Quem viaja com Bea percebe que o objetivo não é apenas caminhar, nem colecionar fotografias; ela quer que cada visitante compreenda o lugar onde está (Divulgação) O silêncio também pode transformar uma vida. Foi uma das coisas que Beatriz Krähenbühl, a Bea, descobriu quando viu a neve cair pela primeira vez. Da janela de casa, em Verbier, uma das mais tradicionais estações de esqui da Suíça, ela observava os flocos cobrirem telhados, árvores e montanhas. Não havia trovões, buzinas ou o barulho constante do mar que a acompanhou na infância em Santos. Apenas silêncio. Ela se emocionou e chorou. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Era 1996 e aquela santista criada entre o calçadão da praia, o cheiro de maresia e os dias quentes do litoral de São Paulo acabava de compreender que sua vida seguiria um caminho completamente diferente daquele que imaginara. Durante anos, ela repetia a mesma frase: “Nunca vou morar longe do mar”. Os Alpes provaram o contrário. Três décadas depois, Beatriz tornou-se uma das poucas profissionais brasileiras autorizadas a conduzir turistas pelas montanhas suíças e única com certificação internacional da UIMLA (Union of International Mountain Leader Associations), entidade que reúne os guias de montanha de diversos países. Incentivada pelo marido, Frederico Krähenbühl, suíço-brasileiro que também nasceu e cresceu em Santos, ela recebe brasileiros interessados em descobrir uma Suíça que vai além dos cartões-postais de Interlaken, Jungfrau e Zermatt. Mais do que acompanhar caminhadas, ela conduz experiências. São trilhas entre glaciares, lagos alpinos, vales escondidos, antigos caminhos de peregrinação, pequenas aldeias e montanhas que guardam milhões de anos de história geológica. Uma viagem em que cada paisagem ganha contexto. Cada montanha tem uma história, uma nova forma de olhar os Alpes. Los Angeles Curiosamente, essa mudança de vida não começou na Suíça, e sim em Los Angeles. Bea trabalhava como comissária de bordo quando conheceu Fred. Embora tivesse nacionalidade suíça, ele nasceu em Santos e já morava havia alguns anos em Verbier. O casal viveu um ano em Santos até decidir construir uma vida nos Alpes. Quando desembarcou na Suíça, em 1996, Bea mergulhou no universo do turismo. Verbier é um dos destinos de inverno mais conhecidos da Europa e recebe visitantes do mundo inteiro. Foi trabalhando na estação e no Hotel Verbier que ela começou a conhecer a região que, anos depois, se transformaria em seu escritório a céu aberto. “Sem perceber, comecei ali a construir uma relação forte com essa região.” Mas a vida seguiria outro rumo, com o nascimento do filho e uma carreira de 23 anos dedicada à educação infantil. Ela tornou-se educadora e diretora de creche e acreditava que permaneceria nessa profissão até a aposentadoria. Então veio a pandemia. Como milhões de pessoas ao redor do mundo, Bea começou a usar o Instagram para dividir pequenos momentos do seu cotidiano. No caso dela, o cenário era nada menos que os Alpes Suíços. As publicações mostravam caminhadas por paisagens que pareciam pinturas. As primeiras mensagens vieram de brasileiros que também moravam na Suíça e queriam caminhar com ela. Depois, vieram outras. Sem perceber, aqueles encontros informais transformaram-se em grupos organizados. Logo surgiu a necessidade de contratar um guia profissional de alta montanha. Foi justamente esse guia quem enxergou algo que Bea ainda não havia percebido: ela tinha vocação para aquilo. Mais do que conhecer a região, sabia contar histórias. Foi então que veio o convite para cursar a formação de Mountain Leader. Coragem Depois de uma carreira consolidada, estabilidade profissional e mais de duas décadas trabalhando na educação, Bea resolveu começar tudo outra vez. “Comecei a fazer essa formação, que durou três anos, isso após meus 50 anos.” Durante três anos, ela estudou intensamente. Aprendeu navegação, meteorologia, segurança em ambientes alpinos, geologia, fauna, flora, planejamento de expedições, gestão de riscos e interpretação da paisagem. Ao concluir o curso, conquistou uma certificação reconhecida internacionalmente. Hoje é a única brasileira formada como Mountain Leader pela UIMLA. “Essa profissão uniu todas as minhas paixões: a biologia, que eu estudei na Universidade Santa Cecília, em Santos, a educação, que sempre fez parte da minha vida, e a montanha, que eu aprendi a amar vivendo aqui.” Adaptação A adaptação aos Alpes não aconteceu de um dia para o outro. Primeiro veio o encanto pela neve. Depois, a descoberta das quatro estações do ano bem marcadas. Mais tarde, a convivência com os suíços. “Acho que a minha verdadeira adaptação aconteceu quando eu comecei a fazer amizade com os suíços.” Ela aprendeu francês, entrou para um clube de snowboard e passou a caminhar com os vizinhos. Foi então que percebeu algo importante: na Suíça, caminhar não é apenas lazer, e sim cultura e parte da identidade. Assim, o Val de Bagnes deixou de ser apenas o lugar onde morava para ser o lugar ao qual pertencia. Santos segue firme no coração e na bússola do casal, que volta para matar a saudade da família, dos sons da infância e do mar a cada dois anos. Além dos cartões-postais Quem viaja com Bea percebe que o objetivo não é apenas caminhar, nem colecionar fotografias. Ela quer que cada visitante compreenda o lugar onde está. Em uma trilha, é comum a caminhada parar por alguns minutos para explicar a origem de um glaciar. Em outro momento, a conversa gira em torno da formação dos Alpes, da colonização de um vilarejo ou dos animais que vivem naquela montanha. A paisagem deixa de ser cenário e transforma-se em conhecimento. “Gosto que as pessoas compreendam a paisagem. Não é só vir aqui e tirar a foto que viu no Instagram. É poder entender onde ela está”, diz Bea. Essa talvez seja a principal diferença entre um passeio turístico e uma experiência conduzida por quem fez da montanha sua profissão e seu modo de vida. Como bióloga de formação e educadora por vocação, Bea transformou cada caminhada em uma verdadeira aula ao ar livre. “No fim, ofereço não apenas uma caminhada, mas uma forma diferente de descobrir a Suíça.” Hoje, ela mostra que há uma Suíça escondida além dos cartões-postais, feita de pequenos vilarejos, glaciares pouco conhecidos, refúgios de montanha, trilhas silenciosas e histórias que raramente aparecem nos roteiros tradicionais. “Quando levo alguém para conhecer essa região e vejo a pessoa voltar encantada com um lugar de que ela nunca tinha ouvido falar, sinto que aí eu fiz o meu trabalho de verdade. A Suíça me acolheu há 30 anos. Hoje, a minha forma de agradecer é compartilhar esse país com outros brasileiros.” Roteiros para todos Quem imagina que caminhar pelos Alpes Suíços é uma atividade reservada para atletas experientes está enganado. Segundo Beatriz, há roteiros para praticamente todos os perfis de viajantes, desde quem nunca colocou os pés em uma trilha até montanhistas experientes. “Tem que ter um mínimo de condição física, mas tenho roteiros preparados para cada tipo de viajante. Há caminhadas tranquilas, para quem está tendo o primeiro contato com a montanha, e trekkings mais difíceis, que realmente exigem preparo físico e planejamento.” Para garantir que a experiência seja segura e agradável, ela faz questão de conhecer cada cliente antes da viagem. Muitas vezes, as conversas começam meses antes do embarque. A escolha da época do ano também faz diferença. Segundo a santista, cada estação oferece paisagens completamente diferentes e proporciona experiências únicas. Na primavera, entre março e maio, a montanha desperta após o inverno. A neve começa a derreter nas áreas mais baixas, as flores silvestres tomam conta das trilhas e aumenta a chance de observar animais selvagens. Já o verão, de junho a agosto, é ideal a quem deseja explorar os Alpes a pé. Nessa época, a extensa rede suíça de mais de 65 mil quilômetros de trilhas sinalizadas fica totalmente acessível, além da abertura dos passos alpinos e das rotas próximas aos glaciares. É o momento de viver experiências típicas da cultura local, como acompanhar a produção de queijos nas montanhas e ver os rebanhos pastando nos alpages. No outono, entre setembro e novembro, as paisagens ganham tons dourados e avermelhados que lembram cenários canadenses. O clima mais fresco favorece caminhadas longas, enquanto o número de visitantes diminui. Já no inverno, de dezembro a abril, a neve transforma a paisagem. Mesmo quem não pratica esqui encontra diversas opções de lazer, como caminhadas em trilhas preparadas sobre a neve e passeios com raquetes (snowshoeing), que permitem percorrer áreas cobertas por neve fofa em uma experiência bastante diferente. O que levar Independentemente da estação, Bea recomenda que os viajantes levem calçados apropriados para trilha, roupas em camadas, casaco corta-vento, mochila confortável, água, protetor solar, óculos escuros e acessórios adequados ao clima de cada época do ano. Outro ponto importante é o planejamento. “Os refúgios de montanha têm poucas vagas e costumam lotar rapidamente. Para quem pretende fazer um trekking em julho, o ideal é fechar tudo entre janeiro e, no máximo, março. Quanto mais cedo planejar, melhor será o roteiro.” Os roteiros organizados por Bea são personalizados e podem incluir de caminhadas leves a travessias de vários dias pelos Alpes Suíços e passeios culturais pelas principais cidades e regiões montanhosas do país. Interessados podem entrar em contato com Bea e Fred pelos canais oficiais: Instagram @beadventure.ch, site ou e-mail: info@beadventure.ch.