só perde para a Ilha de Shedao, na China, que reúne cerca de 20 mil indivíduos. O nome “Queimada Grande” vem de incêndios que eram ateados com frequência por moradores e pescadores até o início do século XX. A prática, às vezes estimulada pelo próprio Estado, tinha o objetivo de afastar serpentes. As queimadas podiam ser tão intensas que eram avistadas do continente. Hoje, a ilha é Unidade de Conservação Federal e está sob responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Para visitar o local, somente com autorização oficial. Darwin explica A jararaca-ilhoa (Bothrops insularis), espécie endêmica, ou seja, restrita da Ilha, comprova a teoria de isolamento geográfico de Charles Darwin. Há cerca de 10 mil anos, quando o nível do mar subiu, uma população de jararacas ficou isolada na Ilha. Com isso, as cobras passaram a se adaptar às condições específicas do ambiente. Sem roedores disponíveis, elas desenvolveram cauda mais longa, corpo mais esguio e cabeça maior para capturar pássaros, que eram a única fonte de alimento disponível. Também por isso, adquiriram a habilidade de subir em árvores – comportamento considerado incomum para jararacas do continente. Até mesmo o veneno foi adaptado. Para evitar que as aves voassem após a picada e correr o risco de perder a presa, a espécie desenvolveu um veneno extremamente potente que pode matar um ser humano em até seis horas. Tesouro perdido Fora o misto de ciência e perigo, a Queimada Grande também é envolta em lendas. A mais conhecida fala sobre um tesouro escondido há mais de 500 anos por um explorador europeu. Segundo versões populares, as cobras teriam sido deixadas de propósito na ilha para proteger a fortuna. A hipótese nunca foi comprovada, mas gerou consequências inesperadas. Hoje, a jararaca-ilhoa é considerada criticamente ameaçada de extinção, muito por conta da ação de contrabandistas e colecionadores, que chegam a pagar fortunas por um exemplar da espécie. Lancha desaparecida No último sábado (23), a embarcação Jany, com três tripulantes, sendo dois homens e uma mulher, desapareceu próximo a Ilha das Cobras, em Itanhaém. Após a ocorrência, equipes da Marinha, da Força Aérea Brasileira (FAB) e do Grupamento de Bombeiros Marítimo (GBMar) se mobilizaram nas busacas para encontrar as vítimas. Até um momento, foi encontrado o corpo de uma mulher que estava na embarcação. A vítima, identificada como Maria Aparecida da Silva Dias, foi localizada na direção da Barra do Sahy, em São Sebastião, Litoral Norte do Estado.