[[legacy_image_270526]] Todo domingo, A Tribuna publica o resumo das entrevistas do dia anterior no programa Papo Tribuna, apresentado por Luciana Moledas na TV Tribuna. Os assuntos que movimentam a vida da Baixada Santista estão em debate, com participação de autoridades e especialistas. Neste sábado (27), o programa abordou a história do café na baixada santista. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! A coordenadora técnica do Museu do Café, Marcela Rezek, e a diretora técnica da Fundação Arquivo e Memória de Santos, Wania Seixas, falaram ao Papo Tribuna sobre a parceria entre as duas instituições em prol da história do café na Cidade. Como funciona a parceria, firmada neste mês?Marcela: A gente já tinha várias parcerias que tinham sido firmadas ao longo dos anos da existência da Fundação e do Museu, mas a gente resolveu retomar esse vínculo, que por vezes ficava um pouco informal, e colocá-lo no papel para justamente trazer a história do café, totalmente ligada à de Santos. Wania: Às vezes, as pessoas não têm a noção do papel da Fundação. Temos a guarda de três milhões de documentos, desde o século 18 até os dias de hoje. Nossa documentação conta a história de Santos e a do café economicamente. Essa parceria vai ser muito legal porque nós temos a questão do acervo deles e o nosso. Juntando, vai ter um bom caldo para bons projetos. Estamos começando, mas é uma história de sucesso. Marcela: E é um momento propício em que a gente consegue desenvolver projetos de pesquisa de forma conjunta, algo que sempre quisemos fazer e não conseguíamos. Os dois acervos estão muito bem mapeados. O arquivamento foi bem feito e a gente consegue executar um controle melhor de todo esse processo de pesquisa. Wania: É interessante porque há pessoas que trabalham na Fundação que já passaram pelo Museu e então conhecem tudo isso. A gente também tem um acervo iconográfico com 300 mil imagens. E os meninos do Museu já fizeram estágio na Fundação. Então conhecem o acervo, o que facilita nossa relação. A união desse acervo vai ajudar na divulgação da história e do turismo? Marcela: É um pouco de tudo. Vamos iniciar com o projeto de pesquisa, mas para dar frutos: roteiros, publicações e exposições. As pesquisas que vamos começar a realizar estão muito ligadas à preservação. Quando você protege (o material), você tem que divulgar de certa forma pela pesquisa. Conversamos sobre como a gente poderia montar, por esses mapeamentos, rotas que as pessoas pudessem referenciar e entender como é a arquitetura do café em Santos. Wania: É interessante que o santista vai ao Centro, olha os casarões e as demais construções, sem saber muitas vezes toda a história por trás, que é riquíssima. Nossa cidade é uma das mais antigas do País e cada pedacinho tem uma história para contar. O turismo é feito de experiência. Quando mais você sente aquele lugar, melhor, porque você leva aquilo para si. Quando você fizer uma rota, que for explicada e souber as histórias, isso encantará as pessoas e enriquecerá bastante. A partir daí, várias possibilidades vão se descortinar em relação a, por exemplo, fazer exposições. A Fundação faz muito isso. O acervo de fotos é bem rico, tanto do patrimônio quanto de costumes, de época. Atualmente, existem dois projetos, o Rede do Café e o Arquitetura do Café. Como eles funcionam?Marcela: O primeiro projeto foi o Arquitetura do Café, mais voltado para a divulgação nas redes sociais na época da pandemia. A gente começou a desenvolver justamente algo mais ligado com o mapeamento, como esse que faremos com a Fundação Arquivo e Memória, de edifícios que existiam ligados ao café. E o Rede Café, também junto com a Fundação, tem como ideia mapear instituições que trabalhem com temáticas que conversem com a temática do Museu do Café. E não só diretamente ligado: tem imigração, história de Santos e de São Paulo. Qual é a ideia da rota do café e o que ela pode trazer para a região?Wania: Com um mapeamento completo, a gente pode fazer essa rota para as pessoas conhecerem a história da Cidade, através do café e dos locais afeitos à questão cafeeira, e, depois disso, termos outros produtos. Vamos divulgar nas redes sociais, podemos fazer exposições, publicações, palestras, enfim, é algo que, depois que começar, são infinitas possibilidades. Não só divulgação turística, mas educacional e histórica também. Vai ser um avanço, principalmente na questão da pesquisa. Esse recorte é muito interessante e traz riqueza para a nossa história. A Bolsa, por exemplo, tem o cafezinho, mas possui uma imponência, por vezes até mesmo intimidando as pessoas. E esse trabalho aproxima. [[legacy_image_270527]] O historiador Jorge Henrique foi o outro convidado do Papo Tribuna desta semana. Ele falou sobre a importância do café para o desenvolvimento da Baixada Santista. Como era a cidade de Santos antes do café?Santos é uma cidade abençoada. Até 1870, era uma vila. Moravam cerca de 12 mil pessoas nessa região de Santos e São Vicente. O Porto de Santos ainda vivia do ciclo do açúcar. Naquela época, o Porto de Iguape era o maior da região, mas perdeu essa condição devido à tragédia ecológica do Valo Grande, que assoreou o Porto. Quando começou o ciclo do café em São Paulo, no Vale do Paraíba, só havia o Porto de Santos para escoar a produção, que veio toda para cá a partir de 1880. O do Rio de Janeiro era muito longe. Por isso Santos se tornou tão importante? Sim. A cidade começou a viver do Centro de Santos. Os comerciantes começaram a se aglomerar e isso coincidiu também, no início do século 20, quando vieram japoneses, espanhóis e italianos. Como Santos fervilhava de trabalho no Porto, essas pessoas começaram a vir para cá. Nesse período, foram criados os bairros Saboó e Vila Mathias, por exemplo. Só que o excesso populacional trouxe várias doenças. E aí surgiram os canais de Santos, no projeto de saneamento de Saturnino de Brito. Os aportes dos barões do café modernizaram o Porto e a Cidade acompanhou essa evolução. Quais outros avanços foram trazidos para a região?Santos se tornou a principal cidade do Brasil. Quando começaram a fazer os galpões para estocar o café, houve a necessidade de fazer várias mesclas: do café arábico com o rústico, por exemplo. Essas manipulações tornaram o café santista um dos melhores do mundo e muito cobiçado. Tanto que, na Bolsa de Nova Iorque, era chamado café santista e não brasileiro. Houve essa modernização, essa necessidade de trazer pessoas de fora, caso dos comissários de café, que formavam a burguesia de Santos entre as décadas de 1900 e 1920. Eles acabaram com a Santos colonial e fizeram nascer a Santos República. Os prédios que vemos até hoje na Avenida Senador Feijó e na Rua Braz Cubas, por exemplo, foram construídos por eles. Até qual período o café foi a base da economia?Até por volta de 1940, Santos ainda detinha esse título de cidade do café no Brasil. A partir de 1950, começaram a chegar as indústrias, casos da Petrobras e da CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), e viu-se uma nova era. O café ficou para uma segunda instância. O Brasil é o segundo país consumidor de café, mas, de longe, o maior produtor. Ele ainda é importante para a nossa economia?Sim. Ainda mais porque o café brasileiro é tradicional pela grande variedade, em razão da mescla que eu já citei, iniciada nos galpões de Santos. Quem trabalhava com café na Cidade tornou o produto diferenciado até hoje. E o Porto de Santos entra diretamente nisso...Santos sempre esteve na vanguarda de tudo, tanto politicamente quanto na área de trabalho, no caso do Porto. Os imigrantes vieram com mentalidade diferente e começaram ações sindicais. Santos foi considerada a Cidade Vermelha por muitos anos. Os trabalhadores do Porto defendiam questões sociais e de trabalho. E exportamos para o Brasil inteiro. É um orgulho.